quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Kohl ou a Europa das emoções

Há muito que se espalhou pela Europa a saudade de uma geração de líderes que, em momentos que a História haveria de reconhecer como determinantes, assumiram atitudes que o futuro coletivo consagraria no destino do continente. Mais do que outros, por razões óbvias, os dirigentes alemães estiveram, desde os anos 50 do século passado, sob um escrutínio particular. Numa esquizofrenia que alguma insegurança ajuda a explicar, a Europa passou de um tempo em que desejou manter uma Alemanha frágil para aquele em que ansiou por uma Alemanha que fosse, ao mesmo tempo, forte e solidária, uma espécie de “bom gigante”. 

Helmut Kohl, que desapareceu em 2017, está, ele próprio, na charneira dessa mudança de atitude europeia. A sua grandeza reside, precisamente, no facto de personificar, tornando-os compatíveis, dois projetos que mudaram a face e até o lugar estratégico do seu país no continente: a reunificação alemã e os passos no aprofundamento do projeto europeu. A sua imagem de mão dada com François Mitterrand, por iniciativa deste, no cemitério de Verdun, continua a comover-me tanto como ver bandeiras alemãs e francesas, lado a lado, junto às tumbas na Normandia. 

Vi Kohl, pela primeira vez, numa reunião europeia, em 1996. Era uma figura imponente, que contrastava positivamente com a agitação histriónica de Chirac. Eu tinha o testemunho de muitos que assistiram a Kohl ser sensível aos problemas portugueses, na década de integração que o nosso país então tinha percorrido. E, até à sua saída de cena, pude confirmar que essa atitude se manteve.

Guardo ainda para sempre uma imagem insólita: em junho de 1997, em Amesterdão, no intervalo de um Conselho Europeu, vi Kohl avançar pelo centro da sala, em fúria e aos berros, para o primeiro-ministro holandês Wim Kok. O confronto físico entre essas duas figuras chegou a parecer quase inevitável. Kok tinha feito uma “esperteza”, como presidente da sessão, dando por aprovado um texto que sabia ir colocar Kohl em conflito com os seus “länder”. 

Sou um nostálgico dessa Europa de emoções, confesso.

(Artigo que hoje publico a convite da revista “Visão”)

1 comentário:

Anónimo disse...

Como já aqui referi anteriormente gostava que publicasse as suas memórias.

Como escreve muito bem, aliado ao que viveu deve ser um livro interessantíssimo.

LBA