quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Líbia


1976. Na longa estrada de Misrata para Tripoli, o carro em que eu seguia era conduzido por um engenheiro líbio, formado no Reino Unido. Havíamos feito um desvio para visitar as magníficas ruínas de Leptis Magna (na imagem), a majestosa cidade de colonização romana, situada a mais de uma centena de quilómetros da capital líbia. 

Íamos os dois sós. Os restantes membros da nossa delegação seguiam em outros carros. Falámos bastante, da vida e do mundo, com ele sempre a mostrar-se orgulhoso do seu país e das suas realizações. Não tinha um discurso apologético àcerca de Kadafhi, mas não se lhe notava qualquer pendor para a dissidência. À passagem pela cidade de Homs (homónima da da Síria, da mesma forma que há outra Tripoli no Líbano), a densidade de cartazes e "outdoors" com a face do líder líbio, legendados em árabe, tornava-se muito evidente. Ousei então perguntar: "Kadafhi é mesmo popular? As pessoas gostam dele?".

O meu interlocutor, cujo nome devo ter ainda em alguma parte, mas de quem nunca mais tive notícias, ficou silencioso por alguns instantes, olhando a estrada. Depois, retorquiu:

- Se gostam de Kadafhi? Gostam de quem lhes dá casas, como Kadafhi lhes dá. Gostam de quem lhes dá escolas para os filhos, como Kadafhi lhes dá. Gostam dos novos hospitais, que Kadafhi está a construir, bem como destas estradas, que antes não tínhamos. Já andou de avião dentro da Líbia, não andou? Os pobres agora viajam de avião.

De facto, as minhas duas ou três experiências nas linhas internas da Libyan Airlines tinham-me mostrado que os aviões estavam transformados numa espécie de autocarros de província, com imensos beduínos, transportando mesmo gaiolas com galinhas! Os preços deviam ser muito acessíveis.

Começava a chegar à conclusão de que o meu condutor, homem com mundo e um excelente inglês, era, afinal, um fiel apoiante do coronel Kadafhi.

- Kadafhi dá muita coisa ao povo. Paga tudo com o petróleo e há muita gente contente com ele. Você já leu o "Livro Verde"? 

Fiquei num certo embaraço. De facto, havia passado os olhos por aquela "obra", escrita num estilo delirante, de quem tinha "descoberto a pólvora" política, desenhando uma terceira via entre o comunismo e o capitalismo. Kadafhi era uma espécie de "genérico" de Nasser: abolira uma monarquia corrupta, afastara os americanos da base americana de Wheelus (por esses dias, eu estava alojado no "Beach Hotel", ao lado da antiga base, antes frequentado quase exclusivamente pelos militares dos EUA) e julgava-se fadado a ser um federador do mundo árabe. Mas estava muito longe da dimensão histórica do líder egípcio. O "Livro Verde" havia aparecido em Portugal pela mão de um jornalista já desaparecido, Cartaxo e Trindade, que cheguei a encontrar, numa outra ocasião, em Tripoli.

Sobre o "Livro Verde", eu não sabia o que dizer ao meu interlocutor. Não queria hostilizá-lo, nem parecer complacente. Devo ter dito uma coisas "redondas" sobre a "originalidade" das ideias expressas no livro. Mas também não era preciso, como verifiquei pelo que ele me disse a seguir, sempre olhando a estrada em frente:

- Kadafhi é um fanático que se acha mais inteligente que todos os outros. O povo líbio não tem grandes queixas materiais, mas não tem, nem percebe que não tem, uma coisa importante que vocês agora já têm: a liberdade. Mas se "eles" sonhassem que lhe estava a dizer isto, eu seria preso.

Calou-se. Percebi que tinha ido tão longe quanto lhe era possível. Talvez mais longe do que a prudência aconselhava. A viagem continuou, connosco em longos minutos em silêncio. Voltei a encontrar esse engenheiro líbio em algumas reuniões técnicas posteriores. Todas já há muitos anos. Nunca mais regressámos ao registo daquela nossa conversa entre Misrata e Tripoli. Que lhe terá acontecido?

