Entrei no palácio de Belém, pela primeira vez, em início de maio de 1974 (foi há muito tempo: maio ainda se escrevia com maiúscula). Tinha ali sido enviado pela unidade onde era militar, para abordar um assunto delicado com um senhor chamado Vitor Alves, um simpático major que só então percebi ser uma importante figura do tal MFA, entidade ainda misteriosa à volta da qual rodava a nossa vida pública de então.
Voltei lá - e lá estava Vitor Alves outra vez - na noite de 11 de março de 1975, integrado num grupo de oficiais, ou quase isso, que interrompeu uma reunião do "Conselho dos Vinte" e forçou a realização da assembleia do MFA que leva para a História o nome dessa data - dia que, recordo, tinha começado com uma tentativa violenta de golpe de estado spinolista.
No final de maio desse ano, ali regressei de novo, dessa vez chamado ao Conselho da Revolução, que estava presidido por Costa Gomes, enviado pelo SDCI, o serviço de informações militares onde então estava colocado, para abordar um assunto que igualmente não vem ao caso. No final, fui convidado para almoçar com eles (recordo que eram lulas e nada más). Ah! E Vitor Alves lá estava também.
Vinte anos mais tarde, recebendo Vítor Alves no meu gabinete do governo na Cova da Moura (curiosamente, o mesmo que tinha sido ocupado por Spínola no 25 de Abril - esse Abril tem sempre maiúscula - e já fora de Botelho Moniz e centro da "abrilada" falhada de 1961) rimo-nos dessas coincidências em tempos revolucionários.
Creio que, ainda nesse ano único que foi 1975, voltei a Belém, em junho, chamado por Loureiro dos Santos, que ainda não era general e secretariava o Conselho da Revolução. O motivo dessa curta conversa também não é para aqui chamado, mas era menos relevante. Semanas depois eu iria sair do serviço militar e ingressar no MNE.
Depois disso, como diplomata, voltei bastantes vezes a Belém, nos tempos de Eanes e de Soares, mas, naturalmente, nunca para ali ser recebido por qualquer deles.
Com Sampaio, em funções no governo ou como embaixador, estive ali inúmeras vezes.
Já outras, poucas, porque não havia razões funcionais que a isso justificassem, foram as ocasiões com Cavaco Silva. Mas, curiosamente, fui o primeiro embaixador português que ele recebeu em audiência após ter sido empossado.
Coincidiu ter de ir a Belém na tarde da passada sexta-feira, último dia útil dos dois mandatos de Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente com quem mais vezes ali estive, não obstante me ter reformado de funções públicas anos antes da sua primeira posse. Diferentes encargos e ensejos levaram a que as coisas assim fossem.
Na ocasião, o Pátio dos Bichos estava como a imagem mostra.
Creio que nunca até hoje contei em público o trecho de uma conversa que um dia tive, também em Belém, com Jorge Sampaio. Apetece-me fazê-lo hoje. Viviam-se os derradeiros meses da insólita, embora felizmente efémera, experiência primo-ministerial de Santana Lopes.
Falava com Sampaio de três líderes sucessivos do PSD: Marcelo, Barroso e Lopes. Sampaio comentou qualquer coisa como isto: "Tive com o Barroso uma relação institucional sempre correta, embora não isenta de fortes tensões. Uma delas, por sua causa, como sabe. Do mesmo modo, o Lopes (ele usava uma outra "fórmula" nominativa, semanticamente algo diversa mas divertida, para se referir ao agora edil da Figueira) cuida sempre em manter uma atitude de respeito e um comportamento adequado, não obstante questões várias que têm surgido (Sampaio era muito reservado em matérias de Estado, observando o clássico "need to know" e eu não precisava de saber dos problemas dele com o primeiro-ministro de então). Nesse domínio, da correção institucional, devo dizer que não tenho a menor razão de queixa de ambos. Mas sinto sempre que há qualquer coisa de fundo a separar-me deles. Fazem parte de outra geração, de um outro mundo de vida. Curiosamente, com o Marcelo nunca é assim: com ele, não obstante todas as divergências, e até dificuldades que possam surgir com aspetos da sua personalidade, acaba por passar sempre uma corrente, talvez devido à maior proximidade da idade. Não é da mesma opinião?"
Era e continuo a ser, tanto mais que a minha idade está bem mais próxima da do presidente "sortant", como chamam os franceses ao incumbente até amanhã. Mas devo confessar que, não obstante todo o respeito institucional que me merece, bem como o registo de simpatia e até amizade que não escondo ter por ele, ainda não "assentou o pó", dentro de mim, sobre o saldo da década de Marcelo Rebelo de Sousa como presidente da República. Assim, apetece-me usar a fórmula da contabilidade: no razão desta presidência, pelo método das partidas dobradas, só posso concluir que os débitos ficam à esquerda e os créditos à direita. É o que, nesta fase, tenho a dizer para os autos...
