Na vida, tive sempre bastante dificuldade para conseguir explicar às pessoas que era capaz de passar horas a jogar bilhar livre ou ping-pong (agora, diz-se ténis de mesa, eu sei, mas continuo a dizer ping-pong) sem contar pontos, apenas pelo prazer de tentar fazer uma boa carambola ou puxar bem uma bola. Verdade seja que raramente encontrei parceiros para essa minha estranha forma de estar nos jogos.
Por natureza, sou a pessoa menos competitiva que conheço: muitas vezes, quando entro num jogo, o facto de ganhar ou perder é-me praticamente indiferente. Até chego a achar graça ver os outros ganhar, porque não sofro nada com a minha derrota. (Mas, curiosamente, já não tenho a mesma atitude para competições que não seja eu próprio a disputar, como é o caso dos jogos do meu clube ou da seleção).
A extraordinária arte de jogar a bola era aquilo que eu mais preciava em Maradona, até porque nunca me preocupou se as equipas onde ele jogava ganhavam ou perdiam. O que nele exclusivamente me interessava era a sua relação física com a bola, como num circo aprecio um trapezista ou o passe inexplicável de um mágico. Nem sequer era essencial que, do que ele fazia, viesse a resultar um golo, embora isso fosse o cúmulo superlativo.
Maradona, personalidade que, enquanto figura pública, sempre considerei detestável, foi seguramente dos jogadores de futebol que mais prazer me deu ver jogar. Na hora da sua morte, acho que este é o melhor elogio que posso prestar-lhe. Porque é o mais sincero.
