domingo, 18 de agosto de 2019

A deriva italiana


Quando, na década que sedimentou a paz do pós-guerra, a Itália foi cooptada para a construção do projeto de unificação (então só) económica da Europa, houve a clara consciência de que a unidade daquele país, não tão antiga quanto isso, muito dependeria das sinergias desse modelo agregador. Talvez nenhum outro Estado europeu mantivesse, no seu interior, diferenças regionais tão pronunciadas de desenvolvimento, quiçá mesmo de mentalidades. O seu próprio sistema político era tributário dessas divergências, que tiveram expressão concreta nos afloramentos terroristas, de sentidos extremistas opostos, que marcaram alguns “anos de chumbo”. 

A fórmula constitucional que colocava a democracia cristã e um certo socialismo nas calhas regulares de acesso ao poder, com um partido comunista que evoluía para um “compromisso histórico” com esse duopólio, revelou-se, a certo passo, incapaz de sustentar, com legitimidade, a vontade coletiva. O mal-estar com certos poderes fáticos levou ao afloramento populista de uma “república de juízes” e, no termo de uma crise, um modelo político com décadas acabou por ceder. Dessa implosão nasceu uma constelação partidária de novo tipo, que, num primeiro tempo, fez emergir figuras como Berlusconni e deu expressão ao separatismo arrogante do norte do país. A densidade de algumas dessas novas forças acabou por revelar-se frágil e, rapidamente, veio a verificar-se uma nova fragmentação que, em termos gerais, corresponde ao espetro de representação que hoje existe.

A Itália europeísta que conhecemos deixou de existir. Hoje, estamos perante um país fortemente dividido, raptado por uma agenda egoísta de forte pendor populista, com a clara consciência de que o seu peso nacional não deixa de contar na aritmética decisória de Bruxelas, que também tem consciência de que se não pode dar ao luxo de isolar provocatoriamente um dos poderes europeus mais relevantes ou, pelo menos, decisivo para o equilíbrio do seu projeto. Mais do que isso, essa nova e perturbadora Itália tem hoje a tentação de servir de linha da frente a quantos se propõem prosseguir na construção de uma ordem alternativa, liberta do “politicamente correto” dos princípios que serviram de escudo moral àquilo a que hoje chamamos União Europeia.

A próxima Comissão Europeia vai ser presidida, pela primeira vez, por uma personalidade alemã - rompendo uma regra não escrita que excluía a economia mais poderosa da Europa desse lugar. Isso acontece num tempo em que o próprio equilíbrio interno germânico se desfaz, com a emergência de forças que podem vir a conjugar-se ao destino provável da Itália. Este é também o tempo em que, em França, se joga o destino da experiência Macron, que, a não ter sucesso, tem do outro lado da trincheira interna a extrema-direita. Com os dois maiores países da UE em convulsão, com a saída do Reino Unido do projeto comum, com uma Itália numa deriva de imensa incerteza, ser hoje otimista, na Europa, requer muita fé. Mas, no limite, teremos de concluir que a União Europeia é a única âncora disponível em termos dessa esperança.

9 comentários:

José Figueiredo disse...

Gostei desta análise da nossa Europa em crise!
José Figueiredo

Joaquim de Freitas disse...

A ascensão do "populismo" de direita deve ser vista como uma conseqüência direta do vácuo político criado pelo desaparecimento da democracia social.
Essa é a consequência. E esse declínio alimentou a globalização, a reestruturação financeira, a reestruturação dos mercados de trabalho, a reorientação do investimento financeiro e a aceleração das desigualdades de renda e riqueza,
As causas do colapso da social-democracia no nível político incluem a destruição de sua base política, os sindicatos e a sua perda significativa de influência política.

Isso é o resultado de erros estratégicos cometidos por esses partidos, que se associaram estreitamente à ofensiva neoliberal que começou por volta de 1980. Em Portugal, chamava-se "austeridade".

Seja qual for a causa,o seu declínio abriu o caminho para iniciativas legislativas e capitalistas visando a reestruturaçao do sistema financeiro capitalista e os mercados de trabalho em escala global.

O capitalismo nunca foi tão poderoso em relação ao trabalho como é hoje.

É por isso que, em desespero, a classe trabalhadora vota em protesto, sem poder propor ou promover soluções no interesse de todos. É assim que temos o Brexit. Apoio a partidos de extrema direita que prometem mudar o sistema e argumentam falsamente que a mudança melhorará as condições dos trabalhadores. Eles consideram os trabalhadores imbecis.

Nao posso transcrever aqui uma conversa que tive hà dias com um antigo dirigente de um dos sindicatos da firma que dirigi durante muitos anos. Seria demasiado longa. Mas a classe trabalhadora està completame,te desorientada. O que é mau para a democracia. O diàlogo é mais dificil.

