quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

O Alto de Espinho




Há dois dias, na Gomes, alguém me disse que tinha vindo do Porto pelo Alto de Espinho. Invejei-o.

O Alto de Espinho é o cume da estrada do Marão que une Amarante a Vila Real. Quando, um dia, o Dr. Ladislau, um bracarense que foi meu excelente professor de Geografia no liceu, me falou pela primeira vez no Khyber Pass, esse lugar mágico da montanhosa fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão, consagrado na mitologia da História e na tragédia da política, foi do Alto de Espinho que eu logo me lembrei. O Alto de Espinho é Khyber Pass a que temos direito...

Se Trás-os-Montes fosse independente, os nossos guardas fronteiriços tinham casernas no Alto de Espinho. Antes da construção do IP 4, que facilitou a vida e ofereceu a morte a muitos automobilistas, o Alto de Espinho era “a sério”. Por ali passava uma estrada estreita, marcada por uma placa a-preto-e-branco que separava os distritos de Vila Real e do Porto. A partir dali, qualquer que fosse o destino, era "sempre" a descer, pelo que o Alto de Espinho oferecia, a todos nós, um a sensação de “alívio”.

Para quem, como os vila-realenses, vinha pela terrível e belíssima estrada saída de Amarante - passando por Padronelo (onde se ia pelo pão), Larim, Ansiães e Eido (cuja placa de trânsito teve um dia de ser reduzida para evitar acrescentos inconvenientes de uma letra...) -, a caminho da Pousada (das primeiras do país, hoje passada a patacos pelo grupo Pestana), depois de centenas de curvas, o Alto de Espinho deixava Vila Real “já ali”, a 18 km. 

“Já chegaram ao Alto de Espinho”, dizia-se dos ciclistas, nas etapas que acabavam em Vila Real, na informação colhida na rádio. É que, do Alto de Espinho à cidade, era “um saltinho”, ele era a soleira de Vila Real.

No Alto de Espinho eram recebidas as autoridades que vinham “lá de baixo”, de Lisboa, os presidentes, os ministros e gente assim. Quando o Sport Clube de Vila Real obtinha uma das suas raras “performances” futebolísticas, ia-se ao Alto de Espinho receber a “caravana”. E se a neve caía no Marão, lá iam as televisões filmar, sem imaginação, uns populares de gorro a atirarem bolas uns aos outros, entrevistando de caminho, nesse cenário, um garboso GNR de samarra oficial a recomendar prudência na condução, sempre com discurso de relatório-notícia.

Se a IP 4 já tinha tirado grande parte do “charme” ao Alto de Espinho, o túnel do Marão foi o golpe de misericórdia nessa fronteira natural de Trás-os-Montes, para cá da qual os que cá estão criaram a ilusão poética de mandar alguma coisa.

Amanhã, prometo!, vou passar pelo Alto de Espinho.

5 comentários:

Anónimo disse...

Fantástica descrição deste mágico ponto, obrigado senhor embaixador.
Um campeanense

Anónimo disse...

Um destes dias, certamente, o Alto de Espinho vai ter um engarrafamento!
Experimentem fazer o que que o Zé Luiz Sareca nos fazia quando nos levava lá no seu carocha em noites cerradas:
De repente acelerava e desligava as luzes por largo período!...
Os vossos passageiros vão ter emoções incríveis!...

Cícero Catilinária disse...

Passei lá, ida e volta, no verão, em 1972 e 1973 para ir a Vila Real ver "as corridas".

PSICANALISTA disse...

Ontem não houve posta?
Ou a barragem sequestrou a pescada ???

Rui disse...

Por que raio se chama alto de Espinho? E sim, era uma aventura atravessar o alto de Espinho. Se há coisa que me deixou marcas para o resto da vida, eu que enjoava, era a viagem quando regressava de Bruxelas de Chaves até Vila Real, que só sossegava quando via o Trovador da Borges e as infindáveis viagens ao Porto, a Paredes, a Valadares, atravessando o alto espinho, um terror.