Tinha acabado de chegar do meu posto em Angola e andava com umas maleitas para as quais procurava uma explicação. Em maio ou junho, fui fazer um determinado exame a um hospital. Passei por lá depois para conhecer o veredito e fui confrontado com a constatação de que me tinha sido detetado algo.
Ignorante mas muito preocupado, sem recorrer à óbvia solução que seria perguntar a um médico, faltei ao emprego e fui para casa, a meio da tarde. Afanosamente consultei a minha Enciclopédia Britânica – que, nesse tempo sem Inteligência Artificial, era para mim a bíblia das bíblias. Devo ter treslido o que no relatório se dizia sobre o meu estado de saúde e o que a doença significava em termos de gravidade e, para ser muito direto, concluí que os meus dias poderiam estar contados. Tão simples como isso.
Acontece que, na véspera, tinha sido convidado para ocupar uma certa função, com alguma responsabilidade. Tinha combinado dar uma resposta nesse dia. Assim, nessa mesma e infausta tarde, telefonei à pessoa que me contactara e declinei o convite, explicando que o fazia por "imperativas razões de saúde", que preferi não detalhar.
Nesses tempos em que não havia telemóvel, tendo-me sabido ausente do serviço, um amigo íntimo ligou para minha casa. Expliquei-lhe o que me estava a acontecer. Tomou rápida nota da sintomatologia com a qual eu já me punha com os pés para a cova e foi saber do assunto. Minutos depois, telefonou-me de volta: tinha falado com um reputado médico e, perante aquilo que os exames me tinham detetado, eu não tinha nada de grave e era completamente insensato estar inquieto e a alimentar especulações. E quase me insultou por tê-lo sobressaltado com uma doença de gravidade só imaginária.
Entretanto, eu tinha perdido a oportunidade de acrescentar uma linha interessante ao meu currículo profissional. Mas não tive coragem de voltar atrás – ou, no fundo, talvez não estivesse muito entusiasmado com a ideia. Durante estas décadas, fui-me encontrando regularmente com a pessoa que simpaticamente me tinha escolhido para essa tal função. Deve ter então concluído que eu lhe mentira ou que teria "melhorado". Um destes dias, pergunto-lhe.
Passaram assim quatro décadas. Hoje, fiz um exame idêntico ao de 1986. Quando a médica, sem qualquer alarme, me disse que eu continuava a ter os anteriores sintomas, mas que não necessitava de ficar minimamente preocupado, tive vontade de lhe contar este episódio da minha vida de hipocondríaco. Mas resisti: a simpática senhora teria com certeza mais que fazer do que ouvir mais um doente das doenças.
Uma coisa tenho por certo: daqui a mais 40 anos não vou ter oportunidade de testar se a tal sintomatologia ainda persiste. É que, até lá, haverá fatalmente um dia em que este hipocondríaco acabará, infelizmente, por estar cheio de razão...
(Dedico esta historieta ao meu amigo Francisco TL)

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