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domingo, março 08, 2026

Em Belém


Entrei no palácio de Belém, pela primeira vez, em maio de 1974 (foi há muito tempo: maio ainda se escrevia com maiúscula). Tinha ali sido enviado pela unidade onde era militar, para abordar um assunto delicado com um senhor chamado Vitor Alves, um simpático major que só então percebi ser uma importante figura do tal MFA, entidade à volta da qual rodava a nossa vida política de então. Voltei lá - e lá estava Vitor Alves outra vez - na noite de 11 de março de 1975, integrado num grupo que interrompeu uma reunião do "Conselho dos Vinte" e forçou a realização da assembleia do MFA que leva para a História o nome dessa data. Nos últimos dias de maio ainda desse ano, ali voltei de novo, dessa vez chamado ao Conselho da Revolução, ali presidido por Costa Gomes, enviado pelo SDCI, o serviço de informações militares, para abordar um assunto que também não vem ao caso. No final, convidaram-me para almoçar com eles (eram lulas e não estavam más). Ah! E Vitor Alves lá estava também. Vinte anos mais tarde, recebendo-o no meu gabinete da Cova da Moura (curiosamente, o mesmo que tinha sido ocupado por Spínola no 25 de Abril - esse Abril tem sempre maiúscula - e já fora de Botelho Moniz, como centro da "abrilada" falhada de 1961) rimo-nos dessas coincidências em tempos revolucionários. Creio que, nesse ano único que foi 1975, ainda voltei a Belém, em junho, chamado pelo general Loureiro dos Santos, que, creio, secretariava o Conselho da Revolução. O motivo dessa curta conversa também é de somenos. Semanas depois eu iria sair do serviço militar e ingressava no MNE.

Depois disso, voltei bastantes vezes a Belém nos tempos de Eanes e de Soares, mas, naturalmente, nunca para ali ser recebido por qualquer deles. Com Sampaio, em funções no governo ou como embaixador, estive ali inúmeras vezes. Já outras, poucas, porque não havia razões funcionais que a isso justificassem, com Cavaco Silva. Mas, curiosamente, fui o primeiro embaixador português que ele recebeu em audiência após ter sido empossado. 

Há dias, voltei ali, pela última vez, com Marcelo Rebelo de Sousa, o presidente com quem mais vezes estive em Belém, não obstante me ter reformado de funções públicas bem antes da sua primeira posse. O Pátio dos Bichos estava então assim.

Nunca até hoje contei um trecho de uma conversa que um dia tive, também em Belém, com Jorge Sampaio. Apetece-me fazê-lo hoje. Viviam-se os derradeiros meses da "épica", embora felizmente efémera, experiência primo-ministerial de Santana Lopes. Falávamos dos três líderes sucessivos do PSD: Marcelo, Barroso e Lopes. Sampaio comentava: "Tive com o Barroso uma relação institucional sempre correta, embora não isenta de tensões. Do mesmo modo, o Lopes (ele usava uma outra "fórmula" nominativa, semanticamente algo diversa, para se referir ao agora edil da Figueira) cuida sempre em manter uma atitude de respeito e um comportamento adequado, não obstante problemas vários (Sampaio era muito reservado em matérias de Estado, observando o "need to know"). Nesse domínio, da correção institucional, devo dizer que não tenho razão de queixa de ambos. Mas sinto sempre qualquer coisa a separar-me deles. Fazem parte de outra geração, de um outro mundo. Curiosamente, com o Marcelo não é assim: com ele, não obstante as divergências e as dificuldades com aspetos da sua personalidade, acaba por correr sempre uma corrente, talvez devido à maior proximidade da idade. Você não acha?"

Achava e acho, tanto mais que a minha idade está bem mais próxima da do presidente "sortant", como chamam os franceses ao incumbente. Mas confesso que ainda não "assentou o pó", dentro de mim, sobre o saldo da década de Marcelo Rebelo de Sousa como presidente da República. Assim, apetece-me usar a fórmula da contabilidade: no razão, pelo método das partidas dobradas, os débitos ficam à esquerda e os créditos à direita. É o que, nesta fase, tenho a dizer para os autos...

Em Belém

Entrei no palácio de Belém, pela primeira vez, em maio de 1974 (foi há muito tempo: maio ainda se escrevia com maiúscula). Tinha ali sido en...