Nunca por aqui contei esta história, mas já a referi a amigos. Ocorreu há exatamente 40 anos.
Tinha acabado de chegar do meu posto em Angola e andava com umas maleitas para as quais procurava cura. Em maio ou junho de 1986, fui fazer um exame a um hospital. Quando recebi o veredito, fui confrontado com a constatação de que me tinha sido detetado algo.
Muito preocupado, sem recorrer à solução óbvia que teria sido consultar um médico, saí do emprego a meio da tarde e fui para casa. Afanosamente, consultei a minha Enciclopédia Britânica – que, nesse tempo sem Inteligência Artificial, era para mim a bíblia das bíblias. Devo ter treslido o que no relatório se dizia sobre o meu estado de saúde e o que a doença podia significar em termos de gravidade e, para ser muito direto, concluí que os meus dias poderiam estar contados. Tão simples como isso.
Acontece que, na véspera, tinha sido convidado para ir ocupar uma certa função, que implicava alguma responsabilidade profissional acrescida. Combinara dar uma resposta nesse dia. Assim, ainda na mesma e infausta tarde, telefonei à pessoa que me contactara e declinei o convite, explicando que o fazia por "imperativas razões de saúde", que preferi não detalhar.
Nesses tempos em que não havia telemóvel, tendo-me sabido ausente do serviço, um amigo íntimo ligou para minha casa. Expliquei-lhe o que me estava a acontecer. Tomou rápida nota da questão com a qual eu já me punha com os pés para a cova e foi saber do assunto. Minutos depois, telefonou-me de volta: tinha falado com um reputado médico e, perante aquilo que os exames me tinham detetado, eu não tinha nada de grave e era completamente insensato estar inquieto e a alimentar especulações. E quase me insultou por tê-lo sobressaltado com a minha doença, de uma gravidade só imaginária.
Entretanto, a verdade é que entretanto eu tinha perdido a oportunidade de acrescentar uma linha interessante ao meu currículo profissional. Mas não tive coragem de voltar atrás – ou, no fundo, talvez não estivesse muito entusiasmado com a ideia de ir ocupar o tal cargo. Durante estas décadas, fui-me encontrando regularmente com a pessoa que simpaticamente me tinha escolhido para essa função. Imagino que então deve ter concluído que eu lhe mentira, ou que teria entretanto "melhorado". Um destes dias, vou perguntar-lhe.
Passaram quatro décadas. Hoje, fiz um exame de rotina, idêntico ao de 1986. No final, quando a médica, sem qualquer nota de alarme, me disse que eu continuava a mostrar os anteriores resultados, e que não necessitava de ficar por isso minimamente preocupado, tive vontade de lhe contar este episódio da minha vida de hipocondríaco. Mas resisti: a simpática senhora teria com certeza mais que fazer do que ouvir um doente de doenças.
Uma coisa tenho por certa: daqui a mais 40 anos não vou ter oportunidade de testar se o tal resultado ainda persistirá. É que, até lá, haverá fatalmente um dia em que este hipocondríaco acabará, infelizmente, por estar cheio de razão...
(Dedico esta historieta ao meu amigo Francisco TL)

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