segunda-feira, junho 29, 2015

As leituras e as ideias

Alimento, com regularidade diária, desde há mais de seis anos, este blogue. 

Amigos e conhecidos perguntam-me, por vezes, que outros blogues leio. Ficam surpreendidos quando lhes confesso que, por falta de tempo, raramente leio blogues alheios. Mas mais surpreendidos ficam quando lhes asseguro que, desde há muito, deixei de ler blogues cujos autores professem ideias que sei, à partida, que são próximas das minhas. Procuro alimentar-me cada vez mais do contraditório e, em prioridade, só leio aqueles com quem, em princípio, sei que não vou concordar. Faço isso, não por masoquismo, mas porque o estímulo intelectual é-me cada vez mais essencial, para não me sentir preso a um mundo a-preto-e-branco, em que nos sentimos acomodados às palmadas nas costas das ideias confortáveis.

O maniqueísmo que o caso grego introduziu no debate entre nós, é um sintoma doentio, bastante triste e muito empobrecedor. Ontem, numa mensagem de Facebook, um leitor sugeria-me que eliminasse um link para um artigo de Jean Quatremer. Porquê? Porque entendia que as ideias nele refletidas tinham uma visão errada da situação grega...

Sobreviver no terror

 
Há dias, um amigo chamou a minha atenção para o facto de, nos últimos anos, se ter adensado uma infernal rede de controlo dos dados pessoais dos cidadãos, seja no fisco, na segurança social ou nas múltiplas áreas deste admirável mundo novo informático, onde uma simples busca no Google nos atulha de sugestões publicitárias subsequentes, também por via da geolocalização. Ele concluía que, por ora, como ainda somos servidos por um modelo democrático, permanecem alguns controlos de natureza jurisdicional que permitem atenuar o caráter "kafkiano" do processo, para concluir: "imagine que, de um momento para o outro, se implantava um regime autoritário e com menos garantias. Com o aparato já criado, os cidadãos ficavam totalmente nas mãos de um sistema infernal, como nunca aconteceu no passado".

Há cerca de duas semanas, com mais três convidados, fiz parte da mesa de oradores de uma conferência organizada pela Comissão Nacional de Proteção de Dados sobre esta temática. Devo dizer que foi para mim uma agradabilíssima surpresa verificar que a entidade que nos convidava cultivava uma saudável preocupação quanto à necessidade de uma consciência pública que esteja muito alerta para estes problemas. Foi um debate muito interessante em que um dos oradores, José Pacheco Pereira, deu alguns exemplos chocantes do modo como o controlo se começa a "apertar" em torno dos cidadãos e alertou para diversas dimensões desse novo mundo "orwelliano" que por aí anda, às vezes sem que disso tenhamos uma clara consciência.

Pela minha parte, embora tivesse centrado o que disse em algumas dimensões internacionais do problema, não me coibi de denunciar aquilo que considero um grave erro do "centrão" político (PS e PSD), ao dar sinais de partilhar a ideia da fusão dos dois serviços de informação existentes e, muito especialmente, ao ter permitido um aligeiramento da proteção do tratamento dos dados pessoais acessíveis aos serviços de informações, embora num modelo embrulhado em supostas garantias dadas por um punhado de magistrados. Lamento, em particular, que os socialistas, que entre nós deveriam estar na primeira linha de uma cultura estrita de liberdades, tenham sistematicamente nestes domínios uma tentação de se mostrarem "responsáveis", a armar ao "sentido de Estado", não percebendo que são utilizados como inocentes úteis para dar uma caução de esquerda a medidas fragilizantes dessas mesmas liberdades públicas. Não deixa de ser irónico que os cidadãos que se preocupam com estas questões se vejam obrigados a dar razão às objeções colocadas pelo PCP e pelo Bloco de Esquerda, que a mim me parecem totalmente pertinentes.

Na minha intervenção, também não deixei de destacar a incoerência em que incorremos ao darmos aval, sob pressão de uma agenda securitária movida pelo primado absoluto da luta contra o terrorismo e a criminalidade organizada internacional, à partilha de dados com Estados e sistemas que, não só não têm "standards" mínimos em matéria de garantias, no que respeita ao grau de "intrusão" na vida privada dos cidadãos, como levam mesmo a cabo - como agora se viu pelas escutas telefónicas americanas denunciadas pelo Wikileaks - ações de espionagem dos próprio parceiros internacionais que com eles colaboram. Se isto não é masoquismo político, não sei bem o que será.

