sábado, 2 de dezembro de 2017

O meu amigo reacionário

Tive e tenho vários amigos reacionários. Nem todos saudosos de Salazar, da sua ordem ou do império, alguns aceitando, mais ou menos a contragosto, que o direito de voto seja igual para um sábio ou um ignorante, outros ainda clamando pela ilegalização dos comunistas e por um país musculado, com pena de morte e tudo. Gente adepta de muitas outras coisas desse jaez, com uma agenda feita de nostalgia de um outro Portugal, que eu detesto. Ainda há pessoas dessas e, por muito que isso possa parecer surpreendente, tenho amigos desses. 

O Álvaro não era exatamente assim. Álvaro Magalhães dos Santos era um homem urbano, integrado na ordem democrática. Mas era um refinadíssimo reacionário, um direitolas “até dizer chega”. Ontem, durante um jantar geracional, falámos bastante dele.

Em Vila Real, onde nasceu, foi professor e dirigiu a casa da Mocidade Portuguesa, o que diz já alguma coisa. Licenciado em Germânicas, saltaria, anos mais tarde, do ensino para a área da publicidade. Andou pelo jornalismo, onde exerceu escrita humorística. Alguns se lembrarão do “Vicente Gil”, que enchia uma página da Capital. Escreveu no Diabo (“where else?”) e no Correio da Manhã, onde se especializou em imaginativos “balões” com graças políticas nas fotografias. Para grande pena minha, que não obstante a diferença de idades tinha com ele uma grande proximidade pessoal, o Álvaro desapareceu há cerca de uma década. Ainda hoje me faz falta como amigo.

Era um contador de histórias notável. O seu reportório parecia inesgotável, com memória rara para anedotas, que dizia com imensa graça. Passei horas a ouvi-lo, a ele que sabia iludir, como ninguém, o mundo que nos separava nas ideias políticas.

Um dia relatou-nos um episódio curiosíssimo, ocorrido em Londres. Ele, que fora professor de inglês, tinha um gosto especial pelo mundo anglo-saxónico. Londres era a “sua” cidade e, quando por lá vivi, “asilou” algumas vezes na minha casa, como já o havia feito na Noruega. (Um parêntesis para dizer que o Álvaro era, muito provavelmente, o mais elaborado forreta que alguma vez conheci). Mas o episódio tinha sido bem antes desse tempo.

O Álvaro comprara um dia para um filho, no Hamleys, uns brinquedos, nas vésperas de um Natal. À chegada ao hotel, deu-se conta de ter deixado o saco no táxi, como às vezes nos sucede. Não tendo referências do transporte, com o avião a partir horas depois, deu por perdida a compra, o que, conhecido o seu apego ao dinheiro, o deve ter deixado furibundo. Mas era a vida!

Uns anos mais tarde, também num táxi londrino, meteu conversa com um motorista e contou o episódio, que devia ser traumático para quem era tão cioso da sua bolsa. O homem perguntou-lhe se tinha recorrido ao serviço de “lost & found” dos táxis. O Álvaro retorquiu que não, porque partira quase de seguida para Portugal. O taxista disse da existência, algures em East London, de um grande armazém onde eram recolhidos objetos deixados no “black cabs”. Quem sabe se o saco perdido do seu cliente não estaria por lá...

O Álvaro foi a matutar naquilo para o hotel. A compra não havia sido muito cara, mas a possibilidade de a recuperar ficou a borbulhar na sua cabeça. Ir de taxi ao tal armazém era impensável: ficaria talvez mais caro do que o preço do brinquedo. Decidiu, finalmente, ir de metro, não obstante nevar sobre Londres por esses dias. A jornada ia fazer-lhe perder uma tarde na National Gallery (onde a entrada era gratuita...), mas paciência!

Da saída do metro até ao tal armazém ainda foi um bom bocado, sob a neve que caía e o encharcado desagradável pelos passeios. Mas ele estava determinado. O armazém tinha um ar exteriormente algo decrépito. Tocou uma campaínha, atendeu-o um rapaz com um ar de “punk” que lhe indicou um balcão, por detrás do qual havia uma quantidade impressionante de estantes, com caixas. Imaginou o mundo que por ali estaria. Esperou um bom bocado, até que lhe apareceu um tipo corcunda, de óculos muito graduados, com sotaque irlandês.

