Seguidores

Se quiser ser informado sobre os novos textos publicados no blogue, coloque o seu email

terça-feira, outubro 01, 2019

Caricaturas da História


Durante a Guerra Fria, da cinematografia e da literatura de espionagem que nos chegava, o inimigo era facilmente identificável: os comunistas. Antes, os “maus da fita” tinham sido os nazis alemães, depois passaram a ser os “vermelhos”. O maniqueísmo facilita imenso a vida.

Os “bons” eram sempre os ocidentais, com os seus serviços secretos eficazes e inteligentes, leais às suas pátrias, corajosos, dispostos a sacrificarem-se pela liberdade global dos povos. Eram, em geral, ingleses e americanos, representados na pantalha por “beautiful people”. Os poucos que, do lado de cá, se colocavam ao serviço do outro lado, por fanatismo ideológico ou por fraqueza material sempre devida a falha de caráter, eram tidos como desprezíveis traidores. Apenas alguma melhor literatura foi capaz de ir um pouco mais longe numa análise mais sofisticada de motivações.

Os “maus” eram uma caricatura sempre fácil de fazer. Quase sempre feios (o que facilita o reconhecimento imediato), ou bonitos mas nesse caso gélidos, eram tributários de uma hierarquia impiedosa, peças de uma máquina sinistra, gerida apenas numa lógica de finalidades, onde “valia tudo” para atingir os seus sinistros objetivos. Quando, num rebate de consciência ou por outra razão mais comezinha, algum desses “maus” se decidia passar para o lado “bom”, nunca o qualificativo de traidor se lhe aplicava: juntar-se ao lado “certo” da História isentava-os do labéu. A ordem dos valores tinha consequências semânticas.

O fim da Guerra Fria confundiu, por algum tempo, os desenhadores da História conveniente. O que sobrara da implosão da União Soviética, da Rússia aos restos do Cáucaso e da Ásia Central, passou a ser apresentado como um completo caos, em que preponderavam déspotas sucessores do comunismo, oligarcas e o sub-mundo do crime organizado, não se percebendo bem onde cada uma dessas coisas terminava. Eram películas cinzentas, sem sol, onde um mundo de miséria e ruínas urbanas dava razão póstuma à teimosia ocidental que abalara o Kremlin e, em Berlim, derrubara um muro. 

O 11 de setembro abriu uma nova frente de diabolização: permitiu dar aberta legitimidade à islamofobia, que rapidamente passou a ser um dos fatores centrais na equação das forças do “mal”. Veio depois o Estado Islâmico, bem como as metástases terroristas, e, com a guerra na Síria, juntou-se finalmente ao grupo o Irão, hoje destacado como uma das forças essenciais do “eixo do mal” que preocupa o ocidente, leia-se Washington. Pouco já deve faltar para a China surgir como o novo “satã”.

Dei comigo a pensar isto ao fim de alguns milhares de páginas de alguns “thrillers” da moda, que por aí se vendem como manteiga e que eu tenho consumido como diversão, nestes tempos em que só quero “sopas e descanso”. E também concluí, com facilidade, que há uma entidade que, com escassos “mas”, sempre com muita dose de admiração, surge nesses confrontos, nuns casos abertamente incensada como a fonte do “bem” estratégico, noutros realisticamente assumida como útil subcontratante para algum “dirty work” que o mundo ocidental (leia-se, de novo, Washington) decide não ser ele próprio a executar. Essa entidade, que os cuidados primários de credibilidade política aconselham sempre a que se trate com pinças, é Israel.

Esta é uma análise simples, reconheço até que simplista.

É a vida!

Pode ser que seja apenas "wishful thinking", mas fiquei ontem com a sensação de que André Ventura já se está a ver, daqui a semana...