Quem aceitar que, no binómio segurança-liberdade, "vale tudo" sempre em favor do primeiro elemento, acabará por dar razão aos métodos de Guantanamo ou, no caso da paróquia, às torturas preventivas a que Salazar chamava "abanões a tempo".

Volto ao que disse o amigo que referi no início deste texto. Se, sob a pressão dos atos terroristas, que devemos combater com firmeza, nos deixarmos colonizar por uma onda securitária obsessiva, onde as liberdades passem a ser uma espécie de luxo instrumental para os dias menos preocupados, acabaremos por criar sociedades "impossíveis", talvez mais seguras, mas onde viver passará apenas a ser sinónimo de sobreviver.

domingo, junho 28, 2015

O MNE e as insinuações

Ontem, ao ler uma notícia do "Expresso" dedicada a decisões sobre postos diplomáticos, fiquei chocado por uma referência nela feita ao embaixador Luis Barreira de Sousa. Nessa notícia diz-se que ele foi transferido de Bangkok para Lisboa por "alegados problemas financeiros e não esclarecidos".

Para um cidadão comum, que desconheça totalmente o assunto, como é o caso da esmagadora maioria dos leitores do "Expresso", a utilização de uma linguagem deste género, mesmo com a atenuação da palavra "alegados", poderá facilmente levar à ideia de que se estará perante um comportamento culposo de natureza financeira daquele diplomata. Já estou mesmo a ver a tradicional má-vontade existente em alguns setores contra a carreira diplomática mobilizar-se em insinuações mesquinhas sobre o tema, tendo a notícia como pretexto.

Ora quem conhece o problema - e há muita gente no MNE que o conhece - sabe que não é nada disso que se passa. Desde há décadas, a embaixada portuguesa em Bangkok usufruiu de um modelo de financiamento de algumas das suas despesas correntes muito próprio, atípico no universo das nossas missões diplomáticas, cujo detalhe não vem para o caso aqui desenvolver. Ao que julgo saber, o embaixador Barreira de Sousa, pessoa que conheço há muitos anos e cuja probidade me não oferece a menor dúvida, tomou decisões que conflituaram com o modo como o MNE pretendia gerir alguns problemas surgidos nesse âmbito. São estes, e tão só, os "alegados problemas financeiros", que, naturalmente, em nada colocam em causa a honorabilidade daquele funcionário.

Ficaria bem ao MNE dar-se ao trabalho de esclarecer o assunto, nos devidos termos. 

Ver-se grego

A língua portuguesa cunhou, desde há muito, a expressão "ver-se grego" para significar "encontrar-se numa situação difícil".

Há pouco, ao ver as caras dos cidadãos de Atenas em fila para os bancos, atazanados pelas meninas das televisões à cata de uma frase para comporem a reportagem, senti uma imensa solidariedade com a silenciosa dignidade de toda aquela gente anónima, nestes dias e horas atravessados por uma imensa incerteza face ao seu destino. Gente comum que foi apanhada em jogos políticos que tem muito escassos meios de influenciar.

Tenho alguns bons amigos gregos. Posso imaginar como se sentirão nestes momentos de grande dificuldade, em que o desespero deve estar a marcar a sua vida e das suas famílias. Não tenho sequer coragem para lhes falar, porque, francamente, não sei bem o que lhes dizer.

Entre nós, nos últimos meses, transformámo-nos numa espécie de aproveitadores oportunistas da situação grega para finalidades políticas próprias. Num imenso "prós e contras", Portugal dividiu-se entre os adoradores do Syriza e quantos o diabolizam. Pelas conversas, jornais e televisões, todos acabámos por "syrizar" o nosso quotidiano, num "achismo" de bitaites pseudo-informados, no fundo, utilizando o caso grego para sublinhar as nossas próprias clivagens internas e expressar o nosso sentimento face à Europa. Foi assim que nos transformámos num país de "voyeurs" da tragédia alheia, fazendo, à distância, as apostas sobre como as coisas vão acabar na Grécia.

