quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Uma outra América



Será necessário regressar aos tempos de Nixon e do “Watergate” para se encontrar um tempo em que um presidente norte-americano surja, aos olhos públicos, tão acossado politicamente. O ambiente que, menos de três anos passados sobre a sua tomada de posse, rodeia Donald Trump é marcado por uma crispação quase sem precedentes, com impacto na malha parlamentar, onde quase se não vislumbra uma réstia de compromisso institucional entre as bancadas.

É justo dizer-se que, antecedendo a sua posse, estava já criada a ideia de que uma figura como Donald Trump se iria tornar numa personagem política controversa. O multimilionário palavroso e fanfarrão cedo deixou claro que não estava disposto a ficar aculturado pelo sistema e que, pelo contrário, era o próprio modelo de presidência que tinha de se adaptar a ele. E, nesse domínio, não desiludiu as expetativas.

Trump é um presidente que fez a deliberada opção de governar sob permanente tensão. Cortando, com os seus constantes “tweets”, a dependência dos meios de comunicação tradicional, colando estes a uma leitura da realidade que apelidou de “notícias falsas”, Trump cria, a toda a hora, a sua própria verdade e espalha, com a maior impunidade, falsidades que, na boca de qualquer outro político, seriam o caminho para o imediato descrédito. Trump tem com ele um eleitorado potencial que está pouco preocupado com a descolagem da verdade que o presidente projeta e, muito mais, que vive confortado com a certeza de que ele continuará a ser a barreira segura contra os receios que povoam o seu quotidiano.

Quando, há dias, o presidente decidiu abandonar à sua (má) sorte os curdos, que tinham ajudado os EUA a travar os demónios do extremismo islâmico, que havia sido uma óbvia resultante longínqua da aventura iraquiana de Bush filho, Trump nem por um segundo pensou no cinismo do gesto. Refletiu, isso sim, que isso responde a uma opinião pública interna que vive um tempo de tropismo isolacionista. Trump sabe que, ao fazer regressar ”our boys”, satisfaz um eleitorado que o elegeu também para isso. E que, também por isso, talvez o volte a escolher.

Mas a América não foi sempre assim?, perguntarão alguns realistas. Talvez, mas, antes, tinha algum cuidado em disfarçar. Trump é a cara descarada da vergonha perdida de uma América egoísta e autocentrada que, pelo menos com ele, está rapidamente a desperdiçar a autoridade moral que lhe assegurava a liderança de um mundo que, também graças a ela no passado, podia chamar-se a si próprio de livre.

10 comentários:

Anónimo disse...

O homem era ridicularizado por continuar a não conseguir guardar a sua fronteira com o México.
Depois foi acusado por abandonar a fronteira Turquia/Síria poupando milhões aos contribuintes americanos.
Países moralistas anti-Trump não estão disponíveis para gastar milhões e milhões na fronteira Turquia/Síria.

Já tenha percebida a coisa há muito tempo: o homem tem os seus defeitos, mas os seus críticos são uma coisa para esquecer, são um case-study para o futuro sobre pessoal que não presta.

Anónimo disse...

Por outro lado, diziam que o homem ia provocar a terceira guerra mundial. Ao que se vê, não só ainda não criou nenhum conflito como anda a tirar as tropas americanas de onde elas tinham sido colocadas pelo Obama...

Joaquim de Freitas disse...

Texto excelente. Os mecanismos com que a classe dirigente norte-americana tem procurado enfrentar o seu declínio não apenas não o inverteram, como contribuíram para acentuar esse declínio. Trump expressa essa crise. “Tornar de novo grande a América” é uma ilusão que não reflete a realidade mundial em mudança. Mas o perigo de que tudo termine numa aventura catastrófica é enorme.

A estratégia de Trump, patente nesta retórica e nos seus ataques a aliados, não é inteiramente nova. Já o governo de Bush (filho) tentou impor a vontade exclusiva dos EUA. Os conflitos com a França de Chirac e Villepin, e a Alemanha de Schröder, aquando da invasão do Iraque em 2003, eram uma (então ainda rara) expressão pública de rivalidades e contradições entre os dois maiores polos do capitalismo mundial.

Tanto mais quanto as fragilidades do Estado norte-americano e o descontentamento que grassa no seio do povo norte-americano assumem proporções explosivas. A sua agressividade, mesmo em relação a tradicionais aliados, é expressão da gravidade da situação.

Joaquim de Freitas disse...

Anonimo 16 de outubro de 2019 às 07:49 escreve : “Países moralistas anti-Trump não estão disponíveis para gastar milhões e milhões na fronteira Turquia/Síria.”

Em 11 de Outubro, alguns dias depois de entregar os seus aliados Curdos à Turquia (e, portanto, toda a Síria para Bashar al-Assad e os russos), Trump anunciou que estava enviando 1.800 tropas para a Arábia Saudita.

