Quando vivia em Brasília, havia um empregado na residência, o excelente Romário, que tinha por atitude fazer, de imediato, tudo o que se lhe pedia para ser feito. “Ó Romário, quando puder, compre pilhas para os comandos da televisão”, um de nós dizia-lhe. Minutos depois, era certo e sabido, ouvia-se o ruído da carrinha: era o Romário, a caminho da Quadra comercial. E as pilhas lá surgiam. Um dia, perguntei-lhe por que procedia assim: “Para não ficar preocupado com nada, senhor embaixador”.
Quando, cá por casa, andamos dias para comprar alguma coisa, a frase clássica é: “Se fosse o Romário, já estava feito!”.
Nunca consegui ser assim, como o Romário. Pouca gente consegue, aliás. Na minha família, ouvi sempre uma expressão que traduzia a vontade de só fazer amanhã o que já devia estar feito ontem. Era o “a ver se”. Volta e meia, perante o chiar de uma porta, um de nós dizia: “A ver se se põe um pingo de óleo naquela corda da roupa”. Ou o “a ver se se compram envelopes cá para casa”. O mais clássico é o “a ver se um destes dias telefonamos a... “ Como quase cinco décadas de casal já nos aculturaram mutuamente, estamos bem um para o outro, ambos “a ver se“ esse outro faz as coisas.
O “a ver se” é sempre um voto piedoso que, ao mesmo tempo que nos confere o meritório crédito de ter tido a consciência da existência de um problema, “passa a bola” da respetiva resolução para uma entidade indefinida. Desejavelmente, não nós.
Mas o “a ver se” também tem outra aplicação. Ajuda a procrastinar - um verbo que eu adoro praticar mas que detesto ter de assumir que sigo cada vez mais.
Há horas, o tal Ventura parece que deu uma entrevista à TVI. Não me apeteceu ver em direto. Aliás, não me apeteceu sequer ver hoje. Vou ler o que vai surgir nas redes sociais e na imprensa de amanhã sobre o assunto e, depois, com a calma que ter televisão por cabo permite, talvez amanhã (mas não é garantido) voltarei atrás.
Um amigo, daqueles que vê telejornais em direto (a maioria vê, eu só por muito raro acaso) telefonou-me, há pouco: “Viste o facho?”. Respondi: “Não, não vi. A ver se amanhã arranjo tempo para isso...”