O que me parece que talvez não tenhamos interiorizado verdadeiramente - embora eu saiba que pensar assim não é cómodo nem popular - é que um certo destino da Grécia acelera bastante a possibilidade de que, um destes dias, à nossa medida, também nos possamos "ver gregos".

sábado, junho 27, 2015

Ferraz de Abreu



Foi há bem mais de 40 anos. Eu conduzia, numa noite fria e chuvosa, pelo Campo Grande. O movimento era intenso. De súbito, numa fração de segundo, surgiu um vulto, que atravessou o capot do meu carro, foi projetado e só por milagre não foi apanhado por uma outra viatura que seguia em paralelo. O trânsito atrás de mim parou. 

Fora um soldado que, imprevidente, atravessara do quartel para o jardim, sem saber medir o tempo de travessia. (Ao que se soube, era da Madeira, e não estaria habituado às grandes cidades. Seria mais tarde conduzido ao hospital, em estado grave).

À minha volta, começou a juntar-se uma turbamulta irada. Sei lá bem porquê, eu era dado como inegável culpado. Ninguém ouvia as minhas razões, nenhuma voz me defendia. Do quartel ia saindo mesmo uma crescente "tropa" contra mim. O soldado, não obstante ter atravessado fora de qualquer passadeira, numa zona escassamente iluminada, juntava, na sua tragédia, testemunhas simpáticas, parte das quais claramente não tinham presenciado o acidente, mas já falavam com facilidade do meu "excesso de velocidade" e outras criativas agravantes.

Foi então que se aproximou um cavalheiro, baixo, de "papillon", com ar sereno, um cabelo que recordo esbranquiçado. Tinha parado o seu carro uns bons metros adiante e viera, a pé, sob a chuva. Chegou junto do ferido, fez algumas constatações sobre o seu estado, preparou-o para a ambulância que ia chegar e disse:

- Este senhor não teve a menor culpa! Eu ia a conduzir na faixa ao lado dele, ambos havíamos saído do semáforo numa velocidade moderada. A pessoa foi atingida pelo carro dele como podia ter sido pelo meu. Sou testemunha deste senhor. Agora, chamem a polícia.

O ambiente desanuviou-se. A "tropa" começou, progressivamente, a "destroçar". A voz serena e firme daquele cavalheiro, que era médico, contribuiu para a imediata descida da tensão. As autoridades chegaram, tomaram as devidas notas. Graças àquele cidadão, que se tinha dado ao cuidado de parar, ajudar no possível e que agora se voluntariava para testemunhar, atestando a inocência de uma pessoa que ele não conhecia, as coisas mudavam, para mim. Aprendi, nessa noite, uma lição de civilidade, que nunca mais esqueci e que passou a marcar o meu comportamento futuro perante situações semelhantes, mesmo com todos os incómodos possíveis.

Passaram alguns anos e o nome do cavalheiro que me tinha ajudado começou a surgir em público. Chamava-se Ferraz de Abreu e chegou a presidente do Partido Socialista. Um dia, não há muito tempo, cruzei-me com ele numa cerimónia e agradeci-lhe o gesto.

Acabo de ler, há minutos, que morreu. Tinha 98 anos. Deixo-lhe aqui o preito do meu respeito.

sexta-feira, junho 26, 2015

Mangas


O cliente olhou o menu para escolher a sobremesa. O jovem empregado do restaurante esperava.

- A manga é boa?

O rapaz hesitou. Sabia lá ele! O patrão não lha dera a provar.

- De onde é a manga? Pergunte se é de Alpaca! As melhores mangas são as de Alpaca...

O rapaz virou costas e foi falar com o patrão, na zona da cozinha.

O comensal e os amigos, logo que o empregado desapareceu, entraram em gargalhadas. Tivera muita graça a "trouvaille" da "manga de alpaca". O empregado era demasiado novo para conhecer a expressão. O que diria o patrão?

O empregado regressou e todos olharam para ele:

- O meu patrão diz que, afinal, não há manga.

E acrescentou:

- Disse que só podemos servir-lhe um manguito.

Foi o bom e o bonito, lá no restaurante...

Um poder europeu


Desde o início da crise grega, um certo poder europeu destaca-se em movimentações para ajudar a evitar a rutura entre Atenas e a União Europeia. É o mesmo país que, embora não seja vizinho da Ucrânia, tem demonstrado o seu apoio a quantos vivem hoje muito preocupados com a Rússia. Mas, não obstante a atenção que dedica aos problemas do continente, esse país não dá mostras de ter uma confiança cega no comportamento dos seus parceiros. O poder europeu de que falo tem um nome: Estados Unidos da América.

