O voto é o momento mais democrático da vida de uma sociedade. O voto de cada um é igual ao voto de qualquer outro.
Intimamente, há ainda muito quem ache que o seu voto, por ser mais informado ou educado, não deveria valer o mesmo que o de pessoas menos conhecedoras ou desinformadas. Esse elitismo, de quantos entendem o seu voto mais “qualificado”, reflete um vetusto sentimento anti-democrático, que, entre nós, esteve subjacente à ditadura, que reservava o direito de voto a uns “happy few”.
Ora é precisamente o saldo de diversidade de perspetivas e sentimentos o verdadeiro “barómetro” da sociedade e do país.
Posso perceber que alguém chegue à urna de voto e decida não escolher entre as opções que lhe são propostas, por não gostar de nenhuma delas ou por se considerar menos informado para escolher. Percebo o voto em branco.
Posso perceber quem, numa reação mais afirmativa, decide riscar a globalidade do boletim ou deixar nele expresso, tornando-o inválido, o que lhe vai na alma (seria, aliás, pedagógico estudar esses ditos), num qualquer gesto expressivo de revolta. Percebo o voto nulo.
Mas não consigo perceber o abstencionista. O abstencionista é um irresponsável e um inconsciente. Não percebo quem, não tomando deliberadamente posição (o voto em branco ou nulo representam, apesar de tudo, uma expressão de respeito mínimo perante o sistema, ao levarem o cidadão a ir ao local de voto), se acha depois no direito de vir protestar pelo andamento das coisas públicas.
Há cidadãos que não gostam daquilo que os que estão (pela vontade coletiva anterior) na gestão do Estado fazem ou não fazem? Então escolham outros em quem tenham confiança de que podem vir a fazer diferente. Ao não votarem, entregam o país àqueles que votam. Repito: depois não têm a menor legitimidade para se queixarem!
O abstencionista é um pária cívico, alguém que, no fundo, acaba por ser indigno da liberdade pela qual alguns lutaram, para que todos tivessem a mesma voz, por forma a, em conjunto, decidirem o futuro do país.
