segunda-feira, 26 de agosto de 2019

Nos anos do Pedro


O Pedro fez 80 anos. Pedro Ribeiro de Menezes é um diplomata português jubilado, com uma bela e merecida carreira. Desde sempre, teve para com os colegas mais novos uma atitude de excecional simpatia. Sou feliz beneficiário dessa forma elegante e cordial como nos (me) tratou. E, também por isso, ficámos amigos.

Recordo-o como sendo alguém que esteve na vida profissional com uma postura aberta, dialogante, com um discurso por onde perpassava um certa distância crítica, talvez mesmo um olhar irónico sobre essa “estranha forma de vida” que é a carreira diplomática. Viríamos a ter em comum, em tempos diferentes, a chefia da embaixada em Brasília, para além de termos comungado momentos que ambos conseguimos transformar em bastante divertidos. Outros, um pouco menos.

Em 1979, o Pedro tinha a seu cargo, nas Necessidades, o serviço do pessoal. Um dia, ainda antes de partir para o meu primeiro posto, na Noruega, tomei posse, com outros colegas, da categoria de “segundo secretário de embaixada” - a segunda, a contar do fundo da escala hierárquica, na qual ainda haveria mais cinco a percorrer...

Quem nos conferia a posse era o secretário-geral, o embaixador Caldeira Coelho, tendo ao seu lado Pedro Ribeiro de Menezes.

Caldeira Coelho era, naquela casa, como que a personificação do regime anterior. O 25 de abril havia-lhe trazido alguns problemas, mas o seu “networking” social e político, alguma complacência por parte da ordem democrática e, sem dúvida, uma inteligente habilidade profissional havia-lhe reposto a carreira, que chegara a estar tremida. A democracia foi, para com ele, de uma imensa generosidade.

Ele nunca me tinha visto, mas sabia quem eu era. Semanas antes dessa posse, numa reunião em que o meu nome havia sido discutido, no âmbito das colocações no estrangeiro, soube que se apressou a propor-me para o posto mais complicado, e de vida mais difícil, entre todos em análise: a embaixada em Bagdad. Deixou mesmo cair algumas ironia a meu respeito, nesse debate. Não que eu me escusasse a postos difíceis: no ano anterior havia concorrido a Luanda (e para lá iria três anos depois, pois estas “disponibilidades” não se apagam na memória institucional).

Recentemente, vim a confirmar que o meu nome esteve “no radar” de Caldeira Coelho desde há muito, por razões de natureza política. Nessa colocação de 1979, seria graças à intervenção do meu então diretor-geral, Lencastre da Veiga, que acabei por ir para Oslo, um lugar mais “calmo” do que Bagdad. Às vezes, lembro-me de que Caldeira Coelho tinha algum “faro” geopolítico: a guerra entre o Iraque e o Irão iria começar menos de um ano depois...

Quando os futuros empossados entraram no gabinete do secretário-geral, Caldeira Coelho estava sentado à sua secretária. Mal nos olhou e nem se dignou levantar-se para nos cumprimentar. Pedro Ribeiro de Menezes, que nos recebera, estava de pé, ao seu lado, e ia chamando os funcionários, um a um, para o ato de posse. O termo era assinado por cada um de nós e pelo secretário-geral, que continuava a ignorar-nos. Mas não a todos. Quando chegou a minha vez e ouviu o meu nome, levantou a cabeça, tirou os óculos, olhou-me nos olhos e disse, em voz pausada, onde se pressentia um subliminar tom ameaçador: “Então você é que é o Seixas da Costa?!”

Não era bem uma questão a que eu tivesse de responder, era a constatação de estar perante o “tal” funcionário, que ele bem conhecia “de ouvido”, sem conhecer pessoalmente. Lembro-me do meu incómodo, quanto mais não fosse pelo singular e estranho destaque que me era dado perante os meus colegas. Nenhum deles teve a menor dúvida da razão por que isso acontecia... Ali estava eu, de cabelo mais comprido do que o padrão dos diplomatas “by the book” recomendava, com uma bigodaça bem à época, num tempo e numa circunstância que não augurava nada de bom para a minha carreira futura. Só que os alcatruzes da nora vão rodando...

Peço desculpa ao Pedro Ribeiro de Menezes por ter aproveitado o pretexto deste seu magnífico 80° aniversário - que imagino passado com a sua família, sendo hoje um dos seus filhos, um bom amigo, o nosso embaixador em Madrid, e o outro um credenciado historiador, autor da única (repito, da única) biografia de Salazar - para contar esta historieta pessoal, desses meus primeiros tempos no MNE, em que uma das memórias gratas foi ter tido o privilégio de o conhecer. 

Perguntará o leitor: então não envia os parabéns ao seu colega? Eu esclareço: já trocámos entre nós as devidas mensagens, mas reitero aqui o meu forte e amigo abraço ao Pedro.

4 comentários:

Anónimo disse...

E devia haver mais biografias do "velho das botas"? Quando o Passos Coelho foi apanhado com um livro no carro, imediatamente a esquerda aproveitou para dizer que ele era fascista! Houve notícias sobre o assunto. Ninguém quer tocar nisso, tem peçonha.

Anónimo disse...

Sr. Embaixador. O crucificado para Bagdad, terá sido o António Russo Dias? Sei que ele esteve lá, em tempos difíceis, não me lembro em que ano.

Francisco Seixas da Costa disse...

Ao Anónimo das 23:02. Creio que, nessa data, o ARD ainda não tinha entrado para a carreira diplomática

Anónimo disse...

E não seri simpático os comentadores darem os parabéns ao Embaixador Pedro Ribeiro de Meneses e à sua Família , em vez de estarem preocupados com a dta de entrada no MNE do ARD ? Pelo que percebi ao ler o post , a principal razão era os 80 anos do Embaixador Pedro Ribeiro de Meneses , como tal enviar parabéns a esse grande Senhor , que sempre serviu o seu país com muita dedicação . Parabéns também à Família .