sábado, 30 de dezembro de 2017

Erro técnico

Sei lá bem porquê (e se sei, não digo), lembrei-me há pouco de um célebre episódio ocorrido na imprensa portuguesa, nos anos 80 do século passado. 

Era um tempo tenso, em que o declinante poder militar remanescente, embora titulado já pela sua ala mais moderada, causava ainda engulhos a alguns partidos políticos do eixo do novo sistema político, em crescendo de afirmação. Por essa razão, as intrigalhadas sobre o Conselho da Revolução e os eventuais conflitos no seu seio eram constantes.

Por essa época, um semanário destacava-se no serviço prestado a essa ala do espetro político. Era pasto constante de recados desse setor, dava guardida aos seus colunistas furibundos e indignados e, claro, prestava-se a fretes políticos constantes. Ah! E vendia jornais, muitos.

Um dia, o tal semanário desse tempo trouxe uma detalhada descrição de uma reunião do Conselho da Revolução, com a discussão em torno de um tema qualquer então na berra. As posições assumidas e o teor das intervenções dos vários membros do órgão eram desenvolvidos no texto com algum detalhe, revelando que a reunião havia sido tensa e dura.

Tudo estaria bem se ... a tal reunião não tivesse sido adiada! O “jornalista” - a peça era da responsabilidade do diretor do periódico - havia inventado a história de A-a-Z, colocando na boca dos membros do Conselho da Revolução coisas que, claro!, eles nunca tinham dito.

Nesse tempo, sem redes sociais e sem televisão que repescasse o assunto, com a imprensa (mesmo a de linhas políticas diferentes) a respeitar um silêncio de compadrio corporativo, aos leitores pouco mais restava do que falar entre si do assunto e esperar por uma eventual “justificação” no número seguinte do semanário. 

E ela veio! O autor, o “jornalista”, explicou, numa nota, que tinha havido um “erro técnico”: de facto, e em termos práticos, a reunião relatada não se tinha realizado. O jornal “concedia” que esse detalhe não tinha sido tomado em devida conta e, com modéstia deontológica, assumia o lapso. Mas o “jornalista” tinha um argumento fortíssimo. É que, como ele explicava na mesma nota, o seu conhecimento detalhado das clivagens que, sobre o assunto, sabia existirem no seio do Conselho da Revolução era tal que ele tinha a certeza de que, houvesse a reunião tido efetivamente lugar, teriam sido exatamente aquelas as posições que nela seriam assumidas pelos intervenientes citados. Estava tudo explicado! 

O autor deste brilhante argumento foi, mais tarde, professor universitário de... “jornalismo”. Nunca cheguei a matar a curiosidade que tinha sobre se a questão do “erro técnico” alguma vez foi por ele abordada nas “aulas”.

9 comentários:

Anónimo disse...

Caro embaixador

com tanta "reciclagem" bem que podia fazer um livro...

cumprimentos

Gonçalo Pereira disse...

Só uma nota adicional: o erro foi muito gozado na imprensa da época. Encontrei chistes sobre o assunto em "O Diário", "Portugal Hoje"'
, "Expresso" (que nutria grande desprezo pelo Rocha) e "Diário de Lsboa".

Anónimo disse...

"No melhor pano cai a nódoa"...

Cícero Catilinária disse...

Essa faz lembrar uma certa vichyssoyse, servida num jantar que não houve.
Bom ano, caro Embaixador.

Cícero Catilinária disse...

E também eu fui vítima de um "erro técnico". É claro que é vichyssoise e não como postei acima.

Luís Lavoura disse...

E como se chama essa luminária do "jornalismo"? Falta neste post dizer o nome do seu herói!

Ninguém.pt disse...

Tive a "sorte" de ter feito a composição dessa relíquia do "jornalismo antecipativo da realidade", produto da mente doentia do Rocha amante da Indonésia que esmagava os timorenses.

Anónimo disse...


Cá para mim foi Marcelo Rebelo de Sousa, que foi jornalista do Expresso.

E professor catedrático...de jornalismo.

João Pedro

José Lopes disse...

Nuno Rocha, e o "Tempo"