O final da Guerra Fria e o surgimento da UE com uma vocação política com expressão internacional criou a ilusão de que os EUA, de há muito os principais titulares da chave da segurança do continente europeu, poderiam vir a descansar na organização autónoma dos seus parceiros deste lado do Atlântico, no que toca à sua parcela de responsabilidade no quadro geopolítico comum. Essa ilusão acabou cedo. À problemática idiossincrasia francesa e à fragilidade crescente do Reino Unido como poder global somou-se, aos olhos de Washington, a relutância da Alemanha para assumir capacidades à altura do seu poder económico relativo. E o resto da Europa, em termos político-militares que sejam relevantes para o jogo com Moscovo, é pura paisagem.

Sejamos honestos: a UE, como força política, percebida pelos outros como capaz de se mobilizar em termos de “hard power”, não existe. Os primeiros a perceberem isso foram, aliás, os Estados do Leste europeu, para quem a adesão à UE, sendo embora importante, surgiu sempre, na escala gradativa dos seus interesses, abaixo das garantias que a NATO lhes podia trazer. E a NATO, por muito que custe aceitar, continua a ser apenas um heterónimo dos Estados Unidos.

Não é assim por acaso que são os americanos quem agora surge a reforçar militarmente os vizinhos NATO da Ucrânia.

O poder europeu dos EUA, através de gestos apaziguadores, emergiu também numa geografia pouco comum: a Grécia. É mesmo uma singular ironia ver os EUA preocupados, por precauções ligadas à segurança do sudeste do continente, com a estabilidade do euro. E quem sabe se não será Washington a chave para flexibilizar a rigidez do FMI para o compromisso final.

No auge destas movimentações americanas pelo seu território estratégico europeu, surgem finalmente as acusações de que os EUA andarão a espiar conversas telefónicas dos seus líderes - hoje Hollande, como ontem fora Merkel. Mas, caramba!, afinal não é a Europa que frequentemente se queixa de não ser ouvida pelos Estados Unidos?

(Artigo que hoje publico no "Jornal de Notícias")

quinta-feira, junho 25, 2015

Forças amadas?


Descontentes com as políticas que hoje afetam as Forças armadas, que sentem já não serem forças amadas pelos atuais poderes, militares de antigas hierarquias reunem-se hoje em jantar por onde perpassaram as suas aspirações corporativas.

Vão muito longe os tempos em que o tilintar dos sabres prenunciava borrasca político-militar, intentonas ou pronunciamentos que colocavam a vida quotidiana dos portugueses à mercê da conjugação sediciosa dos humores castrenses.
 
Hoje, com a democracia, nas mãos dos militares apenas tilintam os talheres. Decididamente, invertendo Marx, os nossos militares optaram pelas armas da crítica em saudável detrimento da crítica pelas armas.
 
Contudo, talvez seja oportuno lembrar que o ambiente de liberdade que hoje vivemos se deve precisamente ao movimento protagonizado pelas nossas Forças Armadas, "coroando a longa resistência do povo português e interpretando os seus sentimentos profundos", como reza o preâmbulo da Constituição da nossa República. 

Crónica de costumes ?


"Gosto das tuas crónicas de costumes!"

A frase de um amigo, numa ocasião pública, ao final da tarde de ontem, deixou-me surpreendido. Nunca me tinha passado pela cabeça qualificar aquilo que escrevo de "crónica de costumes". Só gente de uma certa idade - como a minha, aliás - é que lembraria de utilizar esta expressão quase queirosiana. Mas, devo dizer, não desgostei...  

quarta-feira, junho 24, 2015

Ribeiro e Castro


O deputado do CDS-PP José Ribeiro e Castro anunciou que não fará parte das listas de candidatos a deputados para a próxima legislatura. 

Nos últimos anos, foi patente o progressivo isolamento de Ribeiro e Castro no partido que ajudou a criar, um pouco como tem acontecido com Mota Amaral no PSD. Os partidos convivem mal com quem tem ideias próprias, com quem pensa pela sua cabeça e, por vezes, não está disposto a aceitar que a cega obediência à estratégia conjuntural ponha em causa princípios por que se bateu por muitos anos. Não há nada que mais irrite as "nomenklaturas" do que pessoas que, perante algumas questões concretas, tendem a vocalizar o que muito bem entendem, não apenas porque é essa a sua opinião mas porque acham que essa deveria ser a orientação da formação política a que historicamente estão ligados.

