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sexta-feira, dezembro 22, 2017

Senhor Presidente



Há já bastante tempo, por esta altura, a segunda página do “Expresso” trazia-nos sempre um balanço sobre o ano de mandato do presidente da República de turno. Assinava-o Marcelo Rebelo de Sousa. Depois, na TSF, o chefe de Estado do momento tinha direito, com toda a certeza, a uma professoral nota, dada pelo comentador mais temido do país. Mais tarde, nas televisões (nunca na SIC, porque as coisas são o que são), essa avaliação crítica chegava-nos com a regularidade da aletria. 

Esse tempo acabou. O comentador de então mudou de estatuto e cabe-lhe agora, pela vontade inequívoca dos portugueses, o papel de comentado. Os “tudólogos” televisivos encarregar-se-ão (curiosamente, na SIC) dessa tarefa, com o insuperável rigor da sua subjetividade. Mas cada um de nós fará também a sua avaliação, porque somos nós, os que votaram ou não neste presidente, quem tem o direito maior sobre o seu destino político.

Julgo não estar a generalizar sem legitimidade se disser que os portugueses fazem, nos dias de hoje, uma avaliação francamente positiva sobre o exercício do presidente da República. À direita, alguns terão superado o trauma inicial de assistir ao que parecia um “namoro” com a Geringonça, continuando a não apreciar o que entendem ser a banalização da sua presença e da sua palavra. À esquerda, começa a gerar-se o grupo dos “eu bem dizia!”, mas há também muito quem tenha memória e se congratule ao fazer o fácil contraste com passado. Enfim, nada que não fosse expectável.

Que farei com esta presidência?, perguntar-se-á hoje o titular de Belém. O senhor presidente é o melhor conselheiro de si próprio, porque a sorte que teve na vida deve-a, em escala esmagadora, apenas a si mesmo e à sua auto-confiança. Mas exatamente por isso, permita-me que lhe diga, pode correr o risco de pensar que nunca se engana e de sentir que raramente tem dúvidas (onde diabo é que já ouvi isto?). E o mundo pode trazer-lhe surpresas.

Por isso, senhor presidente, não querendo fazer o papel dos “visiteurs du soir” que François Mitterrand acolhia no Eliseu, ao baixar do sol, gostava de dizer-lhe que, não tendo votado em si mas encarando poder fazê-lo no futuro, espero sinceramente que continue fiel à imagem de um homem de Estado que não se sente tentado, de forma artificial, a fazer reequilíbrios político-partidários. Todos sabemos que eles podem facilitar manejos numa certa leitura do semi-presidencialismo, mas gostava também de lembrar que eles afetam esse valor supremo no “portfolio” de um político que é o seu crédito de confiança, o qual, lembro, não é sinónimo de popularidade.

Por isso, senhor presidente, nestas excelentes Festas que lhe desejo, gostava que no nosso “bolo rei” continuasse a sair aos portugueses a prenda e não a fava.

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