segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Círculo

                                  

Almocei hoje no Círculo Eça de Queiroz. É um clube privado de que sou sócio, criado nos anos 40 do século passado, num local discreto, sem o menor sinal no exterior. O Círculo é seguramente menos conservador do que são o Tauromáquico, o Turf ou o Pé Leve. Mas é um pouco menos “aberto” do que o Grémio Literário. 

Este pequeno universo de clubes privados, a que só se acede convidado por sócios e se é membro por “patrocínio” de associados com muitos anos “de casa”, podendo a admissão demorar meses ou mesmo anos, situa-se num espaço geográfico limitado, em torno do Chiado. 

Todas as capitais e grandes cidades do mundo têm clubes desta natureza, sendo Londres aquela em que se encontram exemplos mais históricos. Mas o Porto também tem, no Portuense, um dos mais exclusivos clubes do país. 

Por ali se almoça, por ali se conversa ou toma uma bebida ou um chá, por ali se leem jornais ou revistas. Ali se fazem almoços de trabalho. 

O Círculo organiza conferências e palestras, às vezes bem interessantes. A memória do patrono, Eça de Queiroz, está um pouco por toda a parte, desde logo no desenho das portas, com o 202 em metal no puxador, a lembrar o mítico número da porta do Jacinto, a personagem principal de “A Cidade e as Serras”, na sua casa nos Campos Elísios, em Paris. Ah! O Círculo admite senhoras, prática que, diga-se, não é generalizada...

Vou tentar dizer isto de uma forma elegante: o ambiente maioritário no seio dos membros é fortemente conservador, havendo sócios que ainda integraram governos de Salazar e alguns outros que, se calhar, continuam a sentir a falta dele... Nas novas gerações, predominam claramente pessoas que têm opções políticas de direita. Há já uns tempos, o presidente Marcelo Rebelo de Sousa fez uma intervenção num jantar coletivo no Círculo. A certo momento, passou por uma mesa onde eu estava e disse: “Ah! Era você! A mim bem me parecia que, desde lado da sala, soprava um vento de esquerda...”

Para agravar ainda mais a impressão de “horror” que alguns leitores estarão já a ter de um local que não conhecem, vou contar a experiência que foi a primeira ida da minha mulher ao Círculo, já lá vão muitos anos. 

Estávamos sentados a fazer horas para o almoço. Num canto de sofás da sala principal, um grupo de cavalheiros ia-se formando, seguramente tendo combinado para aquele dia uma refeição conjunta. Eram todos bastante idosos e eu conhecia de vista algumas daquelas caras. A certo passo, entrou na sala, dirigindo-se ao grupo, mais um conviva, da mesma faixa etária. De um dos sofás, ouviu-se então: “Olha lá! Ainda bem que chegaste! Estávamos aqui numa dúvida: em que ano é que entraste para a Legião?”. Estavam a falar da Legião Portuguesa, a mais fascista das instituições da ditadura salazarista. A minha mulher ouviu, olhou para mim e perguntou-me: “Não seria melhor irmos almoçar a outro sítio?”. Convenci-a a ficar.

Como disse, almocei hoje no Círculo. Duas horas bem passadas num local simpático, sereno, já bastante aberto a um mundo bem distante daquele em que foi criado. Ah! Mas a gravata é, claro, exigida aos homens que o frequentem. Mas, se alguém se esquecer, na portaria há muitas para empréstimo...

(Já estou a imaginar a interrogação de alguns leitores: mas que graça acha este tipo a pertencer a coisas destas?)

22 comentários:

alvaro silva disse...

Coitados dos srs. Estavam se calhar a referir-se á Legião de Maria. É que depois de terem entregue o corpo ao diabo estava na hora de se dedicarem a obras pias para salvação da alma.

Anónimo disse...

Nada de fundamentalmente novo pode vir de um tal circulo que fecha ao exterior.

Para si no entanto, imagino que parte do interessa seja o gosto de ouvir "o novo" que sao as ideias contrarias.

Mas nao percebo o porque de fechar uma instituição que discute historia, cultura etc, ao publico. Que se ganha com isso?
A felicidade de escutar o proprio eco?

"com o objectivo de fomentar o bom convívio entre os seus sócios e convidados e também o gosto pelas letras e as artes, por meio de conferências, exposições e concertos"...






Anónimo disse...

Existe um "Círculo" mais exclusivo !......

O do governo socialista actual, mais "restrito e coeso" o das respectivas famílias rosa com pergaminhos "históricos" ! ......

Joaquim de Freitas disse...

Sempre pensei que pertencer a um Clube permitia de constituir um “réseau” pessoal e profissional muito útil no mundo interconectado actual.

Mas também, estes “ambientes” confortáveis permitem de escapar, se necessário, ao quadro familiar e muitos clubes permitem mesmo de passar a noite em confortáveis “suites”…

Anónimo disse...

Eu não tenho essa interrogação. Percebo muito bem o fascínio que esses clubes privados exercem.

Reaça disse...

Foi mais uma das muitas ideias de bom gosto do "fascista", humanista e intelectual António Ferro.

Anónimo disse...

Há uns anos, comprei na Feira da Ladra um anuário do Turf, um livrinho com a história do club, acontecências várias, fotografias, dos sócios antigos e presentes, com moradas e tudo, olarilas. Coisa fina. Foi num ano em que uma deputação de cavalheiros do club fez uma visita ao rei de Espanha, seu sócio honorário, qualquer coisa assim. Um livrinho de circulação limitada, claro está, mas que terá sido "despejado" com mais papelada, de alguma moradia da Lapa, por algum dos herdeiros, para ser vendido a peso.

Anónimo disse...