As classes trabalhadoras encontram-se limitadas aos votos de protesto periódicos simples e votam em partidos e movimentos que prometem que vão “atacar os capitalistas” culpados das suas condições de trabalho e declínio do padrão de vida - mesmo sabendo que esta promessa não será cumprida. O discurso de François Hollande no Bourget ainda ressoa em meus ouvidos ...
O preço da traição foi muito elevado.

A mudança política assumiu a forma não só do desaparecimento ou ascensão de certos movimentos políticos e partidos, mas também da queda de partidos que já estiveram no poder.

E o que está ocorrendo na França e até mesmo na Alemanha, onde a Frente Nacional de Marine Le Pen e a AfD estão cada vez mais apoiadas. E, claro, a Itália , como muito bem escreve, está bem à frente na mudança de direção para a direita. Os partidos do "centro" entram em colapso por toda a parte.

Por vezes pergunto a mim mesmo se esta situaçao que se agrava todos os dias, nao é orquestrada. Trump não vê que atacando a economia dos seus aliados, todo o seu campo enfraquece. A menos que ele tente ficar sozinho no mercado, tornando seus aliados "variáveis de ajustamento econômico" quando ele precisar deles. Para vender os seus produtos e os seus estoques. Como os EUA fizeram, cada vez que uma guerra eclodiu ..


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Anónimo disse...

Neste momento, sem dúvida, esta UE é uma questão de Fé. A razão, a realidade, não perdoa.
Dir-se-ia que este projecto, alemão, de União Europeia já teve o seu tempo. É pena, muita pena, mas falhou.
-Porque as premissas que lhe serviram de base se alteraram em demasia.
-Porque agora o mundo, o globo, e a própria Alemanhã, como menciona, é outra.
A inutilidade da nova equipe de funcionários em Bruxelas é, será flagrante.
Convercer os divididos, internamente, italianos de quê?.
Os sempre receosos (do gigantesco vizinho) centro-europeus era agora que iriam salvar este novo Reich?.
Quanto ao Brexit a própria Alemanhã já vacila, em vão.
Barnier e May, cada uma à sua maneira, esticaram em demasia a corda, destruiram as pontes.
Macron, se perdurar, terá a sua oportunidade de "make France great again" como dizia o seu ex-amigo. França mítica, claro, como sempre.
Estaca Zero.

Anónimo disse...

Entretanto a curiosa frase de um diplomata francês sobre a potencial re-eleição de Trump em 2020:

"In 2016, nobody believed he was going to be elected. People don’t want to be stupid twice," former French Ambassador to the US, Gerard Araud, told Politico.
Pouco a pouco, como se opina neste link, Países europeus, e não só, rendem-se à escola de diplomacia Trump.

https://www.zerohedge.com/news/2019-08-18/people-dont-want-be-stupid-twice-foreign-diplomats-betting-trump-win-2020

Paulo Guerra disse...

Infelizmente a fé não costuma ter mais força que a história. E já estamos a ver outra vez o mesmo filme mesmo à frente dos nossos olhos. É o que geralmente acontece quando os poderes instituídos não conseguem corresponder aos anseios das populações. Posto que ainda vai piorar muito antes começar a melhorar outra vez.

Paulo Guerra disse...

Quando nos States já são os mais poderosos a solicitar para serem mais taxados... Depois das promessas do Trump contra os mais poderosos. Esperar outro resultado da desregulação total dos mercados financeiros...

Anónimo disse...

Ao Freitas só falta dizer que a esquerda, a extrema esquerda e a coiso-esquerda são quem mais se alimenta deste miserável fluxo migratório. Esquecimentos...

Anónimo disse...

Deixemo-nos de conversas de sacristia política, Seixas! Eu também, cá na minha aldeia, para onde vim depois de me reformar, não gostaria de ter uns tantos muçulmanos a rondar-me a porta e, pior, a virem, um dia , a exigir a construção de uma Mesquita, à CM, para rezarem ao tal Maomé, ou Alá. Já temos problemas que nos baste, como por exemplo, os inúmeros sem-abrigo que vejo nas ruas de Lisboa (ou do Porto), sempre que, para meu azar, tenho de lá ir, que não parece preocupar o Governo do Costa, como aliás, também não preocupava o anterior (mas aí "fazia sentido": Pasos/Portas/Gaspar e Abuquerque estavam-se nas tintas para os tais sem-abrigo. Pobre metia nojo a essa gentinha Neo-liberal). Deixe lá a Itália e os italianos resolverem e decidirem sobre o que melhor lhes convèm. Não gosto de extremistas de direita, mas também sou profundamente desconfiado quanto aos crentes de Alá. Que fiquem por Meca!

aamgvieira disse...

Ver: "borderless documentary", by lauren southern