quarta-feira, 7 de agosto de 2019

O preço da democracia


Numa noite de 1990, em Versalhes, num jantar com os pares do mundo ocidental, em que se faziam os arranjos finais da Guerra Fria, Margaret Thatcher terá tomado consciência de que, quando regressasse a Londres, deixaria de ser primeira-ministra do Reino Unido.

Contestada desde há meses no Partido Conservador, ao qual outrora proporcionara uma liderança de indiscutível êxito, fora entretanto perdendo contacto com a realidade, deixando, a partir de certo momento, de ser parte de uma solução do futuro para se transformar num problema imediato para os seus correligionários, que assistiam a uma crescente credibilização da alternativa trabalhista.

No Partido Conservador, ao tempo, competia exclusivamente aos deputados escolherem o nome do primeiro-ministro. (Nos trabalhistas, o processo era diferente, dada a preeminência dos sindicatos). Nem as estruturas locais do partido, nem muito menos os militantes, tinham a menor palavra a dizer sobre o assunto. Para além da seleção dos candidatos a deputados e a organização local das respetivas campanhas, apenas essas grandes "missas" ideológicas, não decisórias, que eram os seus congressos anuais constituíam, à época, a manifestação visível do papel do partido a nível nacional, projetando as diferentes "constituencies".

A escolha da liderança fazia-se essencialmente em Londres. Noutros tempos, as votações chegavam mesmo a ser dispensáveis, numa cultura política em que os nomes "emergiam" num conciliábulo entre os poderes fáticos, ouvidos discretamente os meios económicos e outras instituições relevantes do "establishment", numa decisão apurada em discussões fechadas, sob o fumo e o álcool inspirador dos "gentlemen"s clubs".

Com o tempo, as coisas evoluíram. O processo mudou por mais de uma vez, até chegar ao modelo atual, que submete aos militantes conservadores uma "short list" para escolha final do nome que passará a dirigir o partido e, estando este em maioria no Parlamento, que será o primeiro-ministro.

Foi assim que Boris Johnson acabou por ser escolhido. Num exercício especulativo, podemos perguntar-nos se, na aplicação do modelo antigo, o seu nome teria resultado da tradicional seleção elitista. Tudo parece indicar que não. Ironicamente, poderíamos ser levados a concluir que é precisamente pelo facto de haver hoje mais democracia no seio dos conservadores que ocorrem resultados como este. Mas, vá lá! Não tirem conclusões erradas...

3 comentários:

Luís Lavoura disse...

O problema não é somente haver mais democracia no seio dos partidos, o problema é também que esses partidos deixaram de ser organizações de massas, com muitos militantes e representativos da sociedade, para passarem a ser pequenas organizações nas quais somente poucas pessoas são militantes, pessoas essas que são tipicamente mais radicais que os votantes como um todo.

Por exemplo, no Reino Unido, a Sociedade Real para a Proteção das Aves tem só por si mais membros que todos os partidos juntos.

Augie Cardoso, Plymouth, Conn. disse...

RU, o exemplo essential da democracia, OS membros dos commons Sao eleitos a titulo individual no seu distrito, onde vivem. Sem interferencia de de manhosos SG s ou PMs. Ainda bem que OS USA segue esse modelo ha 200 anos. A Australia e Suissa e bem parecido.

Augie Cardoso, Plymouth, Conn. disse...

No modelo jacobino, dos atrasados mentais franceses, OS socialistas da Europa criam uma nova republica cada 20 anos mais ou menos..
Abraco.