segunda-feira, 12 de agosto de 2019

A fronteira


Não acho que se deva ter saudades das antigas fronteiras europeias, com que Schengen acabou. E é, naturalmente, sem a mais leve das nostalgias que recordo a inquietação pateta que nos invadia quando, num passado felizmente já distante, os carros que atravessavam a fronteira luso-espanhola eram sujeitos ao escrutínio inquisitivo das figuras policiescas (e pidescas) que, com ar de caso, pretendiam saber o que trazíamos do estrangeiro, fosse isso "melocotones", "torrón de Alicante" ou uma simples garrafa de Coca-Cola (sim, é verdade!, Salazar não permitia que se importasse Coca-Cola, para quem não saiba). Era assim, antes de 1974.

Um dia dos anos 60, regressei a Portugal integrado num grupo que estava sob a benévola liderança de um simpático amigo, com grande experiência de travessia de essas e várias outras fronteiras europeias. A prática de muitas viagens tinha-lhe ensinado engenhosos truques. Recordo aqui dois deles, que testemunhei.

Na travessia de Andorra para Espanha, esse amigo preparou a mala do carro por forma a dar a impressão de estar a abarrotar de objetos de uso comum. Por detrás de tudo aquilo, escondiam-se algumas simples mas “proibidas” coisas, com as quais os guardas fronteiriças costumavam implicar. O truque essencial para evitar uma revista criteriosa, que ele havia treinado para não falhar, era colocar um penico de plástico por forma a que, logo que se abrisse a mala do carro, esse objeto caísse no chão. Era um penico com ar de usado (trazido expressamente de Portugal!) e a finalidade era provocar no guarda um subliminar processo de rejeição, quase de nojo, que o desestimulasse de prosseguir a vistoria. Sou testemunha de que, nessa vez em que assisti, o truque funcionou perfeitamente.

Dias depois, em Espanha, chegados perto da nossa fronteira, vi-o decidir estacionar por mais de meia hora, a cerca de um quilómetro de Portugal, sem um aparente propósito. O meu amigo mantinha um sorriso misterioso, quando perguntado por que perdíamos tempo. Minutos depois, chegados à parte portuguesa da fronteira, enquanto alguém tratava dos passaportes, assisti à conversa entre esse amigo e o homem da alfândega:

- Deve ter ser muito cansativo estar aqui o dia todo nesta tarefa! Ainda lhe falta muito tempo de trabalho?

- Não, não! De facto, vou sair de serviço daqui a cerca de dez minutos.

- Ainda bem! Desejo-lhe um bom descanso. O que pretende ver, no carro? 

- Nada. Não é necessário abrir nada. Podem seguir. Boa noite!

Foi só nesse momento que percebi por que razão tínhamos "feito horas" antes da fronteira. O meu amigo sabia dos turnos dos funcionários das alfândegas e, com uma precisão suíça, conseguia sempre chegar uns instantes antes deles abandonarem o posto, num momento em que a respetiva paciência já se tinha esgotado e estavam mais inclinados a ir para casa do que a vasculhar o carro de um simpático cidadão que, além do mais, se preocupava com o seu cansaço.

5 comentários:

Portugalredecouvertes disse...


Então Salazar já conhecia o conceito de risco e a capacidade de um eventual aumento da incidência do excesso de peso futuro nos portugueses por via do consumo de refrigerantes !!!

Anónimo disse...

Nas excursões do Liceu a Zamora ou Salamanca levávamos café para vender em Alcañices!
Cada un 1 Kg de Sical, que os guardas fechavam os olhos.
À vinda trazíamos coca-cola, caramelos, torrão, e pouco mais.

Outeiro

alvaro silva disse...

E na fronteira de Valença entre a meia-noite e a uma da manhã, (isto no tempo do Marcelo Caetano até aos governo de Mário Soares e parte do de Cavaco, antes da entrada na CEE) era de tipo bar aberto, a essa hora passava tudo ou quase até armas! Depois dessa happy hour voltava tudo ao mesmo.

adelinoferreira disse...

"Salazar não permitia que se importasse Coca-Cola, para quem não saiba). Era assim, antes de 1974"

Não é literalmente verdade, já que pelo menos em Angola era permitida a sua venda.
Se a memória não me atraiçoa julgo que a cheguei a comprar na Manutenção Militar,mais conhecida por Casão

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Adelino Ferreira. Eu falei de Portugal, não das colónias