Entrámos no último dia do ano com o programa televisivo "Governo Sombra" a ter como convidado Arnaldo Matos. O atual "dono" do PCTP-MRPP foi recebido com um tom visivelmente complacente pelos "residentes" do programa, ansiosos por lhe extraírem declarações chocantes e expressões radicais, à altura daquilo a que o velho político sempre habituou o seu auditório. Conhecedor do palco que pisava, Matos não se fez rogado e, no meio de elogios táticos aos anfitriões, esteve à altura da "performance" aguardada, chamando "nazis" aos gestores alemães da Auto-Europa e mostrando compreensão pelos ataques do Estado Islâmico. Foi notório o gozo com que continua a ser recebida a qualificação de "social-fascista" que o MRPP sempre aplica ao PCP. É que o MRPP continua a ser o "enfant chéri" (para ser simpático) de certos meios, que sempre o cobrem com uma espécie de juízo de inimputabilidade, que nos dias de hoje o coloca ao nível de uma caricatura de comédia.
Pena foi, contudo, que ninguém tivesse perguntado a Arnaldo Matos com que direito tomou conta do partido, onde não exerce nenhum cargo eleito. É que isso permitiria a este auto-proclamado porta-voz da classe operária e frequentador do Gambrinus esclarecer com que legitimidade é hoje o depositário e usufrutuário da subvenção pública de centenas de milhares de euros atribuídos anualmente ao partido pelo Estado. Em democracia, os partidos têm de ser os primeiros a praticar, no seu seio, regras democráticas; se o não fazem, não devem ter o direito a dispor dos privilégios que constitucionalmente os beneficiam. Ora no seio do PCTP-MRPP, como é público, vive-se hoje uma ditadura interna protagonizada por Arnaldo Matos, que tomou conta da máquina política e financeira, sem ter sido eleito, como ele próprio revelou no programa.