Seguidores

Se quiser ser informado sobre os novos textos publicados no blogue, coloque o seu email

sexta-feira, novembro 13, 2020

Square one?


Nos jogos de salão, com dados, há um resultado que obriga ao regresso à primeira “casa”. Há dias, ao ouvir alguns comentários sobre o que se espera do novo presidente americano, em termos da sua atuação na ordem internacional, quase me pareceu que se prenunciava um regresso ao início do “jogo”, ao tempo antes de Trump.

Fazer de conta que Trump não existiu, que é possível voltar ao que muitos acham terem sido os “good old days” de Obama, é pura ilusão. Os países não são jogos. A América depois de Trump será, goste-se ou não, a América pela direção da qual a presidência Trump entretanto passou. E isso deixou marcas. E feridas, lá e nos outros. Mas é natural que algumas das decisões do presidente cessante venham a ser revertidas, embora provavelmente com um afã menor do que ele utilizou para tentar desmantelar o Obama tinha feito.

Vale a pena dizer, para sermos totalmente honestos, algo que, podendo não soar muito bem aos ouvidos de alguns, é uma pura verdade: a herança de Obama, em termos internacionais, é medíocre. A segurança do mundo, no fim dos seus oito anos, não estava em melhor estado do que aquela em que ele a encontrou – e isto, note-se, na sequência do desastre, quase criminoso, que George W. Bush tinha entretanto provocado.

Não tendo conseguido ter tempo para montar a agenda contra a China que tinha em carteira – isto, quase sempre, não é tomado em conta –, por ter ocorrido o 11 de setembro, a administração Bush atuou com toda a legitimidade no Afeganistão, com o apoio não apenas dos aliados como de outros parceiros, estes últimos aturdidos com a condenação esmagadora da barbárie terrorista.

Só que a América, tal como aqueles construtores civis que sempre nos convencem a fazer mais qualquer coisa na obra, na lógica do “já agora!”, achou que tinha de “explorar o sucesso”, como se diz em linguagem militar. Não só começou a entrar em “águas territoriais” russas, na Ásia Central e no Cáucaso, como mexeu no vespeiro do Iraque, tornando-nos a todos usufrutuários do Estado Islâmico, de que foi o involuntário criador. Recuou, ambas as vezes.

Obama herdou essa realidade e, sentindo o tropismo nacional favorável a um recuo do intervencionismo, foi incapaz de montar uma “exit strategy” minimamente eficaz. Lidou pessimamente com as “primaveras árabes”, deu vento ao aventureirismo franco-britânico na Líbia, hesitou no modo como tratar com a Turquia e Israel, revelou-se tíbio na Síria e na Ucrânia, deixou os aliados do Golfo em orfandade e apenas desenhou uma estratégia de contenção económica das ambições chinesas. O seu saldo é pífio e nem sequer com a Europa conseguiu estabelecer um laço sólido e operativo, salvo no acordo nuclear com o Irão.

Alguns dirão: mas, se passamos o tempo a acusar os Estados Unidos de excesso de intervencionismo, que autoridade temos para condenar aqueles que, em seu nome, procuram recuar dessas atitudes intrusivas?

Temos esse direito: é a mesma América que está em ambos os movimentos. A uma potência que se imiscui nos assuntos dos outros, à luz de uma leitura unilateral dos seus interesses, que tenta fazer passar por desideratos do mundo livre, é exigível que os “phasing out” dessas situações sejam feitos de forma responsável e, em especial, sem com isso fazer incorrer a outros, nomeadamente aos seus aliados, riscos que eles não criaram.

O modo como a América de Obama estava a sair da Síria já era irresponsável. Trump seguiu a mesma linha e, como que por “subcontratação”, deixou esse dossiê nas mãos da Rússia, que nunca esteve tão forte e presente na região. E, “para inglês ver”, deixa agora pelo Médio Oriente uma frágil aliança de pânico contra o Irão, em que mistura Israel e os regimes medievais do Golfo. Ao mesmo tempo, anuncia-se um novo caos no Afeganistão, onde a América enterrou muitos milhões de dólares, e os aliados europeus demasiadas vítimas, sem o mínimo resultado.

Esperemos pela política externa de Joe Biden. E que seja nova, não um “remake” de qualquer passado. Não se regressa à “square one”.

Entrevista ao "Público"

Seixas da Costa: Portugal teve posição “lamentável” e “submissa” em relação aos EUA Embaixador e ex-governante critica Governo português no ...