Os partidos de hoje, com o nosso modelo centralizado de escolha de deputados, tende a facilitar a ascensão de quem ecoar, sem reticências, a voz do "patronato" político. Se o fizer com alguma capacidade de expressão, o partido não deixará de dar uma palavra junto das televisões ou jornais para que essas pessoas sejam convidadas para os representar em debates ou nas "balcanizadas" colunas - onde, com maior ou menor originalidade, se sabe quase sempre o que vão dizer, nesses "tempos de antena" que, por serem baratos, são alimentados com gosto pela comunicação social. Depois, se as coisas continuarem a correr bem, lá terão um lugarzinho de secretário de Estado, quando o poder vier a sorrir ao seu partido. É assim, um pouco por todo o lado.

Ribeiro e Castro não fazia parte desse grupo. Democrata-cristão desde sempre, líder, em tempos, da Juventude Centrista, mostrou, em todos os lugares e causas por onde passou, uma coerência e uma firmeza de princípios que, de facto, não vão bem com os ventos dominantes. Recordo a sua excelente prestação como presidente da Comissão dos Negócios Estrangeiros da Assembleia da República, onde inaugurou a saudável prática de ouvir os embaixadores portugueses. Envolveu-se em várias iniciativas de raiz nacional, como foram a luta pelo feriado do Primeiro de Dezembro ou a recente denúncia do abandono na obrigatoriedade da língua portuguesa no processo europeu de patentes. Lutas pouco populares, às vezes solitárias, mas que o identificam como uma personalidade de uma qualidade que faz falta à democracia portuguesa.

Deixo-lhe aqui o abraço de consideração e respeito de quem, andando por outras áreas políticas e tendo dele frequentemente discordado ao longo das últimas décadas, reconhece contudo o elevado mérito e a elevada seriedade que tem marcado a sua intervenção cívica.

Laura Antonelli


Morreu Laura Antonelli. Só me ocorre uma coisa: a fantasia já não é o que era.

terça-feira, junho 23, 2015

O meu São João com tulipas...


Viagens


De há muito que penso que há poucas coisas mais tristes do que um hotel de negócios, talvez com exceção dos hotéis de aeroporto. Cavalheiros (sorry, mas as damas aparecem menos) de fato escuro, que já começam a chegar do aeroporto sem gravata (mais uma vitória colateral do Syriza ou será do calor?), com malas negras com rodinhas (a minha é prateada, sei lá porquê), espalham cartões "corporate" pelos balcões das receções, atendidos por meninas de sorriso plástico ("How are you today?"), que têm como primeira preocupação dar-lhes a "password" para o wifi, tão importante para eles como o oxigénio. O ambiente é tão asséptico que chega a ter-se saudades de um lóbi de hotel com criancinhas aos berros.

Hoje, na fila do "check out", olhei com mais atenção o cenário por detrás das meninas. E vi por lá esta imaginativa decoração, memória de outros tempos, outra gente e, pela certa, outras mentalidades. Tempo em que havia mais tempo, muita mais conversa.

O amigo americano

Nos processos negociais, há sempre cenas de bastidores que só com o tempo acabará por tornar mais claras. 

Neste braço-de-ferro entre a Grécia e os restantes membros do euro, o papel do governo americano parece ter sido importante para pressionar os diferentes parceiros a mostrarem mais flexibilidade. Para além das suas preocupações geopolíticas, será interessante vir a conhecer um dia o que é que os EUA carrearam, em termos concretos, para todo este processo.

Adensam-se os sinais de que as movimentações europeias do secretário do Tesouro americano durante as últimas horas, quer junto do presidente do BCE quer em contactos com o PM Tsipras, somando-se às “démarches” mais políticas junto de Angela Merkel, poderão ter sido um fator determinante.

Não deixa de ser irónico que os americanos possam ter contribuído, pelos seus temores estratégicos, para aquele que pode vir a constituir-se como um importante passo positivo no reforço da zona euro.

Em tempo: resta ainda saber em que medida esta movimentação tem como principal justificação a potencial influência da Rússia no processo. Se assim for, e porque os EUA não costumam atuar de forma tão determinada sem um real fundamento, será necessário começar a coletar dados para "desconstruir", de forma mais "fina", o conteúdo exato dos possíveis entendimentos entre Atenas e Moscovo.

