sexta-feira, 23 de agosto de 2019

A procissão


Terminaram ontem as festas de Bragança. Na véspera, à noite, tinha acabado de tomar um chá no Flórida (sou um fã histórico do vizinho Chave de Ouro, mas o chá preto, por lá, é sinistro!), deu-me para passear um pouco, aproveitando o clima, pelas ruas da vizinhança. 

Passei pela praça que a imagem mostra, onde, num muito cálido 10 de junho, há muitos anos, recebi a maior condecoração que um servidor público pode almejar. Decidi percorrer a pé várias ruas, no entorno da Sé. Passo por ali tantas vezes, sempre de carro, e essa era uma oportunidade de conhecer melhor a área. Ia sozinho e sozinho continuei sempre porque, não obstante estar uma noite fantástica, havia muito pouca gente.

Isso até certa altura! De repente, comecei a ouvir umas rezas em tom magnificado por altifalantes e dei comigo, ao virar de uma esquina, frente a uma procissão.

Quando digo “frente”, é isso mesmo! Atrás de mim, a rua em que acabava de entrar estava praticamente deserta e, pela frente, aproximava-se uma mole humana que ocupava todo o espaço da artéria, de casa a casa. Na dianteira (não quero parecer o Villaret, a ler “A procissão” do António Lopes Ribeiro, nem usar linguagem de cronista de ciclismo) vinha um grupo com opas brancas, empunhando uma luminárias altas (perdoe-se-me a falta de vocabulário, mas sou de outra “freguesia”, em matéria de fés & fezadas). Todos - repito, todos ! - olharam para mim, com um ar inquisitivo. Eu descia, eles subiam, pelo que todos me viam. Ia desgrenhado, com barba de férias de três dias e um ar (momentaneamente) assarapantado pelo inesperado, num conjunto bizarro que não passava desapercebido àquelas centenas de pessoas que, lentamente, passo a passo, se aproximavam, numa grande e serena frente humana. Derivei, com as discrição possível, para um dos lados da rua, tentando neutralizar a minha presença. Subi uns degraus, à entrada de uma casa comercial, colei-me a uma montra, mas, em lugar de assim me disfarçar perante as atenções coletivas, fiquei gambiarrado nessa plataforma pela luz que vinha do interior, numa exposição ainda maior. Todos olhavam para aquele fulano de cabelos brancos, que ninguém conhecia e que ali estava, numa postura insólita, em claro contra-ciclo com a cerimónia. 

Que fazer? Pensei deixar passar toda a procissão mas, como ela ia numa subida, e o andor que vinha no meio com a Senhora tinha ar de pesadote, e quem o segurava já devia vir cansado, aquilo arreou por várias vezes. Eu, embora sem a menor pressa, começava a sentir-me um pouco mal naquela função de único (porque era o único, em toda a rua!) mirone, mas por todos mirado, do evento. Decidi assim aproveitar uma das pausas para me escapulir, furando com uns “com licença” por entre os fiéis, que não paravam de cantar ou rezar, a maioria empunhando uma vela (aquilo agora parece de vidro, na minha infância era de papel) e quase todos afivelando um ar de silencioso desagrado pelo caminho contrário que aquele forasteiro ia fazendo pelo meio deles. Que embaraço!

Acho que ontem fiquei com meia Bragança a ter uma péssima imagem de mim. Pelo sim pelo não, hoje fiz a barba.

8 comentários:

Anónimo disse...

Devem ter achado que não respeitou o silêncio necessário face àquele acto religioso que estava a decorrer.Ter tentado escapulir-se por entre os elementos da procissão, foi ainda pior pela sua atitude de fuga e de desrespeito aos valores dos outros,sem alaridos nem palavras de ordem.
...
P.S. Se pensaram que era um elemento da carbonária desgarrado......que vinha para cumprir serviço......

Erk disse...

"Algum lisboeta", terão pensado

Manuel disse...

Uma aparição de S. Francisco

Anónimo disse...

Talvez meia Bragança se estivesse completamente nas tintas ... e a outra metade estava concentrada na procissão ...

Anónimo disse...

Considerando que estava de barba por fazer, que o forte em Bragança não será política externa, que a devoção era intensa ( vamos acreditar...) e a atenção, para o domínio do terreno, diminuta, é possível que tenha passado despercebido...
Muito engraçado!

Anónimo disse...

"Algum lisboeta, terão pensado". Os bragançanos dizem mouros.

E essa gente não pensa...

Anónimo disse...

Sr. Embaixador. Conte, pelo menos, com uma pequena temporada, no purgatório, quando chegar o tempo.Pode ser com barba.

Anónimo disse...

Na minha aldeia da B. Alta, se as curtas e escassas visitas (infelizmente) coincidem com a festa maior, vou à procissão! E de fato e gravata... a solenidade assim o exige! Desobrigo-me da missa, que é cantada e tem sermão, dos antigos! Fico fora da igreja - a pôr a conversa em dia - o espaço é exíguo e já tenho créditos suficientes de missas da meninice. A credencial está em latim o que, penso eu, facilitará a entrada no reino. Acrescem aos créditos, os meus últimos 6 anos no país onde o Sr. Embaixador foi baptizado de Comandante.