sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Orient House


Mario Soares, que ontem faria 93 anos se a vida não tivesse desistido dele, olhou a papelada que o seu colaborador e meu colega Alfredo Duarte Costa, seu conselheiro diplomático, lhe tinha entregue, naquelas horas que antecediam o nosso desembarque em Israel, e perguntou-me: “Então vai visitar a Orient House?”. 

Era novembro de 1995. Estávamos a viajar no Falcon oficial, sobre o Mediterrâneo, a caminho daquela que seria a primeira (e até agora última) viagem de um chefe de Estado português a Israel e, depois, a Gaza. Eu acompanhava-o como recém-empossado membro do governo.

Expliquei a Mário Soares que visitar a Orient House, a representação da Autoridade Palestina em Jerusalém Oriental, era um gesto que o novo governo português queria dar, como forma de sublinhar, ainda mais, o não reconhecimento por parte de Portugal da reivindicação israelita sobre a totalidade da cidade. Soares estava de acordo com a minha visita, não obstante as autoridades de Israel ainda terem tentado convencer o nosso embaixador, Paulo Barbosa, do desagrado que a deslocação à Orient House lhes provocava. Ainda a montante da chegada a Tel-Aviv, eu tinha mandado informar que não dispensava aquele ponto da minha agenda. Ainda no aeroporto Ben Gurion, Paulo Barbosa perguntou-me se eu confirmava o encontro. Claro que sim, disse-lhe.

Nem o presidente Weizman nem o primeiro-ministro Rabin, contudo, suscitaram, nos encontros tidos com Soares, a questão da visita do membro do governo português à Orient House, que seria feita à margem do programa oficial. Na audiência que me concedeu, o MNE Shimon Peres fez uma breve alusão ao assunto, mais no sentido de eu procurar passar a mensagem aos palestinos das obrigações que lhe incumbiam, decorrentes dos acordos de Oslo. Israel, à época, não tendo abdicado de nenhum dos seus princípios, vivia razoavelmente com o estatuto que a Autoridade Palestina ia tendo em Jerusalém.

Portugal, ontem como hoje, não reconhece os direitos que Israel reivindica sobre todo o território de Jerusalém, pelo que o nosso presidente e o governo expressaram já o repúdio português com a decisão americana de transferir a sua embaixada para Jerusalém, ao arrepio de resoluções que os próprios EUA haviam subscrito. Os americanos aí se encontrarão com Vanuatu e com a Bolívia (que tem a embaixada num subúrbio) e, com toda a certeza, vão a partir de agora ser seguidos no gesto por alguns daqueles que, pelo mundo, têm como política externa seguir os ditâmes do poder americano.

As portas da Orient House, que visitei há mais de duas décadas, foram entretanto fechadas pela cegueira israelita, há já vários anos. Com este seu gesto, Trump colocou mais um prego no caixão da paz no Médio Oriente.

16 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

« As portas da Orient House, que visitei há mais de duas décadas, foram entretanto fechadas pela cegueira israelita, há já vários anos. Com este seu gesto, Trump colocou mais um prego no caixão da paz no Médio Oriente.”

Tem razão, Senhor Embaixador. Ao reconhecer Jerusalém como capital de Israel, ao instalar a sua embaixada, os USA oferecem ao projecto de Estado palestiniano um enterro de primeira classe.
Dão também o golpe de graça, como muito bem escreveu no seu post, ao processo de paz, apadrinhado por eles. Ao risco de descredibilizar os seus aliados árabes, Trump proclama que “le fait accompli” colonial na Palestina é irreversível.

Arruinando de avanço toda perspectiva de negociação, este gesto espectacular mostra bem a “allégeance” de Washington aos interesses do Estado-colon.. Para que serve negociar se o objectivo da negociação ( a possibilidade dum Estado palestiniano tendo Jerusalém -Est. por capital) é pulverizado por Washington.

