Depois disso, voltei bastantes vezes a Belém nos tempos de Eanes e de Soares, mas, naturalmente, nunca para ali ser recebido por qualquer deles. Com Sampaio, em funções no governo ou como embaixador, estive ali inúmeras vezes. Já outras, poucas, porque não havia razões funcionais que a isso justificassem, com Cavaco Silva. Mas, curiosamente, fui o primeiro embaixador português que ele recebeu em audiência após ter sido empossado.
Há dias, voltei ali, pela última vez, com Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente com quem mais vezes estive em Belém, não obstante me ter reformado de funções públicas bem antes da sua primeira posse. O Pátio dos Bichos estava então assim.
Nunca até hoje contei um trecho de uma conversa que um dia tive, também em Belém, com Jorge Sampaio. Apetece-me fazê-lo hoje. Viviam-se os derradeiros meses da "épica", embora felizmente efémera, experiência primo-ministerial de Santana Lopes. Falávamos dos três líderes sucessivos do PSD: Marcelo, Barroso e Lopes. Sampaio comentava: "Tive com o Barroso uma relação institucional sempre correta, embora não isenta de tensões. Do mesmo modo, o Lopes (ele usava uma outra "fórmula" nominativa, semanticamente algo diversa, para se referir ao agora edil da Figueira) cuida sempre em manter uma atitude de respeito e um comportamento adequado, não obstante problemas vários (Sampaio era muito reservado em matérias de Estado, observando o "need to know"). Nesse domínio, da correção institucional, devo dizer que não tenho razão de queixa de ambos. Mas sinto sempre qualquer coisa a separar-me deles. Fazem parte de outra geração, de um outro mundo. Curiosamente, com o Marcelo não é assim: com ele, não obstante as divergências e as dificuldades com aspetos da sua personalidade, acaba por correr sempre uma corrente, talvez devido à maior proximidade da idade. Você não acha?"
Achava e acho, tanto mais que a minha idade está bem mais próxima da do presidente "sortant", como chamam os franceses ao incumbente. Mas confesso que ainda não "assentou o pó", dentro de mim, sobre o saldo da década de Marcelo Rebelo de Sousa como presidente da República. Assim, apetece-me usar a fórmula da contabilidade: no razão, pelo método das partidas dobradas, os débitos ficam à esquerda e os créditos à direita. É o que, nesta fase, tenho a dizer para os autos...
