sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Ainda o Iraque

Vale a pena notar o que hoje escreve, num artigo publicado na imprensa internacional, o antigo MNE alemão, Joschka Fischer, a propósito do Iraque, após a saída das tropas norte-americanas:

"Nenhum dos problemas políticos urgentes originados pela intervenção americana - a repartição do poder entre shiitas e sunitas, entre curdos e árabes e entre Bagdad e o resto do país - foi verdadeiramente resolvido. O Iraque continua a ser um Estado sem uma verdadeira nação. Poderá, aliás, tornar-se num campo de batalha para os interesses opostos dos seus vizinhos. O combate entre o principal poder sunita, a Arábia Saudita, e os shiitas do Irão, pelo controlo do golfo Pérsico ameaça transformar de novo o Iraque num campo de batalha, cumulado por uma nova guerra civil. As vizinhas Síria e Turquia seriam provavelmente aspiradas para um tal conflito. Esperemos que o vazio deixado pela retirada americana não produza uma implosão de violência".

Não deixa de haver algo de tragicamente irónico nesta perspetiva, que é partilhada por muitos analistas. Quem, como Fischer, foi abertamente contra a intervenção americana, reconhece agora que, tendo-se ela produzido, tinha a obrigação de ter levado mais longe a sustentação da situação que acabou por criar.

4 comentários:

MFerrer disse...

O meu caro Embaixador que sempre nos brinda com claras posições e excentes textos, tem aqui uma posição algo periclitante.
A saída(?) dos americanos do Iraque é ainda uma enorme encenação e a maior parte doa operacionais oficiais serão substituídos por outros menos formais. Os chamados soladados de fortuna ou afora empresas privadas de segurança...
Qual seria o mal menor?
Fischer limita-se a constatactar o óbvio. O erro da invasão e destruição do partido Bass e do Estado,no Iraque, não é reparável com mais meia-dúzia de erros ou de crimes.
A única e definitiva vitória foi a de Israel que "comprou" tempo e assiste de bancada a uma cada vez maior divisão dos seus opositores.
Até um dia, não é?

PS - Apresento-me para o cumprimentar: Sou tio da Carla, cunhado do Eurico da Costa

Cumprimentos
Manuel Ferrer

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Manuel Ferrer: eu limitei-me a sublinhar uma posição que faz escola em muitos meios internacionais. Ela tem a vantagem de deixar claras todas a linhas de força contraditórias, que só prenunciam núvens futuras. Quanto à leitura da situação, fiz a minha num post anterior.

patricio branco disse...

a retirada militar é uma promessa eleitoral de barak obama e ele tem procurado cumpri las, tal como o SNS e o fecho de guantanamo.
Mesmo com riscos, é tempo dos eua se libertarem desse peso militar tremendo que é o iraque.
Problemas como estes (diferentes nacionalidades, culturas e religiões no mesmo país)interesses regionais, terrorismos, corrupção, etc, há noutras partes do mundo, umas estabilizadas, outras por resolver, latentes, outras resultando em guerras civis, genocídios.
Joshka fischer tem razão na sua análise, obama (os eua) tem razão na sua decisão politica.

Helena Sacadura Cabral disse...

Ora aqui está uma matéria acerca da qual continuo com as maiores dúvidas!