7 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

A Líbia foi o título de glória de Sarkozy e BHL, Obama e Hillary Clinton…”Veni, Vidi ele morreu” disse a estúpida Hillary. A sodomização “in live” na televisão, do Chefe de Estado Líbio não a apoquentou…Normal. A humilhação faz parte do arsenal do país da liberdade…Puxar por um prisioneiro iraquiano nu, com uma trela à volta do pescoço, como fez a GI na sala de tortura da prisão de Abu Ghraib, no Iraque é um acto heróico.

A intervenção na Líbia suposta ser um modelo de legalidade, terminou além dos termos da Resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU, que autorizou a criação de uma zona de exclusão aérea, mas não a mudança de regime.

A intervenção foi apresentada como uma operação verdadeiramente internacional, mas foi finalmente liderada pela NATO , a França e Inglaterra, as principais potências da idade de ouro da colonização, o que contribuiu para a má imagem de toda a empresa.

A intervenção deveria evitar um massacre em Benghazi, mas terminou num massacre em Sirte, onde os partidários de Gaddafi foram executados em grande número. Era para dissuadir outros tiranos de oprimir os seus povos, mas na verdade não teve esse efeito.

As alegações de que as reservas de petróleo líbio, que são as nonas do mundo, podiam ter influenciado a decisão de intervir, foram amplamente confirmadas depois. A partilha do bolo foi feita imediatamente. Hoje as bombas bombeiam dia e noite, para pagar as despesas…

As tribos continuam na guerra civil. Mas que importa, se o petróleo sai…

Os líbios recuperaram a “liberdade” de morrer afogados no Mediterrâneo e vadiam nas estradas da Europa. Vi dois ontem à tarde à porta de Carrefour, a mão estendida… Mas são livres de ser miseráveis. Recuperaram a liberdade…

Luís Lavoura disse...

os aviões estavam transformados numa espécie de autocarros de província, com imensos beduínos, transportando mesmo gaiolas com galinhas!

Assisti a exatamente o mesmo (incluindo as gaiolas com galinhas) num vôo entre Moscovo e Tbilisi, capital da Geórgia, em 1991 (já a Geórgia andava a tentar ser independente). Na URSS os aviões eram de facto autocarros de província.

Anónimo disse...

Joaquim de Freitas :
Porque é que não tem um blog seu ? É que acho que valia a pena . Tudo o que escreve é tão certo e bem escrito ...
Ou já tem um blog e eu não sei aceder a ele ? Se tiver diga , passarei a “ frequentá-lo “ .
Obrigado

Patrick disse...

Deve ter chegado à triste constatação de que é possível ser bem pior do que Kadaffi.

Joaquim de Freitas disse...

Anonimo de 15 de janeiro de 2020 às 10:17: Obrigado Caro Anónimo. Não creio possuir a qualidade de Português necessária para criar e manter um “Blogue”. Estive cinquenta anos sem utilizar a nossa língua e se, num comentário, as faltas podem passar, editar um “Blogue”, requer melhor qualidade.
Exprimo-me sobre diversos assuntos numa “página” do Facebook, com o meu nome e sob o título de “ESPECIAIS”.

Anónimo disse...

"15 de janeiro de 2020 às 10:17"

O Freitas não tem um blog porque só lá iria quem quisesse (com o Facebook é a mesma coisa). Muito mais fácil é "invadir" os blogs dos outros, forçando quem lá vai para ler Fulano a ter de levar com os testamentos de Sicrano. Está a ver? É uma forma de aumentar imenso - e sem esforço -, o público-alvo.

A vantagem de o "15 de janeiro de 2020 às 10:17" ir ao perfil Facebook do seu estimado comentador preferido é que tem muitas fotografias do autor e, também, imensos "memes" (invariavelmente dedicados ao Trump ou qualquer outra coisa - desde que em tom anti-americano). É uma coisa mais colorida e servida com um bonito sorriso. E pode partilhar!

João Cabral disse...

«Àcerca», senhor embaixador?