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terça-feira, outubro 15, 2019

O combate de um governo


É muito interessante a composição deste novo governo. A meu ver, António Costa deu quatro sinais básicos. 

O primeiro, com a promoção de Pedro Siza Vieira a seu nº 2, foi mostrar um governo “business friendly”, trazendo a economia e o crescimento para o centro das suas preocupações. Siza Vieira tem uma boa imagem no mundo empresarial. Se a isto somarmos a recusa frontal em abrir a porta à discussão da legislação laboral, como o Bloco de Esquerda propunha, há aqui um evidente sinal dado à iniciativa privada.

O segundo é o da afirmação de força perante as corporações. Médicos e enfermeiros devem ter ficado tão “contentes” como os professores, ao saberem que voltam a ter à sua frente Marta Temido e Tiago Brandão Rodrigues, dois ministros algo desgastados, mas que Costa insistiu em “proteger”. A continuidade de Eduardo Cabrita vai no mesmo sentido. É, a meu ver, um forte sinal de que Costa “vai à luta”. 

Para proteger, mas desta vez o governo, Costa insistiu na manutenção de Francisca Van Dunen na Justiça. A contestação à ministra é escassa, ela própria é oriunda do Ministério Público e a sua margem de interlocução com o setor continua a ser muito importante, em tempos de contestação corporativa mas, igualmente, de processos “quentes” que encherão as capas do Correio da Manhã nos tempos que aí vêm.

O terceiro é a decisão de retirar ao Ministério das Finanças a Administração Pública, lugar onde, ciclicamente, esta temática vai parar. Mas, talvez mais importante do que isso, é a escolha de Alexandra Leitão, a cara vitoriosa da questão dos “contratos de associação”, para chefiar esse novo ministério. Ela é alguém que, com indiscutível competência, aí lutou pelo setor público e que agora terá a seu cargo as relações com os sindicatos desse setor. Mário Nogueira já deve estar a explicar a Ana Avoila com o que pode contar. Esperam-se tempos interessantes, mas nada fáceis, neste setor.

O quarto é uma clara nota de renovação, que seguramente a lista de secretários de Estado acentuará. Neste movimento, Costa perde três excelentes ministros: Vieira da Silva, Ana Paula Vitorino e Capoulas Santos, mas abre caminho ao futuro. É assim que são promovidas “rising stars”, como Mariana Vieira da Silva, que sobe a ministra de Estado, da já referida Alexandra Leitão, bem como da nova ministra do Trabalho Ana Mendes Godinho. A larga distância das outras formações partidárias, o Partido Socialista, pela mão de António Costa, está a abrir a porta a uma nova geração.

Uma nota final. É uma excelente notícia a permanência no governo, agora como ministros de Estado, de Mário Centeno e de Augusto Santos Silva, duas figuras que, cada um no seu setor, tiveram um “percurso limpo” e de imensa qualidade nesta difícil prova de obstáculos que foram estes últimos quatro anos. 

Santos Silva prescinde do lugar de nº 2, o que revela o grande sentido de Estado que sempre tem sido o seu, preparando-se para a importante tarefa da presidência portuguesa da União Europeia em 2021. Está por saber se, com a ascensão de Siza Vieira, o MNE virá a perder a tutela da AICEP.

Centeno, como já referido, aceitou ficar sem a Administração Pública, mas vai ficar na memória histórica da anterior legislatura como a principal “estrela” do processo de credibilização do país na ordem internacional.

Era expectável a continuação dos restantes ministros. Desconheço as novas caras, salvo André Caldas, que pode ser uma boa surpresa.

António Costa fez agora um governo de combate. E só se fazem governos desta natureza quando se pressente que a luta vem aí. Acho que Marcelo Rebelo de Sousa, ao não ter mostrado, de forma deliberada, o menor sorriso nas imagens televisivas a anteceder o encontro ao final da tarde de hoje com Costa, ao contrário da cara confiante deste último, revelou que já percebeu tudo.

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