O Álvaro tinha-se munido da data em que, cerca de três anos antes, viajara no táxi no qual se esquecera da prenda para o filho. Com calma, mas com método, viu o homem procurar um de entre vários livros de registo, de formato longo, estendendo-o sobre o balcão. Notou que estava todo manuscrito, com várias indicações, do registo das viaturas à natureza dos objetos perdidos. À indicação de que tinha sido num táxi entre Regent Street e Bayswater, onde o Álvaro estivera num hotel baratucho, como era seu timbre, o funcionário do armazém perguntou: “A que horas foi?”. O Álvaro disse que tinha sido pouco depois das sete da tarde e viu o homem fazer um esperançoso sinal afirmativo com a cabeça, enquanto percorria com o dedo as linhas do livro. “Disse-me que era um saco do Hamleys? Tinha um tom avermelhado?” Não era possível! Tinha, de facto, um tom avermelhado! O homem, sempre sem expressão, voltou-lhe as costas e encaminhou-se para um dos longos corredores com prateleiras. O Álvaro ainda teve a tentação de olhar o registo que, aparentemente, mobilizara o homem, mas este havia tido o cuidado de colocar o livro longe da sua vista.

Passou aquilo que pareceram ser uns longos minutos. No silêncio geral em que o armazém estava mergulhado, ouvia-se apenas o arrastar do que parecia ser uma escada de acesso às prateleiras, uns ruídos de afastamento de objetos. Finalmente, o homem surgiu, ao fundo. Trazia na mão uma caixa grande de cartão que pousou sobre o balcão. O Álvaro estava radiante! O homem conferiu de novo o livro de registo e, voltando-se para o meu amigo, disse, sempre sem expressão: “Não está cá nada!”. O Álvaro caiu das núvens. “Mas, então, e essa caixa?”. O homem, pela primeira vez, pareceu surpreendido. “Esta caixa? Ah! Não tem nada a ver consigo. Estava mal colocada e trouxe-a para corrigir o registo”. Tanto esforço para nada! Intrigado, o Álvaro teve uma derradeira reação: “Mas porque é que me tinha dito que o saco era em tons de vermelho? Pensei que isso significasse que tinha aí registado isso!”. Pela primeira vez o rosto seco do homem abriu-se um pouco, num esgar entre o sorriso e o que pareceu ser um tom de gozo: “Os sacos do Hamleys são sempre em tons de vermelho”.

O Álvaro levava um bom quarto-de-hora a contar este episódio, recheando-o de pormenores, de notas que nos faziam vivê-lo como se estivéssemos a participar da cena. Tenho pena de nunca mais o poder ouvir de novo. O que ele teria dado para estar ontem na “ceia” do “primeiro de dezembro”, nesta cidade sobre cuja rua onde nasceu ele escreveu um livro insubstituível, como ele próprio era!

6 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Senhor Embaixador : Gostei muito, deste texto pleno de humanidade e aceitação do mundo como ele é.

Desculpe dizer-lhe que sei o que é ter amigos reaccionários! Direi mesmo que a grande maioria dos meus amigos são reaccionários. Muitos não compreendem que eu, tendo sido empresário, seja de esquerda. E mesmo mais, na minha própria família, a maioria dos meus irmãos (éramos cinco) eram todos reaccionários. O único “companheiro de luta” que tive foi o meu saudoso Pai. Foi ele que me educou para a vida. Nascido com a Republica, em 1910, nunca perdoou à Monarquia de ter deixado o seu Pai, o meu Avô, analfabeto. E depois, nunca perdoou à Republica de não o ter enviado para a escola…

A minha família portuguesa, trabalhadores humildes, têm uma preocupação: não perder aquilo que o 25 de Abril lhes trouxe, pouco ou muito, mas sobretudo a liberdade. O voto deles tende a assegurar as “vantagens” adquiridas com a Revolução. Não gostam que lhes diga que há alternativa … Porque é perigoso!

E no fundo creio que assim pensam muitos Portugueses. Se a “Geringonça” trouxer melhor, “tant mieux”, mas sobretudo não fazer vagas, mesmo se lhes digo que, sem progresso constante se anda para trás…

Reaça disse...

