Acabo de saber que um dos leitores fiéis deste espaço teve um acidente e partiu a bacia. Nada de grave, que uns tempos de repouso não cure.
Aconteceu o mesmo, um dia, ao padre Domingos, o simpático sacerdote de Bornes de Aguiar, pessoa que, por décadas, batizou, casou e enterrou toda a gente da minha família materna. Já lá vai há muito, o amável padre Domingos.
“A ti, só te batizei, foste o único que não consegui casar”, dizia-me ele, pesaroso perante o ímpio que lhe tinha escapado ao sagrado controlo, registando essa falha no seu currículo. “E até foste já a andar para a pia batismal”, recordava-se ele.
Do que ele se não lembrava, e eu e os meus pais tínhamos a delicadeza de lhe não recordar, é que teria sido a água gelada que utilizou no ato, nessa manhã frígida na capela de S. Martinho de Bornes, no alto das Pedras Salgadas, que terá desencadeado em mim uma seriíssima bronco-pneumonia, que me pôs, por semanas, no limbo da vida e me ia levando desta para melhor. Foi graças à então escassa penicilina, que vinha do Porto para Vila Real, pela mão do recoveiro, que hoje estou aqui a contar isto. Aí terminou, aliás, a minha relação com a igreja.
Como antes disse, o bom do padre Domingos, um dia, sabe-se lá como, num azar, talvez num degrau de altar, partiu a bacia. A paróquia entrou em estado de pena e as ratas de sacristia faziam corrupio para ir saudá-lo, lá a casa.
Numa dessas vezes, cansado da conversa monotemática, perante uma paroquiana que, entre ladaínhas pias, dramatizava o que tinha sucedido ao “senhor padre Domingos”, este, já um pouco irritado, terá retorquido: “Ó mulher! Eu parti a bacia, mas não parti o jarro...”
