Sei lá bem porquê (e se sei, não digo), lembrei-me há pouco de um célebre episódio ocorrido na imprensa portuguesa, nos anos 80 do século passado.
Era um tempo tenso, em que o declinante poder militar remanescente, embora titulado já pela sua ala mais moderada, causava ainda engulhos a alguns partidos políticos do eixo do novo sistema político, em crescendo de afirmação. Por essa razão, as intrigalhadas sobre o Conselho da Revolução e os eventuais conflitos no seu seio eram constantes.
Por essa época, um semanário destacava-se no serviço prestado a essa ala do espetro político. Era pasto constante de recados desse setor, dava guardida aos seus colunistas furibundos e indignados e, claro, prestava-se a fretes políticos constantes. Ah! E vendia jornais, muitos.
Um dia, o tal semanário desse tempo trouxe uma detalhada descrição de uma reunião do Conselho da Revolução, com a discussão em torno de um tema qualquer então na berra. As posições assumidas e o teor das intervenções dos vários membros do órgão eram desenvolvidos no texto com algum detalhe, revelando que a reunião havia sido tensa e dura.
Tudo estaria bem se ... a tal reunião não tivesse sido adiada! O “jornalista” - a peça era da responsabilidade do diretor do periódico - havia inventado a história de A-a-Z, colocando na boca dos membros do Conselho da Revolução coisas que, claro!, eles nunca tinham dito.
Nesse tempo, sem redes sociais e sem televisão que repescasse o assunto, com a imprensa (mesmo a de linhas políticas diferentes) a respeitar um silêncio de compadrio corporativo, aos leitores pouco mais restava do que falar entre si do assunto e esperar por uma eventual “justificação” no número seguinte do semanário.
E ela veio! O autor, o “jornalista”, explicou, numa nota, que tinha havido um “erro técnico”: de facto, e em termos práticos, a reunião relatada não se tinha realizado. O jornal “concedia” que esse detalhe não tinha sido tomado em devida conta e, com modéstia deontológica, assumia o lapso. Mas o “jornalista” tinha um argumento fortíssimo. É que, como ele explicava na mesma nota, o seu conhecimento detalhado das clivagens que, sobre o assunto, sabia existirem no seio do Conselho da Revolução era tal que ele tinha a certeza de que, houvesse a reunião tido efetivamente lugar, teriam sido exatamente aquelas as posições que nela seriam assumidas pelos intervenientes citados. Estava tudo explicado!
O autor deste brilhante argumento foi, mais tarde, professor universitário de... “jornalismo”. Nunca cheguei a matar a curiosidade que tinha sobre se a questão do “erro técnico” alguma vez foi por ele abordada nas “aulas”.