Desde o início da crise grega, um certo poder europeu destaca-se
em movimentações para ajudar a evitar a rutura entre Atenas e a União Europeia.
É o mesmo país que, embora não seja vizinho da Ucrânia, tem demonstrado o seu
apoio a quantos vivem hoje muito preocupados com a Rússia. Mas, não obstante a
atenção que dedica aos problemas do continente, esse país não dá mostras de ter
uma confiança cega no comportamento dos seus parceiros. O poder europeu de que
falo tem um nome: Estados Unidos da América.
O final da Guerra Fria e o surgimento da UE com uma vocação
política com expressão internacional criou a ilusão de que os EUA, de há muito
os principais titulares da chave da segurança do continente europeu, poderiam
vir a descansar na organização autónoma dos seus parceiros deste lado do
Atlântico, no que toca à sua parcela de responsabilidade no quadro geopolítico
comum. Essa ilusão acabou cedo. À problemática idiossincrasia francesa e à
fragilidade crescente do Reino Unido como poder global somou-se, aos olhos de
Washington, a relutância da Alemanha para assumir capacidades à altura do seu
poder económico relativo. E o resto da Europa, em termos político-militares que
sejam relevantes para o jogo com Moscovo, é pura paisagem.
Sejamos honestos: a UE, como força política, percebida pelos
outros como capaz de se mobilizar em termos de “hard power”, não existe. Os
primeiros a perceberem isso foram, aliás, os Estados do Leste europeu, para
quem a adesão à UE, sendo embora importante, surgiu sempre, na escala gradativa
dos seus interesses, abaixo das garantias que a NATO lhes podia trazer. E a
NATO, por muito que custe aceitar, continua a ser apenas um heterónimo dos
Estados Unidos.
Não é assim por acaso que são os americanos quem agora surge
a reforçar militarmente os vizinhos NATO da Ucrânia.
O poder europeu dos EUA, através de gestos apaziguadores, emergiu
também numa geografia pouco comum: a Grécia. É mesmo uma singular ironia ver os
EUA preocupados, por precauções ligadas à segurança do sudeste do continente,
com a estabilidade do euro. E quem sabe se não será Washington a chave para
flexibilizar a rigidez do FMI para o compromisso final.
No auge destas movimentações americanas pelo seu território
estratégico europeu, surgem finalmente as acusações de que os EUA andarão a
espiar conversas telefónicas dos seus líderes - hoje Hollande, como ontem fora
Merkel. Mas, caramba!, afinal não é a Europa que frequentemente se queixa de
não ser ouvida pelos Estados Unidos?
(Artigo que hoje publico no "Jornal de Notícias")
