sábado, 25 de setembro de 2010

"e-mail" corporativo

De há uns anos para cá, o Ministério dos Negócios Estrangeiros criou, para cada um dos seus funcionários - diplomatas, técnicos e administrativos -, um endereço de e-mail próprio. A ideia, inteligente, seria proporcionar um canal de ligação entre a administração e os funcionários, servindo, ao mesmo tempo, de subliminar estímulo à sua desejável conversão às novas tecnologias.

Todas as boas ideias têm um "mas". No nosso caso, houve um "leak" que permitiu que todos passássemos a conhecer os endereços de e-mail de todos os outros. Mas qual é o problema, perguntar-se-á o leitor? É muito simples: quando alguém  ou algum serviço quer dar notícia de alguma coisa, por mais irrelevante que seja, manda indiscriminadamente (sem ter em conta se se trata de funcionários em Lisboa ou no estrangeiro, se somos solteiros ou casados, se temos filhos ou não) um mail a mais de um milhar (nunca os contei, mas anda nessa dimensão) de colegas.

Recordo que, uma vez, alguém se lembrou de avisar que a água ia faltar, no palácio das Necessidades, no dia seguinte. Com a maior das latas e displicência, a mensagem foi enviada a todos os funcionários do quadro do MNE, de embaixadores a contínuos, de Camberra a Washington, de Tóquio a Kiev. Todos fomos "obrigados" a perder algum tempo a ler uma mensagem perfeitamente escusada para quem vive no estrangeiro. Idêntica atividade tivemos que exercer quando, um dia, mudou, conjunturalmente, o horário de fecho do bar do palácio.

De outra vez, um guarda da Securitas deixou o serviço do MNE. Logo, carinhoso, escreveu-nos a todos - às largas centenas que estamos espalhados pelo mundo, para benefício dos administrativos da cidade do México ou de Nairobi, bem como dos embaixadores na Croácia ou em Seoul - lembrando, com frases sentidas, as boas horas em que tinha tido à sua cuidadosa guarda a sede da nossa diplomacia.

Uma descoberta - "foram encontrados junto à saída do Protocolo, uns óculos de marca Vogue, com hastes pretas e brancas" - mobilizou também, há alguns meses, a atenção de milhares de pessoas, que perderam o seu tempo a abrir e ler o mail que revelava o importante achado. Isto para não falar dos amáveis (mas impessoais) votos de boas-festas que aí se anunciam ao aproximar da quadra natalícia, dos convites para  lançamento de  livros que causam angústias - por impossibilidade de tomarem um avião a tempo - aos funconários em Sidney, Toronto ou Belém do Pará.  E muito mais...

Por agora, parece terem abrandado um pouco aquilo a que eu chamo os "attachments da paz" - aquelas patéticas mensagens furtacores, em estilo de "power-point", tendo como fundo música de elevador ou de "crooners" românticos, com fotografias de paisagens serenas, crianças ou velhinhos, passando ditos de natureza comportamental ou de auto-ajuda, quase sempre redundantes conselhos à "la Palisse", na busca da felicidade perdida (pelos que têm tempo para andar a escrever aquele tipo de coisas), com citações "sábias", com um "lettering" de zoom, letras ou palavras a pingar sobre o écran, às vezes em "brasileiro", muitas outras com clamorosos erros de ortografia. Temíveis são os que pedem, no final, que se circule a mensagem por "amigos", já não por ameaças  tenebrosas do nosso destino por quebra das "cadeias", mas pela poluição informática que potenciam.

Enfim, o meu endereço de "e-mail corporativo" tem sido tudo menos útil, até porque tem um espaço de armazenamento que, naturalmente, se esgota com facilidade, porque não se previam estas inusitadas "encomendas".

Apesar de tudo, tem algumas "vantagens". Há dias, por ele recebi um mail (oficial, de um departamento do MNE) convidando-me a fazer um curso...de francês. Normalmente, tomaria isso como uma graça provocatória ao embaixador em Paris. Sosseguei, ao ver que os funcionários das nossas embaixadas em Montevideu ou em Otava, dos consulados em Manchester ou em Xangai, também tinham recebido. E que todos partilhavam comigo das dificuldades de podermos estar presentes em Lisboa, às horas previstas para tal curso.

8 comentários:

Anónimo disse...

Rebolei a rir!
P.Rufino

Mário Machado disse...

A tecnologia só é tão eficaz quanto quem a usa.

margarida disse...

LOL!
(tamanho gigante!)

josé barros disse...

Ainda que aquela vontade de informar responda a uma preocupação de funcionamento democrático, às vezes o que é demais é erro e como se diz em prática habitual em França, “trop d’information, tue l’information”. Já agora, e para mais conforto dos funcionários que beneficiaram do e-mail próprio, que sejam criados postos de trabalho com a função de os ler e resumir. Estes “leitores d’e-mails” (não seria demasiado um para cada funcionário) viriam aumentar o orçamento do ministério mas seria uma forma de lutar contra o desemprego e levar alento àqueles que naturalmente têm outras tarefas a realizar...

Julia Macias-Valet disse...

: ))) !!!!!

Anónimo disse...

Sem comentários...
Mas... Com comentários

De facto quantas configurações de e-mail "divinalmente" caricaturadas
neste post...

Jamais pós ficará mail sobre mail, mesmo os de auto ajuda!!!???...
Isabel Seixas

Helena Oneto disse...

Hilariante!!!

Helena Sacadura Cabral disse...

Ó Senhor Embaixador num país em que se conhecem nomes de espiões e para onde são mandados, o e.mail corporativo é...uma hilariante coincidência!