Berrar baixinho


Paulo Castilho, no seu novo livro “O Sonho Português”, coloca uma personagem a descrever-nos: “fervemos em pouca água e no instante seguinte caímos na resignação e na tristeza, não somos um país, somos uma melancolia politicamente organizada”.

Nada pode ser mais verdade. Os portugueses são de rompantes, de emoções fortes, de ameaças de “partir a loiça”, de deitar abaixo tudo, de mudar de vida. Depois, com o calendário a passar, desejosos, bem lá no fundo, de “viver habitualmente”, como bem os topava Salazar, os nossos concidadãos entram numa progressiva apatia, o que era chocante deixa de o ser tanto, o que foi inaceitável passou a ser digerível, até certas caras, tão “impossíveis”, passam a ser convivíveis.

E, no entanto, é bom ver o país mobilizado por causas. A democracia deu espaço para isso. Recentemente, temo-nos entretido com os méritos do Tribunal Constitucional, o Acordo Ortográfico, a privatização da TAP, está mesmo aí a chegar a “saison” do debate sobre as touradas. Uma grande parte do país detesta José Sócrates, outra defende-o. Desde há meses, a Grécia excita-nos as colunas: os gregos ou são uns madraços ou uns heróis que acabarão por derrotar os “troianos” berlinenses. A história, por cá, faz-se sempre de índios e cowboys, ambos com adeptos legitimamente irados.

O país precisa destas polarizações. Elas não assentam em racionalidade: baseiam-se no debate emocional, simplificado, caricaturado. O maniqueísmo é uma deriva que demonstra a mediocridade de uma vida cívica onde, às vezes, fica a ideia de que quem falar mais alto tem (pelo menos por algum tempo) a razão.

Os resultados da última sondagem de avaliação político-partidária são um barómetro desta nossa ciclotimia emocional.

Não vai para muito tempo, esta maioria tinha “os dias contados”, Passos Coelho estava “politicamente morto”, o país saía à rua e grandolava, irado, contra a falta de sensibilidade social do executivo, com o experimentalismo de governantes sem jeito. Lembro-me de falar com pessoas que olhavam para o lado, quase com o receio de serem escutadas, quando afirmavam que mantinham a sua confiança no governo.

Do lado da oposição, Seguro era visto como o único travão à afirmação de uma alternativa credível. Recordo a tensão, quase “bélica”, no seio da minha família política, entre os “seguristas” e os “costistas”. Tive conversas arruinadas por altercações entre amigos, nas vésperas das “primárias”.

Hoje, as coisas vão sendo o que são. Bem cantava o Carlos do Carmo, em “Os putos”: “quando a tarde cai, vai-se a revolta”. A TSU, as pensões, as rendas, a emigração, o caos do ano letivo, o estado do “citius” judiciário, a Tecnoforma, as listas VIP, todas as imensas trapalhadas e incompetências de um ciclo, tudo isso passou à história, tudo isso foi antes de Jesus caminhar sobre as águas da “segunda circular” e parar as televisões.

Somos um país curioso. Um amigo meu resume bem isto: os portugueses, a partir de certa altura, optam por “berrar baixinho”.

(Artigo que hoje publico no "Diário Económico")

segunda-feira, junho 22, 2015

Uma carreira diferente


Começaram no passado sábado as provas de acesso à carreira diplomática.

Um cidadão acaba o seu curso superior. No final, com cerca de 2000 (não leram mal, é o número deste ano!) e tantas outras pessoas nas mesmas condições, resolve apresentar-se ao mais exigente concurso que existe na função pública portuguesa - a uma imensa distância de todos os outros! Desta feita, entrarão 25! 

Começa por ser sujeito a uma prova eliminatória de cultura geral. Depois, faz exames escritos de português e inglês. Vê muitos dos seus colegas eliminados, pela obrigatoriedade de não terem menos que 14 valores no uso escrito da nossa língua. 

Começa em seguida um calvário temático, para o qual se preparou longos meses: Relações internacionais, História e história diplomática portuguesa, Política económica e Relações económicas internacionais, Direito internacional e Direito da União europeia. Provas escritas sobre aqueles temas, num cruel sorteio. 

O universo dos competidores vai-se entretanto reduzindo. Seguem-se os exames orais, igualmente sobre esses temas, sob o escrutínio de professores universitários da especialidade. Ficam agora umas escassas dezenas de candidatos.

