sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Sejam possibilistas!



A ideologia liberal contemporânea tem colonizado por cá o pensamento económico. É hoje a matriz quase exclusiva do ensino universitário, em especial nas “business schools”, onde doutrinas divergentes são abordadas como meras curiosidades históricas, contrapontos risíveis face a esse novo normal. Sobram, claro, alguns que não se vergam ao papel absolutizante do mercado e ainda destacam a ação política que releva o papel do Estado. Mas esses são espécies “raras”, de um outro tempo. O pessoal da “mão invisível”, nos dias que correm, anda por aí nas suas sete quintas. Na teoria.

Um certo jornalismo económico também quase que desapareceu. É incomum ver alguém fornecer ao utente mediático chaves alternativas que permitam a este fazer, pela sua própria cabeça, uma leitura da realidade económica. É raríssimo ver um jornalista abordar uma decisão política, com implicação económica, com total equidistância face às diferentes razões que podem explicá-la. O que se observa são leituras assentes numa única perspetiva, diabolizantes do papel do Estado e críticas da sua dimensão, rejeitando modelos intervencionistas, tendo como ‘benchmark” fórmulas de matriz austeritária, de redução obsessiva dos défices, de desregulação e de fé infinita nas virtualidades do mercado. Quando os argumentos escasseiam, vão ao fundo da panela e repescam, sempre sem as detalhar, as tais “reformas estruturais”. Tudo tão previsível!

Os saudosos anos da “troika”, com as fórmulas mágicas que nos trariam um mundo de felicidade terrena, foi, para esse antigo jornalismo - hoje mera opinião, com o “eu” expresso ou subentendido no comentário que, às vezes, se disfarça de notícia -, uma espécie de “jardim do éden” perdido, que a aziaga realidade dos factos não permitiu levar à prática até ao fim (aqui concordo: seria o fim!). Esse pessoal sente-se hoje órfão do extremo rigor perdido lá por Bruxelas e considera laxista o “quantitative easing” do BCE, porque facilitou a vida ao governo que detesta.

Valha a verdade que certos setores económicos navegam nas mesmas águas, razão pela qual algum jornalismo económico (ainda não todo, felizmente) mais não é hoje do que o seu espelho impresso, às vezes por convicção, outras por servilismo. Com uma imensa diferença: na vida das empresas lida-se com a realidade, não com as palavras. 

O papaguear dos liberais do burgo pode até confortar as íntimas convicções de muitos, para quem deve ser cómodo ler colunistas e opinadores televisivos que lhes “dão razão”. Porém, há uma realidade com que, gostem eles ou não (e muito não gostam!), têm de conviver: quem representa politicamente essas ideias que lhes são caras não tem hoje, em Portugal, um suporte maioritário, na hora do voto. Por isso, no fim do dia, por muito que lhes custe (e custa!), estão a ter de aprender a viver com a Geringonça ou outro modelo similar. E, nos próximos quatro anos, devem já ter percebido que, muito provavelmente, e salvo imponderáveis, também não poderão contar com o presidente da República para colocar pauzinhos na engrenagem. Um azar nunca vem só, não é?

Estando muito longe de partilhar a santificação política do mercado, estou convicto de que há espaço para ir melhorando, com diálogo e sem roturas, a competitividade da nossa economia e a eficácia da máquina pública. Tenho para mim que os que tentam “partir a loiça” acabarão afinal por partir a cabeça, podendo sair feridos do exercício. Por isso, só posso recomendar uma atitude realista: a inteligente adoção do “possibilismo”. No passado, essa doutrina gradualista trouxe alguns socialistas à consciência pragmática daquilo que, de facto, era viável fazer, sem saltos radicais, aprendendo a operar sob as condições políticas da conjuntura. Nos dias portugueses de hoje, aconselho uma postura idêntica a quantos trabalham no universo privado. 

6 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

As decisões de investimento tomadas de acordo com as prioridades e as possibilidades financeiras e tecnológicas disponíveis, tratando "de uma coisa por vez," é o possibilismo.

Se consideramos que a pobreza global do planeta, é um flagelo, porque toca 1 bilião de humanos, ela pode ser reduzida por meio de mais um ou vários "grandes impulsos" na assistência ao desenvolvimento; é o anti possibilismo.

No primeiro caso nunca chegaremos a um resultado.

Anónimo disse...

Sempre admirei a capacidade que algumas pessoas têm, de mandarem "bitaites" sobre assuntos de que não têm a menor experiencia, como por exemplo, arranjar dinheiro para pagar salários e respetivas alcavalas.

Anónimo disse...

17 de agosto de 2019 às 01:42
Há noções de economia que a esquerda, ou um ilustre funcionário público, compreendem à sua maneira.
Ao seu comentário adiciono outro.
Um respeitado empresário, dos antigos, os que trabalhavam com capitais próprios, no dia 30 de cada mês costumava desabafar: "Hoje vou dormir descançado. Amanhã vou começar a pensar no que temos que fazer para pagar a esta meia centena de "meus" empregados no fim do mês".
Um CEO de uma empresa privada terá sempre (mais ou menos) que responder aos acionistas.
Um Administrador numa empresa "intervencionada" tem sempre as costas largas.
Um Ministro, com problemas orçamentais, só tem que solicitar ao Ministro das Finanças que legisle mais impostos.
Que, por sua vez, sempre pode endividar mais o País.
Economia 101.

Anónimo disse...

" E, nos próximos quatro anos, devem já ter percebido que, muito provavelmente, e salvo imponderáveis, também não poderão contar com o presidente da República para colocar pauzinhos na engrenagem. Um azar nunca vem só, não é?"


Não estou assim tão seguro. Sem necessidade de campanha eleitoral, face à impossibilidade de segunda reeleição, a imprevisibilidade do Sr. Presidente não deve ser subestimada.

Pedro Furtado Correia disse...

«A ideologia liberal contemporânea tem colonizado por cá o pensamento económico. É hoje a matriz quase exclusiva do ensino universitário, em especial nas “business schools”, onde doutrinas divergentes são abordadas como meras curiosidades históricas, contrapontos risíveis face a esse novo normal. Sobram, claro, alguns que não se vergam ao papel absolutizante do mercado e ainda destacam a ação política que releva o papel do Estado. Mas esses são espécies “raras”, de um outro tempo. O pessoal da “mão invisível”, nos dias que correm, anda por aí nas suas sete quintas. Na teoria.» Não será demais repetir, mesmo que nos comentários. Mas vou também colocar no meu blog.

Pedro Furtado Correia disse...

Senhor Embaixador, cá está! Com um complemento ao excerto. Cumprimentos portugueses