sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Senteno


O título pode parecer estranho, mas com ele pretendo sublinhar que tudo o que, por ora, se diga sobre a ida de Mário Centeno para a presidência do Eurogrupo deve ser iniciado com um prudente e kiplinguiano "Se". Há que aguardar a confirmação final da escolha.  

Vale a pena lembrar a complacência com que o novo ministro português foi recebido, pela primeira vez, no Eurogrupo, nos idos de 2015, com Schäuble ainda a fazer o luto de Maria Luís Albuquerque, tendo ao lado, solícito, o sorriso cinicamente encaracolado de Dijsselbloem.  Todos nos recordamos, com certeza, do ar de aluno “marrão” de DombrovskIs, debitando bálticas reticências na Comissão sobre a capacidade das gentes do Sul para porem a sua casa em ordem. 

Que se terá passado para que, num prazo não muito longo, o infrator pudesse surgir com fortes hipóteses de passar a árbitro? Terá a Europa da ortodoxia arrepiado caminho, arrependida das receitas que impôs, sem dó e com nenhuma piedade, decidindo que, afinal, uma linha mais contemporizadora é que tinha a razão do seu lado? Estarão aí, ao virar da curva, a atenuação dos rigores do Tratado Orçamental, a reestruturação europeia da dívida, a sua mutualização pelos eurobonds?

Nada disso. A Europa do euro não se arrepende um milímetro daquilo que a "troika" nos impôs, nunca deixa um elogio a Mário Centeno desacompanhado da nota de que o seu sucesso se deve às condições que encontrou, graças ao "bom trabalho" dos seus antecessores. E não prescinde, claro está, de todos os objetivos macroeconómicos e respetivos calendários.

Mas, então, o que é que mudou naquelas cabeças, para poderem encarar vir a aceitar Centeno?

Desde logo, a Europa pode necessitar de ter alguém, oriundo de um Estado não-grande, que possa ser um "honest broker" no Eurogrupo, preservando o lugar há já muito prejudicada família socialista (que irá futuramente perder a vice-presidência do BCE, com a saída de Vitor Constâncio). Centeno, cuja competência está mais do que demonstrada (não necessitando para isso de ter dirigido o Gabinete de Estudos do Banco de Portugal...), é alguém que demonstrou, na prática, que é possível manter fidelidade às metas do rigor macroeconómico sem, necessariamente, persistir na aplicação cega das receitas anteriores, isto é, explorando seletivamente algumas margens orçamentais, fruto do crescimento induzido e de fatores favoráveis da conjuntura, através de moderadas reversões que acabam por tornar o "bolo" política e socialmente mais palatável. Centeno provou ser possível "humanizar" as políticas austeritárias e isso pode ser interessante para uma Europa em desespero de aceitabilidade e apaziguamento interno.

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