Mas pior ainda, Senhor Embaixador, é o facto que ao validar a retórica israelita sobre “Jerusalém reunificada”, Trump, restaura igualmente a primazia do teológico sobre o político. As pretensões sionistas sobre a Cidade Santa reclamam-se do texto bíblico. Dando-lhe crédito Trump, reintroduz o sagrado no conflito de essência profana. Percute o direito internacional com o direito divino. Mas Trump é inculto, nem sabe o que isso significa! Uma concessão à mitologia sionista que oculta a luta de libertação nacional do povo palestiniano.

Numa época em que a manipulação do “religiosos” serve o imperialismo, não é nada inocente.

Este presidente não poderia ir dar um passeio até Dallas?

Anónimo disse...

É curioso que só Macron tenha citado a resolução do CSNU que condena a anexação de. Jerusalém Leste por Israel e convida todos os países que ainda o tinham a retirar as embaixadas de Jerusalem aprovada com a abstenção dos EUA graças ao gênio diplomático de Futscher Pereira que em Agosto de 1980 presidia ao CS
Fernando Neves

Anónimo disse...

Esqueci-me de acrescentar:o que prova a crescente irrelevancies do Direito Internacional e o declínio da Ordem Mundial americana
Fernando Neves

Anónimo disse...

Como bem diz, Trump pregou mais um prego no caixão, na minha modesta opinião, provavelmente com o propósito de garantir que os evangélicos do Alabama elegem mesmo o (praticamente provado) pedófilo Roy Moore para o Senado (não havia necessidade, porque as pias criaturas preferem sempre um degenerado a um democrata). Blessed Tax Reform, aleluiah! PCabral

Luís Lavoura disse...

Portugal não reconhece os direitos que Israel reivindica sobre todo o território de Jerusalém, pelo que o nosso presidente e o governo expressaram já o repúdio português com a decisão americana de transferir a sua embaixada para Jerusalém

Porém, o facto de não se reconhecer a soberania de Israel sobre a totalidade de Jerusalém não impede que se reconheça a soberania de Israel sobre uma parte da cidade. Pelo que, qual é o problema de instalar a embaixada nessa parte da cidade?

A Alemanha Oriental também tinha a sua capital numa parte de Berlim, não é verdade? E havia embaixadas nessa parte de Berlim, não havia?

Anónimo disse...

Até agora foi só o Hamas quem veio para a rua. Afinal o único que realmente sente algo com esta decisão dos EUA.
Até agora todos os restante envolvidos ficaram-se pelas palavras que a circunstância exige. Afinal já todos têm muita sarna com que se cossar.
Estarão, todos, a mgicar como irão agir (se) quando os Persas chegam ao Mediterrâneo e, óbviamente, à palestina?. Será que o Hamas acredita mesmo que será devidamente recompensado com um País, um Estado e Jerusalém ?. JS

Carlos Falcão disse...

Trump ?
Qualquer que seja o maestro, a música tocada pela orquestra sino-americaine, é uma marcha funerária que se verte há mais de meio século, nos ouvidos dos povos do Médio Oriente.
Através d'Israel, o imperialismo dominante norte-americano, tem um braço regional armado para a execução de sua política de dominação e transformação do Próximo e Médio Oriente, para seu beneficio.
Como sabem, sionismo e imperialismo são indissociáveis.
C.Falcao

Mal por Mal disse...

A fava no bolo-rei de Guterres!

Anónimo disse...

O Luis Lavoura precisa de ir para escola primaria para aprender a ler.

arber disse...

O anónimo das 16:39 sugeriu algo semelhante ao que eu próprio tenho pensado sobre esta loucura de Trump - o possível/provável envolvimento dos Persas.
Ao contrário do que alguns, muito piamente, vêm como uma iniciativa louvável com vista à solução da crise israelo-palestiniana, eu vejo uma maquiavélica jogada de Trump visando precisamente o envolvimento do Irão. E para quê? Ele quer destruir o Irão, já ouvimos a ameaça várias vezes, a via da Síria não resultou, o Irão resistiu à tentação.
Esta nova provocação aparece então como a mais diabólica tentativa para o conseguir, pois qualquer intervenção do Irão desencadeará a resposta de Israel e, obviamente, a intervenção dos seus amigos EUA, tão desejada por Trump. Aliás, antes de Trump dar este passo, Israel também já deu alguns sinais - fez bombardeamentos no Líbano, nos arredores de Beirute, para ... destruir instalações científicas do Irão. E na Líbia também não se tem poupado a provocações. O Irão continuará a resistir? As coisas conjugam-se!

