quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Confiança


Temos visto diversas leituras sobre a crise de legitimidade das instituições, com impacto na emergência dos populismos e no abalo dos modelos tradicionais de representação política. Só o tempo nos ajudará a perceber que conjugação astral se formou que trouxe ao mundo, quase simultaneamente, Trump e Bolsonaro, por um lado, Salvini e Orbán, por outro, que coloca Marine Le Pen na soleira do poder, que dá à extrema-direita alemã inédita representação política. Foi a crise financeira, foram os efeitos nefastos da globalização, é a quebra de valores, a relativização da verdade?

Alguns, crentes nos ciclos da História, dirão que não há nada de novo, que o fascismo, o “poujadisme” e outros fenómenos congéneres, assentes no desespero pontual e na personalização da esperança, tiveram, noutros tempos, consequências similares. Pode ser que assim seja, mas o determinismo fatalista, além de não explicar porque tudo surgiu quase ao mesmo tempo, ajuda-nos pouco a poder intervir de modo eficaz sobre a realidade. E esse é o verdadeiro objetivo da ação política democrática.

Num raciocínio simples, podemos afirmar que a estabilidade dos sistemas políticos existe quando os cidadãos sentem confiança em que as escolhas que fazem com o seu voto têm consequências concretas na melhoria da sua vida ou, pelo menos, na preservação daquilo que consideram ser-lhes essencial. Por isso, quando as alternativas de poder são muito próximas entre si, em termos de soluções, os cidadãos podem sentir-se tentados a alhearem-se da atividade cívica ou, em caso de desagrado profundo, a enveredarem por formas de expressão à margem do sistema, do terrorismo aos “coletes amarelos”, medidas as devidas diferenças.

A chave da atividade política parece ser a confiança. Elegemos alguém porque investimos a nossa esperança em que essa pessoa, ou esse partido, levará à prática aquilo que nos disse ir fazer se acaso lhe déssemos a oportunidade de chegar ao poder. O incumprimento das promessas, a confissão da impotência para mudar a realidade ou, no limite, o desdizer do proclamado, com mais ou menos cinismo à mistura, não afetam apenas a pessoa em quem havíamos confiado mas repercute-se no sistema político em geral. “São todos iguais” é o que se mais ouve, nos intervalos do exercício de alguma esperança, depois desiludida.

Num tempo de eleições, seria importante que esta simples verdade fosse refletida por quem pretende o nosso voto. As coisas, às vezes, são bem menos sofisticadas do que parecem.

2 comentários:

Portugalredecouvertes disse...

"O incumprimento das promessas, a confissão da impotência para mudar a realidade ou, no limite, o desdizer do proclamado, com mais ou menos cinismo à mistura, não afetam apenas a pessoa em quem havíamos confiado mas repercute-se no sistema político em geral."

parece muito lógico e importante
as pessoas não se esquecem da promessa de uma sociedade mais justa e fraterna

Gato Aurélio disse...

... penso que todas as Instituições ainda estão no período da revolução industrial...
Não existe uma verdadeira discussão sobre aquilo que as Instituições podem ser neste período pós industrial para continuar a representar as pessoas (cada vez menos importantes neste "jogo do monopólio" em que se transformou o mundo empresarial) e tornarem-se fonte de informação nesta panóplia de desinformação.