Foi em julho de 1992. Eu vivia então em Londres e fui uns dias, em férias, a Nova Iorque. Na Broadway, estava uma peça teatral de grande sucesso, “Death and the Maiden”, para a qual tive a sorte de conseguir arranjar bilhetes. Era a história de uma mulher que encontra, em sua própria casa, trazido casualmente pelo seu marido, o homem que a tinha torturado e violado, anos antes, durante um período de ditadura política. Sem que isso fosse explicitado, tudo apontava para situar o episódio no Chile de Pinochet, tanto mais que o autor da peça era dessa nacionalidade. O elenco era de luxo: Glenn Close, Gene Hackman e Richard Dreyfuss.
Sentámo-nos no teatro e, por uma imensa coincidência, ao meu lado ficou Regina Duarte, a excelente atriz brasileira, que tinha entrado em várias novelas que tínhamos visto na televisão. Não sou muito dado a esse tipo de gestos, mas não resisti a falar-lhe, expressando a minha admiração pelo seu trabalho como atriz. Foi muito simpática.
No final da peça, Regina Duarte chorava. Fiquei com grande respeito por aquelas lágrimas. O peso insuportável das ditaduras latino-americanas de extrema direita estava ali todo, naquela sala. Percebi que uma mulher e atriz brasileira, que também tinha passado por um regime similar àquele, sentia, como ninguém, a situação que ali via retratada.
Há horas, foi anunciado que Regina Duarte aceitou ser secretária da Cultura de Jair Bolsonaro.
Às vezes, há coisas que não rimam.