Entretanto, passaram já alguns meses. Suspenderam-se as profissões, as famílias têm-nos em casa em "part time". Falta uma última prova, decisiva, a entrevista profissional. Meia hora de exigente escrutínio. Eliminatória, como as anteriores. E, no termo desse penoso processo, 25 são admitidos na carreira diplomática.

Entraram para a carreira? Não necessariamente. Se, ao final de dois anos, não forem dado "confirmados", por serem dados como "não aptos", recebem um agradecimento pelo serviço prestado e vão ter de ir à procura de novo emprego.

Os admitidos vão começar a subir as várias categorias da carreira. Iniciam-se como adidos de embaixada, passam a secretários de embaixada e, decorrida que for mais ou menos uma década, podem fazer concurso para ascenderem a conselheiros de embaixada. Nove ou dez anos mais tarde - isto é, com cerca de vinte anos de percurso profissional, podem vir a ser promovidos a ministros plenipotenciários. A partir desta categoria, já podem vir a ser designados para chefiar embaixadas, começando normalmente por postos mais pequenos e mais difíceis - em condições de vida, de segurança, etc. Quando, em média, tiverem feito 26/27 anos de carreira, alguns (muito escassos) podem, finalmente, ter hipóteses de ascender aos menos de 30 lugares da categoria última, o "generalato": podem ser nomeados embaixadores (ditos "full rank" ou "de número"). Só muito poucos conseguem aí chegar.

Entretanto, nas duas décadas que levam de "casa", já saltitaram por várias embaixadas e consulados, muitos viram os cônjuges ter de abandonar as profissões para os acompanhar, os filhos tiveram de saltitar de escola em escola, ou ficaram em Lisboa, onde os diplomatas têm sempre de manter uma segunda casa, para os períodos que passam nas Necessidades.

É uma profissão exigente, dura e competitiva. Mas servir o país no exterior é uma imensa honra.

"Mandela Prize"


Jorge Sampaio acaba de ser indicado como o primeiro vencedor do Mandela Prize, um prémio atribuído pela Assembleia Geral da ONU apenas de cinco em cinco anos, distinguindo personalidades que "dedicaram as suas vidas ao serviço da humanidade, promovendo as finalidades e os princípios das Nações Unidas". O prémio é sempre atribuído, simultaneamente, a um homem e a uma mulher, tendo cabido igualmente à médica namibiana Helena Ndume.

Muitos parabéns, caro amigo! 

Cruzamentos políticos



Falei aqui há dois dias de Eurico Figueiredo, por estas horas muito nas notícias por via do seu conflito com Marinho Pinto, no âmbito do PDR.

Anoto agora uma história antiga, para mim curiosa, em que com ele me "cruzei" na política interna.

Estávamos em julho de 1999. Eu era então, desde há três anos e meio, secretário de Estado dos Assuntos europeus. Um dia, informei o gabinete do primeiro-ministro de que necessitava de falar com António Guterres, com alguma urgência. Horas depois, foi-me perguntado o motivo da reunião, para justificar a pressa com que pedia o encontro. Mandei dizer que não revelava. No dia seguinte, já um pouco irritado, voltei a insistir. Ao final desse dia, o primeiro-ministro recebeu-me.

António Guterres acolheu-me com um sorriso e grande simpatia com que sempre me tratou.

- Este seu pedido de reunião, com caráter de urgência, criou por aqui alguma especulação, como já deve ter percebido.

Eu já então presumia essa especulação. Num segundo, liguei-a ao facto de, três dias antes, ter estado numa audiência, também a meu pedido, com o presidente da República, Jorge Sampaio. Que diabo um simples secretário de Estado, lugar subalterno no governo, quereria, na mesma semana, das duas principais figuras do Estado?

Esclareci então António Guterres que a razão da minha visita nada tinha a ver com aquilo que fora tratar com o presidente. No seu caso, eram assuntos estritamente ligados às questões europeias, mas que exigiam uma orientação urgente do primeiro-ministro. A particular sensibilidade do tema recomendava, porém, uma conversa pessoal. Só isso.

Guterres disse-me então das razões da especulação em S. Bento.

