O deputado do CDS-PP José Ribeiro e Castro anunciou que não fará parte das listas de candidatos a deputados para a próxima legislatura.
Nos últimos anos, foi patente o progressivo isolamento de Ribeiro e Castro no partido que ajudou a criar, um pouco como tem acontecido com Mota Amaral no PSD. Os partidos convivem mal com quem tem ideias próprias, com quem pensa pela sua cabeça e, por vezes, não está disposto a aceitar que a cega obediência à estratégia conjuntural ponha em causa princípios por que se bateu por muitos anos. Não há nada que mais irrite as "nomenklaturas" do que pessoas que, perante algumas questões concretas, tendem a vocalizar o que muito bem entendem, não apenas porque é essa a sua opinião mas porque acham que essa deveria ser a orientação da formação política a que historicamente estão ligados.
Os partidos de hoje, com o nosso modelo centralizado de escolha de deputados, tende a facilitar a ascensão de quem ecoar, sem reticências, a voz do "patronato" político. Se o fizer com alguma capacidade de expressão, o partido não deixará de dar uma palavra junto das televisões ou jornais para que essas pessoas sejam convidadas para os representar em debates ou nas "balcanizadas" colunas - onde, com maior ou menor originalidade, se sabe quase sempre o que vão dizer, nesses "tempos de antena" que, por serem baratos, são alimentados com gosto pela comunicação social. Depois, se as coisas continuarem a correr bem, lá terão um lugarzinho de secretário de Estado, quando o poder vier a sorrir ao seu partido. É assim, um pouco por todo o lado.
Ribeiro e Castro não fazia parte desse grupo. Democrata-cristão desde sempre, líder, em tempos, da Juventude Centrista, mostrou, em todos os lugares e causas por onde passou, uma coerência e uma firmeza de princípios que, de facto, não vão bem com os ventos dominantes. Recordo a sua excelente prestação como presidente da Comissão dos Negócios Estrangeiros da Assembleia da República, onde inaugurou a saudável prática de ouvir os embaixadores portugueses. Envolveu-se em várias iniciativas de raiz nacional, como foram a luta pelo feriado do Primeiro de Dezembro ou a recente denúncia do abandono na obrigatoriedade da língua portuguesa no processo europeu de patentes. Lutas pouco populares, às vezes solitárias, mas que o identificam como uma personalidade de uma qualidade que faz falta à democracia portuguesa.
Deixo-lhe aqui o abraço de consideração e respeito de quem, andando por outras áreas políticas e tendo dele frequentemente discordado ao longo das últimas décadas, reconhece contudo o elevado mérito e a elevada seriedade que tem marcado a sua intervenção cívica.