Duvido que algum dia o José Maria de Eça de Queiroz aceitasse pertencer a um clube onde almoçam antigos legionários.
E tb duvido que essa gente algum dia tenho lido o Eça.
Lido a sério. Lido por gosto.
Pelo menos, o Eça das Crónicas e o do Padre Amaro, dos Maias e do Conde de Abranhos.
E se algum dia o leram, devem ter-se quedado pela A Cidade e as Serras.
Isso, essa gente, é mais apreciadora do Camilo.
Da graçola pesada do Camilo.
Do catarro camiliano.

Anónimo disse...

A minha pergunta é: se aos homens é exigida gravata, às mulheres é exigido o quê? Nada?! E isso não é discriminação? Vale a pena apontar que certos clubes não admitem mulheres mas, o facto de os homens serem discriminados nos seus próprios lugares, nada provoca nas boas consciências?

Anónimo disse...


mrs: "(...) soprava um vento de esquerda..." deveria acrescentar: aristocrática !


João Pedro

Anónimo disse...

Aqui falam de si!....

http://www.sabado.pt/portugal/detalhe/quem-sao-os-poderosos-dos-clubes-privados

Anónimo disse...

Quadratura do círculo:
- O jornalista Delahousse, antigo modelo,entrevista Macron na televisão em tom " melífluo". Há quem vaticine poderá ser a seguir seu porta-voz;
- Na Áustria "no pasa nada" - senão no Tirol Sul, Alto Adige, onde poderá agora haver distribuição de passaportes austríacos;
- Na Catalunha, "Groucho-Marx", ou também "Zorro" em terceiro para ceder o lugar ao belo sexo que se arrima for arras de foro de Espanha;
- Na Alemanha o SPD, nas Finanças, "um amigo";
- Em Portugal Rio diz que Santana repete "trapalhadas" - que Sampaio dizia que já estava "farto"...

Anónimo disse...

É óbvio que estas agremiações são imitações baratas de prazeres aristocráticos. Exceção feita a Vila Real.
É óbvio que Salazar não fomentou e execrava este tipo de sociedade.

Anónimo disse...

Um clube de aristrocracia que não deve aceitar trabalhadores da estiva. Já assim era e assim continuará a ser com este género de clubes.

Anónimo disse...

Eu sou como o Groucho Marx: Nunca farei parte de um clube que me aceite como sócio.

JPGarcia

Reaça disse...

Não pensava em estivadores António Ferro, ao criar algo que lembrasse o escritor Eça.

Nem em estivadores nem em muitos que um dia viríamos a falar de tal clube, que pela primeira vez ouvimos falar de tal clube.

Há clubes onde se joga a malha e a sueca que devem bem ser mais animados e mais apropriados.

Anónimo disse...

Só um aparte que se calhar não conhecem:
O Turf, talvez o club mais dificil de se ser aceite como membro foi fundado com o intuito de "desenvolver a raça cavalar". Só durante os anos sessenta do século passado teve mais importância social em virtude de uma grande parte dos sócios trabalharem para as bandas do Chiado e aproveitarem o serviço de restaurante para almoçarem sem terem de aturar barulhos e mesas mal servidas. Foi sempre um club conservador que apartir dos anos 80 tentou democratizar-se mas.... hoje já não sei nada.

Anónimo disse...

A meu ver o Turf sempre foi um clube democráticos: para entrar é preciso vencer eleições e o mesmo para fazer parte da direcção ou de qualquer dos órgãos que influenciam a vida do clube. No Turf os sócios mandam. Porque haveria de ser diferente?
João Vieira

Anónimo disse...

Ó João Vieira, por que é... ninguém aqui negou aos cavalheiros esse direito. Não lhe chame é democrático, que isso não vem ao caso. A minha casa também não é exactamente democrática, porque só lá entra quem os proprietários deixam e isso nunca esteve em discussão. Democrática é a associação recreativa do meu bairro, onde qualquer um pode entrar, desde que pague a inscrição e no momento da inscrição não esteja a cair de bêbado.
Os rituaizinhos, a bola branca, a bola preta, o cuidado com os nomes e o pedigree, as maniazinhas, são deliciosas, chique a valer, como diria o bom do Dâmaso Salcede. A mim, dá-me vontade de rir, que hei-de eu fazer? é uma fraqueza minha.

Anónimo disse...

Todos os clubes tem as suas exigências: a principal do Sporting é a de se ser obrigatoriamente sportinguista e não gostar dos benfiquistas; pelos vistos a da associação recreativa do seu bairro é a de não ser um bêbado e nada disso impede que a sua associação possa ser classificada de democrática. Quanto aos costumes que diz existirem talvez, primeiro, perguntar-se se eles existem realmente, e depois perguntar-se a si próprio, democraticamente, que me importa? Sou sócio do dito clube? Sou polícia dos costumes de gente que não conheço, e mesmo que conhecesse?
João Vieira

Anónimo disse...

João Vieira, o engraçado é que, não se importando nada com o dito clube, nem tendo nada a ver com isso, como diz, o venha defender com se alguém tivesse ofendido alguém. Ainda por cima, chamando-lhe "democrata", uma coisa que, enfim, julgo que será motivo de riso mesmo, ou sobretudo, nos seus salões. Não leve isso tão a sério. A sátira e o gozo com este tipo de instituições é, isto sim, um hábito democrático e já até se escreveram milhares de páginas de boa literatura com isso. Eu não tenho pretensões literárias, limito-me a rir com as manias e vaidadezinhas dos cavalheiros e com isso não vem mal ao mundo.

Anónimo disse...

Uma coisa, entretanto, intrigou-me: para uma pessoa inscrever-se como sócio do Sporting é preciso assinar primeiro uma declaração em que se atesta, sob compromisso de honra, que se é sportinguista?