Vi por aí uma polémica em torno de um cantor, autor de uma canção com o título de “Império”. Confesso que a minha curiosidade não vai ao ponto de ir ouvi-la.
Mas a polémica lembrou-me o Alberto. O Alberto era o meu cozinheiro em Luanda. Herdei-o do meu antecessor, tal como a lavadeira, a Domingas.
O apartamento em que eu ia ficar instalado, na marginal de Luanda, nesse longínquo ano de 1982, “eclipsou-se”, da noite para o dia, entre a partida desse meu colega e a minha chegada. Parece que foi “requisitado” pela Secretaria de Estado da Habitação local, embora a doutrina se divida sobre o que realmente se passou.
Quando cheguei a Luanda, instalei-me num hotel, num tempo em que a penúria de bens também atingia essas unidades. E aí tive de viver quatro meses, com as minhas mobílias encaixotadas na embaixada, até que arranjei uma nova casa. Foram tempos bastante complicados, mas ser novo ajudava.
O Alberto apresentou-se “ao serviço”, logo no meu primeiro dia de Angola. Por meses, não tive nada para lhe dar que fazer, embora pagando-lhe sempre.
Achei contudo estranho encontrar o Alberto, várias vezes, pelas escadas da embaixada, ao longo desse tempo. “O que anda a fazer por aqui?” (eu nunca consegui tratar um empregado, ou um soldado, por tu). Ele metia os pés pelas mãos, até que alguém me explicou: a embaixada tinha um acordo com uma padaria e o meu antecessor recebia uma partida de pão todos os dias, que era essencial para a alimentação da família do Alberto, que tinha muitos filhos e vivia num musseque junto ao aeroporto. Essa “pontualidade” ao serviço tinha, assim, uma explicação simples...
O Alberto, Resende de apelido, já não devia ser novo, porque tinha passado a idade militar. Tinha uma cara séria, fechada. Com o tempo, tive ocasião de apreciar esse fácies com ar de zangado. É que os problemas só surgiam quando o Alberto sorria: significava que tinha bebido, e isso acontecia bastantes vezes.
Sóbrio, o Alberto era um razoável cozinheiro, não o estando era um trapalhão e era preferível mandá-lo para casa. Quantas vezes, ao abrir-lhe a porta, de manhã, deparando com um sorriso escancarado e um hálito inconfundível, eu lhe dizia: “Vá-se embora, Alberto. Volte amanhã!” E o Alberto rodava os calcanhares e zarpava de volta ao musseque... com o pão do dia, claro.
Para além do resto dos copos de vinho, de toda a gente que tinha estado à mesa, num almoço ou jantar lá em casa, que ele escorropichava da bandeja entre a sala e a cozinha, o Alberto era fã de “caporroto”, uma aguardente cuja fermentação era às vezes acelerada com uso do ácido de pilhas elétricas... A sério! Uma vez provei! Não era mau de todo...
Um dia, fui com o Alberto à Corimba, um subúrbio de Luanda, no meu carro, buscar qualquer coisa para casa. Em Luanda, nesse tempo, passávamos metade do tempo a tentar arranjar coisas para comer e a outra metade a comê-las, em jantaradas com os amigos. Também havia bastante trabalho e tempo para dormir, claro!
Nessa viagem, pela estrada acidentada, a fugir aos buracos, perguntei ao Alberto que diferenças ele achava que havia em Angola, desde a independência, que tinha ocorrido apenas sete anos antes. Vivia-se então em guerra civil, Luanda era uma cidade sitiada, parte do país estava a ferro e fogo.
O Alberto nunca me pareceu ser um grande fã do MPLA. Sempre desconfiei que tinha simpatias pela Unita. Ele era de Sumbe, antigo Novo Redondo, uma localidade que ficava a algumas horas de Luanda, por uma estrada que, com o tempo, veio a tornar-se muito perigosa. Depois da independência, Sumbe chegou a chamar-se Nzunga Cabolo, até a historiografia do MPLA ter descoberto que esse herói tinha tido os seus “podres”. O Alberto, às vezes, enganava-se e falava da sua terra como Nzunga.
Nessa conversa, e via-se que o fazia com naturalidade, sem ser para me agradar, o Alberto disse muito bem do “tempo do colono”, designação muito comum em Angola, para identificar a época local “da outra senhora”. Esse tinha sido um período, segundo ele, em que “os mercados estavam cheios”, as estradas não tinham covas, “as coisas funcionavam”. A certo ponto da conversa, entusiasmou-se e disse mesmo: “Os portugueses deviam regressar”.
Achei aquilo um tanto exagerado e retorqui: “Mas quer que Angola volte a ser colónia de Portugal?” O Alberto olhou-me, com a cara séria que era a sua, e afirmou, com clareza: “Não, não! A independência é nossa, ninguém a leva!”. Tomei nota. O Alberto tinha toda a razão. E hoje é 11 de novembro, dia da independência de Angola.
Ao ouvir falar hoje de “império” lembrei-me desta conversa com o Alberto Resende, meu cozinheiro em Luanda. Que será feito dele?