- Como você sabe, estamos em pleno processo de formação das listas de candidatos a deputados à Assembleia da República. E, como também é público, Eurico Figueiredo deixou vago o lugar de cabeça de lista por Vila Real, que também é a sua terra. Houve muita gente que pensou que você, sendo embora independente e não militante do PS, poderia estar interessado no lugar e que era essa a razão por que pretendia falar comigo com urgência. Eu, contudo, conhecendo-o, devo dizer que nunca pensei que quisesse ser deputado. Mas também achei que seria legítimo se acaso o quisesse ser.

E tinha toda a razão. A vida parlamentar nunca me seduziu minimamente. Mas, à distância, fiquei sempre com a curiosidade de saber o que teria acontecido se eu, de facto, tivesse tido essa pretensão. Assim, salvo na boataria entre S. Bento e o Rato, não me "cruzei" com o meu amigo Eurico Figueiredo nos caminhos da representação política de Vila Real. 

domingo, junho 21, 2015

Vida megalítica


O ambiente, e em particular a animação, que se viveu hoje, dia do solstício de verão, no Cromeleque dos Almendres e em Stonehenge não se pode comparar.

Mas a visita ao monumento alentejano, neste que foi o dia mais longo do ano, valeu a pena.


O lançamento

Foi muito difícil encontrar lugar para o carro. A Bucholz fica numa rua de escritórios e, até muito tarde, um espaço para estacionar é quase um milagre. Fui brindado com esse milagre. Só que não tinha moedas para o parking e desfiz-me em sorrisos num café para trocar uma nota de dez euros. Ao mesmo tempo, mantinha um olho no carro, porque a EMEL não brinca em serviço. Quando meti as moedas, o limite do ticket eram as dez e tal da manhã do dia seguinte. Com a precipitação, tinha colocado dinheiro a mais.

Entrei na livraria, pouco passava das seis e meia. As cadeiras estavam dispostas no primeiro andar, já havia gente sentada, mas não vi ninguém conhecido. Teria eu feito confusão? Seria só às sete? 

Ao fundo, junto a uma estante, descortinei uma pessoa que faz parte de um grupo de gente com quem, embora nunca tenha tido uma conversa, integra a minha silenciosa intimidade pública, porque eu sei quem ele é e ele sabe quem eu sou. É um grupo de umas dezenas de figuras, um género a quem sorrio a medo, deixando cair um "boa tarde" e com quem, a espaços, troco duas ou três palavras de circunstância, tipo conversa de elevador. Perguntei: "o Marcelo ainda não chegou?" Ele olhou-me, inexpressivo, e disse "não vi"... (Ele lerá este blogue?)

Continuei por ali. Olhei uns livros e, para matar o tempo, decidi descer ao andar de baixo. O lançamento devia ser às sete, era isso! Vasculhei umas vagas "stationaries" alemãs (carotas, aliás), folheei alguns guias turísticos (não sei se notaram que os editores deste tipo de guias teimam em esconder a data de edição, para os fazer "durar" no tempo) e voltei a subir. Nada de caras conhecidas! Estranho! Sentei-me na assistência e dediquei-me, por uns minutos, ao iPhone, que agora funciona como entretem, como aquelas revistas sebentas que há nas salas de espera dos médicos. 

A certo ponto, ouvi vozes mais altas, levantei a cabeça e vi umas figuras aproximarem-se dos lugares onde se sentariam o autor e os apresentadores da obra. Tudo gente que me era, em absoluto, alheia. Do lado esquerdo da mesa, vislumbro um livro em posição vertical. Era a obra que ia ser apresentada. Não era o "Diário da Abuxarda"! Eu tenho o livro, que já li e do qual até já aqui falei. Era outro livro! Eu estava no lançamento errado! 

Saí de fininho, como quem não quer a coisa. Nem perguntei nada às meninas do balcão, junto à porta. Meti-me no carro, humilhado comigo mesmo e com vagos pensamentos sobre os sinais de Alzheimer. Tocou o telefone. Era um amigo. Disse-lhe o que me tinha acontecido. Respondeu-me: "Mas isso foi ontem! Eu fui lá".

Regressei a casa, furibundo. Este relato não é um alibi para me desculpar por não ter ido ao lançamento do "Diário da Abuxarda", do meu amigo Marcello Duarte Mathias. Mas, pensando bem, também pode servir para isso.

PGR (3)

Seria importante o parlamento revisitar a questão da composição do Conselho Superior do Ministério Público, bastando para tal que o PSD recu...