Ninguém nasce reaça, nem nasce batizado.
Batizados fomos, mas sem darmos por isso e, mesmo ateus continuam a sacramentarem-se no casamento, e na extrema unção.
Reaças, há os que nasceram no ambiente próprio e têm saudades e achavam certo por isso continuam, e há os que em certa data, apanharam outro comboio por oportunismo, como oportunismo foi serem da União Nacional.
Agora há aqueles Reaças que abriram os olhos no 25 de Abril, e compreenderam porque durante 40 anos só se perderam "as que caíram no chão".
O Homem que nos descolonizou, onde teria aprendido tanto? Será que nasceu ensinado?

driftin' disse...

Poucos dias após ter concluído os meus 15 anos, fui admitido como trabalhador da Ciesa - Publicidade Portuguesa, SARL. Suspeito de que, na ocasião, o sr. Embaixador ainda não teria pensado na possibilidade de o fazer. Era na rua Alexandre Braga - a mudança para a rua Gonçalves Zarco não demoraria muito.

Um dia, um pouco mais tarde, lembro-me de ter assistido à chegada do sr. Álvaro Magalhães dos Santos e, algum tempo depois, da sua ida para a rua do Campo Alegre, no Porto, onde foi chefiar a delegação da Ciesa, já então Norman, Craig & Kummel.

Não tenho - não seria normal que o retrato que dele guardei, sugerisse essa faceta de reaccionário, talvez vagamente "civilizado". Não tinha, até agora, conhecimento de que já não habita esta vida!...

Este é um tempo um pouco "esquisito". Vou-me dando conta de que aqueles que me viram crescer, não são mais do que imagens que, em todo o caso, permanecem comigo. O sr. Álvaro Magalhães dos Santos passou fugazmente por aquele projecto de pessoa que eu era. Pareceu-me uma pessoa, de facto, urbana. Sei que é assim a vida, mas não posso - não sou capaz - de olhar a morte sem uma certa resignada desolação.

A si, sr. Embaixador, deixo-lhe um agradecimento por este regresso a um tempo em que tive tempo para correr atrás de um sonho.

A Nossa Travessa disse...

Caro Chicamigo

a) Resposta a dois temos e correspondentes momentos e eventos
b) qualificação do sujeito da estória

a) Conheci muitíssimo bem o Álvaro que me foi apresentado pelo transmontano general Tomé Pinto nos idos dos mil novecentos e qualquer coisa. O retrato que fazes do Álvaro está perfeito; tão perfeito que deves ter utilizado uma canon ultra reflex

b) Uma estória simples. Vai para dois anos mais coisa menos coisa apanhei um táxi no Rossio. Desde a partida até à rua José da Costa Pedreira, vertical à alamedas das Linhas das Torres, o sujeito chagou-me o cérebro e arredores repetindo continuadamente Nos tempos do Salazar vivíamos felizes, tínhamos trabalho e sobretudo ordem!!! Respondi com o calino "está um tempo tão bom e já estamos em Novembro, etc. e tal"

Não fiquei amigo daquele reaccionário, muito pelo contrário. Não consegui responder-lhe até ao final da corrida. Porra! Como sabes há quem diga que um homem nasceu para sofrer...

Abç do Henrique, o Leãozão

O meu irmão continua a piorar!!!

Anónimo disse...

Vale a pena ler o absurdo da acusação dos magistrados a Sócrates e o pretendido uso da máquina diplomática do Público de hoje. Mostra o total desconhecimento dos juízes do funcionamento da diplomacia e tal como se permitem questionar opções estratégicas governamentais - que são competência da AR - também aqui os magistrados se espalham e ousam afirmar o que não sabem. Somos e seremos um país de gente virtuosa...

josé ricardo disse...

Li durante anos as croniquetas de Álvaro Magalhães dos Santos na Voz de Trás os Montes. Exalavam salazarismo e anticomunismo por todos os lados. Lembro-me de que, um dia, enviei uma carta para o jornal, tentando rebater um qualquer ponto de vista do autor. Naturalmente, não fui publicado pelo padre António Maria Cardoso. Do mesmo modo natural, tive uma resposta engraçada de Álvaro Magalhães dos Santos. Dizia qualquer coisa como isto: anda para aí um nas tavernas das redondezas (eu vivia na altura em Vila Pouca de Aguiar)... Esta atitude reflete bem o caráter do cronista e também do jornal, que, além de não me ter publicado, permitiu um extraviado direito de resposta. Posteriormente, depois de ter conhecido pessoalmente o padre António Maria Cardoso, escrevi com alguma regularidade na Voz de Trás os Montes...