Anónimo disse...

@ arber

So atrasados mentais nao conseguem entender que isto e apenas uma pequena batalha no grande jogo da arena geopolitica.

arber disse...

É óbvio mas...devo corrigir: onde se lê "Líbia" deve ler-se "Síria".

Joaquim de Freitas disse...

L’Assemblée générale des Nations Unies à New York a adopté jeudi (30 nov) six résolutions affirmant les droits des Palestiniens et condamnant les violations israéliennes du droit international, rapport le Middle East Monitor.
Selon une résolution («Jérusalem»), «l’Assemblée a réaffirmé que toute mesure prise par Israël, puissance occupante, en vue d’imposer ses lois, sa juridiction et son administration à la Ville sainte de Jérusalem était illégale et, de ce fait, nulle et non avenue et sans validité aucune. »
Cette résolution a été adoptée par 151 voix pour, 6 voix contre (Canada, États fédérés de Micronésie, Israël, Îles Marshall, Nauru, États-Unis), et 9 abstentions (Australie, Cameroun, Honduras, Panama, Papouasie-Nouvelle-Guinée, République centrafricaine, Paraguay, Soudan du Sud, Togo),
9 de dezembro de 2017 às 11:15

Anónimo disse...

Ontem na entrevista concedida pelo Sr. Emb. a um programa de TV, o entrevistador interrompeu, repetidamente, todas as tentativas do entrevistado de proprocioanar ao espectador uma sua, lúcida, prespectiva do que se passa no próximo/médio Oriente.

Interromper uma frase a deshoras é típico de quem não precebe nada do que se está realmente a passar. Demonstra ignorância e falta de chá. Numa TV, num intrevistador é revoltante para o espectador.

Pior só os disparates que duas pessoas inteligentes -Rodrigues dos Santos e Márcia Rodrigues- são obrigadas a ler em directo sobre o fenómeno político que é Trump. Más traduções do que se propagandeia na ABC, CNN, WStreetJ, WashPost....
Quem é o autor, o responsável, por tanta comprovada "fake news" em directo na informação pública portuguesa?. O Estado, o dono, "controlling oligarch" da RTP?. Anti-americanismo simplório de uma certa, prevalente, cultura de esquerda?. A quem interessa manter a opinião pública mal informada?.
Mesmo a propósito este tweet.JS

@JulianAssange
14 hHá 14 horas
Mais New rule: every time a "news" organization produces fake news name the controlling oligarchs (or CEOs.

NBC = Brian L. Roberts
CBS = Redstones
CNN = J Zucker+J Bewkes (CEOs)
New Yorker/Reddit/Wired = Newhouses
Daily Beast = Diller
FOX/WSJ = Murdochs
NYT = Sulzbergers
WaPo = Bezos

Anónimo disse...

@Anónimo 9 de dezembro de 2017 às 16:15

So quem e muito tolo e ingenuo e que pensa que a actual função dos meios de comunicação em massa é informar. Quem esta minimamente informado nota todos os dias que a funçao e desses meios e manipular "eles gostam mais de chamar de gestao de precepcoes" e criar um determinado efeito na opiniao publica de acordo com os interesses dos donos.
Em relação ao Anti-americanismo espero que compreenda que o sentimento e contra as politicas externas dos eua e nao contra o povo americano o qual por sinal tambem nao nutre simpatia pelo governo federal

Anónimo disse...

9 dezembro 16:15 :

desoras (sem h ) s.f.f.