Mas na sua mente, a diferença era imensa: "a Arábia Saudita, a meu pedido, concordou em pagar-nos por tudo o que fazemos por ela", disse ele aos jornalistas. É uma primeira! Somos sensíveis a isso. "

Basicamente, isto quer dizer que o envio de soldados norte-americanos para o exterior não conta como um compromisso com quem quer que seja, enquanto essa ajuda custar aos contribuintes americanos um centavo. É como se Trump estivesse dizendo ao mundo que o exército americano é agora uma força mercenária…

É uma mensagem para todos os países onde se encontram soldados americanos estacionados, pelo menos se custam, mesmo parcialmente, dinheiro aos contribuintes americanos., naqueles países onde, por exemplo, os presidentes anteriores sentiram que era do interesse dos Estados Unidos deixá-los lá! Estes países fariam bem de começar a repensar as suas opções para garantir a sua segurança futura…

Anónimo disse...

Senhor embaixador: insiste em dizer (escrever) América quando se está a referir a um único país desse continente, os Estados Unidos da América do Norte.
É já um tropismo ou nos manuais do MNE português há indicações para que assim se diga? Ou é apenas preguiça sua?
Já lhe havia notado isso; volto a fazê-lo.
Fico à espera de uma nota sua sobre o assunto.
MB

Anónimo disse...

Se os americanos mandam tropas para a Síria, são uns patifes intervencionistas com a mania de que são polícias do mundo.
Se os americanos tiram tropas da Síria, são uns patifes que deixam os sírios entregues a não sei quem.

Se os russos vão para a Síria, são uns tipos bons porque vão lá evitar que os americanos façam patifarias.
Se os americanos saem, ai credo que os russos avançam.

Deve der muito difícil ser americano. Fácil, fácil, é ser comuna fanático. ("comuna fanático" é uma redundância, claro).

Anónimo disse...

O "16 de outubro de 2019 às 23:55" tem razão! E eu fico à espera de que ele se manifeste contra a utilização do termo "Espanha", que mais não é do que uma corruptela do latim "Hispania". O nome do país - claramente abusivo -, foi alvo, inclusivamente de contestação por parte de D. João II.

Fico à espera de uma nota sua sobre o assunto.

Anónimo disse...

Raio de anonimo das 22’42 que nao vê que a Síria não é Porto Rico, onde se entra e sai como num saloon, se dispara dois ou três tiros, manda deitar no chão toda a gente, dà cabo do bar, põe as mesas de pernas pró ar e mata o sherif…e dà à mala quando vêm ao longe os túnicas vermelhas…

Joaquim de Freitas disse...

Do anónimo de 17 de Outubro de 2019 às 22:42: Uma grande verdade, quando escreve “Deve ser muito difícil ser americano”.

Curiosamente, há dias, aqui no Facebook, um amigo americano escrevia-me a respeito da traição de Trump aos seus e nossos aliados Curdos (e aos soldados franceses e britânicos) e às mentiras sucessivas e acções erráticas na presidência deste indivíduo:

“Of Course you are very right. It is embarrassing to be an American under this President!”

Parece que a maioria dos americanos estão envergonhados do que se passa, e ainda mais esta manhã quando são informados que se bem que Trump tenha dito e repetido que não houve “quid pro quo” ou seja contrapartida na sua conversa telefónica com o presidente ucraniano que se encontra no coração do inquérito de “impeachment”, o seu chefe de gabinete Mick Mulvaney admitiu, numa conferência de imprensa, que o gelo da ajuda americana de 400 milhões de dólares à Ucrânia estava ligado ao seu pedido de inquérito sobre os democratas aquando da eleição de 2016.

O meu amigo americano disse-me que o que envergonha mais os “bons” americanos foi de ver os soldados americanos, sob ordem de Trump, abandonar os seus irmãos de armas, que durante seis anos combateram ao seu lado (os americanos bombardeando só!) o que explica os 11 000 mortos Curdos e os.8 Americanos ! Merci les Curdes !

Os fascistas fanáticos são como os islamistas com a sua Charia imutável: Seguem cegamente o Chefe e depois recuam na desordem .

Joaquim de Freitas disse...


Anonimo de 17 de outubro de 2019 às 22:52:




A Doutrina Monroe proferida pelo presidente James Monroe no dia 02 de Dezembro de 1823, no Congresso norte-americano, deixou claro que o continente não deveria aceitar nenhum tipo de intromissão europeia sobre quaisquer aspectos, isto é, “América para os americanos”.


Entretanto, os Estados Unidos foram os primeiros a reconhecer a independência dos países anteriormente colonizados pela Espanha, que combateram. Para os colonizar mais tarde em proveito próprio. Os porto-riquenhos ainda não puderam escapar à pata da águia americana…E Cuba, porque ousou escapar, foi cercada até hoje…

Quando Trump diz “Let’s Make America Great Again”, todos compreendemos o que isso significa…