sexta-feira, 18 de outubro de 2019

O “Choco” e a escada


“O menino quer que, amanhã, lhe guarde o Expresso? É que se esgota!”. A frase, dita pelo Fernando “Choco”, naquele quiosque improvisado junto ao mercado de Vila Real, traduzia, simultaneamente, a escassez de exemplares dos semanários que chegavam a Vila Real e o carinho, vindo da infância, com que, pelo “senhor Fernando”, sempre me habituei a ser tratado. Noto que o “menino”, à época, era já um quarentão tardio.

De onde terá nascido o nome de “Choco”, associado ao Fernando, que era Cardoso de apelido? Sempre me perguntei, sem resposta e, claro, sem nunca ousar tratá-lo como tal.

Comecei por conhecê-lo numa “venda” que tinha na antiga descida do Pioledo para a rua de Santo António. Mais tarde, abriria uma minúscula mas muito popular loja de jornais e tabacaria na rua Central, entre o Salgueiro relojoeiro e o Lousada da tipografia. Por esse tempo, muito sob a mão da sua mulher, manteve uma bela casa de petiscos, na Rua das Pedrinhas, em cuja cave, para onde se entrava por um alçapão, me recordo de ter estado em grandes tainadas. Finalmente, creio que acabou a vender jornais e revistas, na loja junto ao mercado, de que fui fiel cliente, quando passava pela cidade.

O Fernando “Choco” pode ter feito tudo isso e muito mais na vida, recordando-o a cidade na sua moto, com uma caixa atrás, com que ia buscar os “rolos dos jornais” ao comboio, para nos alimentar a sede das notícias de Lisboa.

Porém, se houve um amor definitivo na vida do Fernando esse foi o Sport Clube de Vila Real. Aí fez tudo: de guarda do campo a roupeiro, de massagista a (creio, mas posso estar enganado) adjunto de treinador. Há imensas fotografias de equipas do Sport Clube em que surge o Fernando “Choco”, em algumas delas, ao que recordo, de boina basca. 

Por que  me lembrei hoje do Fernando “Choco”? Porque, ao rever fotografias guardadas, descobri esta que tirei uma noite, há uns anos, à escada de pedra que une o Campo do Calvário, onde o Sport Clube jogou por décadas, e o Jardim da Carreira.

Tudo bem, mas o que é que o ”Choco” tem a ver com a escada? Tudo. Por muito tempo, eu vi aquele homem, durante os jogos de futebol, a ter de descer (e, depois, subir) aquela imensa escada, sempre que o Cesteiro, o Castanheira, o Bibelino ou qualquer outro alvinegro davam um pontapé esquinado que fazia a bola sair por alto, pelo lado do peão, a caminho do jardim.

Ao miúdo que eu então era impressionava imenso ver aquele homem nessa tarefa humilde, essencial mas nada gloriosa, de ir buscar a bola “lá baixo”, ao meio dos namorados entretidos a arrulhar pelas tardes domingueiras do Jardim da Carreira.

Agora que o Sport Clube faz 100 anos, que tal homenagear a memória de um dos seus mais dedicados servidores?

1 comentário:

Erk disse...

E homenagear também todos os que, num golpe de mão bem organizado, nos fizeram chegar à profundidade de perder com um clube da terceira divisão por mais que um golo, novo recorde do Sporting Clube de Portugal.

Cortesia de alguns notáveis.

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