Não, não vou colocar aqui a fotografia do advogado de Trump, Rudy Giuliani, com o suor tingido pela tinta do cabelo, como muita imprensa está hoje a fazer, um pouco por todo o mundo. A baixeza que a utilização dessas imagens representa coloca quem recorre a esse expediente ao nível de Trump e dos seus sequazes, de que Giuliani é um dos expoentes notórios.
Quando, há quase 20 anos, fui viver para Nova Iorque, já conhecia Giuliani de nome, como presidente do município local. Era então notado por ter introduzido um estilo de rigor securitário na cidade, sendo com isso acusado de ter fomentado arbitrários controlos a suspeitos, normalmente negros. Mas, numa lógica de “law and order”, tinha imensos admiradores.
Giuliani era defensor de uma particular teoria com que eu simpatizava (e simpatizo, aplicando-a sempre que posso, na minha vida diária, pessoal ou profissional): a da “broken window”. A ideia é simples. Se uma janela aparece partida, se uma porta fica com ar degradado, se uma lâmpada se funde, se algo surge estragado, deve proceder-se de imediato ao respetivo conserto: a degradação “chama” degradação, banaliza o desleixo, cria um ambiente que favorece quem fomenta o tipo de atitude do “deixa andar”.
No caso de Nova Iorque, Giuliani atacou e reduziu o vandalismo, criando uma forte consciência pública contra a degradação da cidade. Dizia-me quem vivia em Nova Iorque que a cidade ficou bem melhor para viver no período de Giuliani.
Com Giuliani, que já antes perseguira a máfia e desmantelara o “red light district” que enchia a zona de Times Square (de que eu bem me lembrava, quando visitei a cidade em 1972), o crime urbano baixou drasticamente, embora a doutrina se divida sobre se parte desse mérito não se deverá a fatores demográficos e económicos de outra natureza. Não sei o suficiente para ter opinião nesse debate.
Numa das primeiras vezes que saí de casa, nesse mês de março de 2001, para dar um passeio pelas redondezas depois do jantar, apercebi-me de que havia um batalhão de viaturas de televisão à volta de uma moradia, situada a escassas centenas de metros do prédio onde ficava o meu apartamento. Se, em lugar no “New York Times” e do “Washington Post”, eu lesse o “Daily Mail” ou o “New York Post”, teria logo percebido o que isso queria significar.
A casa chamava-se Gracie Mansion e era a residência oficial do chefe da municipalidade nova-iorquina, Rudy Giuliani. Mas ele já não vivia lá. O “cerco” mediático devia-se à circunstância da sua mulher “oficial”, com quem tinha rompido pelo facto do marido se exibir publicamente com outra senhora, se recusar a abandonar a casa. Giuliani estava a acabar o seu tempo de “Mayor” mas a sua vida sentimental e respetivo escândalo pública tinham então maior relevo do que os seus feitos no município.
Isso iria mudar radicalmente, meses depois. Com um comportamento exemplar no 11 de setembro, passou a figura venerada e, até, um pouco por todo o mundo, a personificação da cidade agredida barbaramente. A sua ambição política ressurgiu então, embora sempre com limitado sucesso. Este só viria a surgir na sua qualidade de advogado, de que Trump se tem utilizado, no seu esforço patético para se agarrar ao poder.
Ontem, voltámos a vê-lo, na defesa de Trump. Por muito qualificado que Giuliani, como advogado, possa ser, a verdade é que vê-lo titular este combate contrasta um pouco, para pior, com a elegância da figura de James Baker, que, em 2000, na Flórida, tinha conduzido com sucesso a batalha legal que levou à eleição de George W. Bush.
