segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O vizinho

O jantar era numa capital europeia. Aquela portuguesa, filha de um diplomata, caíra nele um pouco por acaso, à última hora, levada por amigos. As dezenas de convidados acomodavam-se nas várias mesas redondas, num ambiente solto e bastante informal. Ao dar-se conta que um dos seus vizinhos do lado era brasileiro, a portuguesa, seguindo o óbvio tropismo nacional, passou a concentrar nele a sua atenção. O vizinho era, além do mais, uma pessoa com graça, interessante e com "mundo".

A certa altura, trocaram-se nomes e o vizinho disse chamar-se Paulo. O apelido, como ele também referiu, não podia ser mais português: Coelho. A nossa jovem perguntou então ao seu vizinho se, sendo brasileiro, a coincidência de ter um nome igual ao prolífico escritor não causara já equívocos. E acrescentou: "Eu detesto os livros de Paulo Coelho. É uma escrita banal, medíocre. Não consigo entender a razão do seu êxito. Tenho muitos amigos brasileiros que pensam o mesmo. O que é que você acha?".

O vizinho, homónimo do escritor, sorriu e disse: "Eu não desgosto desses livros. Caso contrário, não os teria escrito..."

Nunca cheguei a perguntar à Inês como saiu desta. Como sei que ela, às vezes, lê este blogue, talvez me possa esclarecer.

12 comentários:

Anónimo disse...

"O que é que você acha?".

Eventualmente que a Menina não memoriza fisionomias expressas em capa, ou contracapa,não reparou...

Por exemplo...
Isabel Seixas

Anónimo disse...

Sinto-o, como sinto a noite, cruel, num frio silencioso que torna audível o compasso do relógio, já sem gri gris, ainda o espreguiçar das madeiras que me fazem olhar sem brincadeiras, não acredito nelas, parecem-me freiras sisudas e vigilantes, matreiras, espiando deslizes e são superegos os vizinhos...Dos sóbrios egos e dos ides cegos...
Isabel Seixas

Cunha Ribeiro disse...

História, mais uma, deliciosa.
Eu acho que a Mna/Dona Inês se terá saído bem do "engano". Basta pensar que era um humanista, o visado. Um homem de letras, para além de...como bem sintetiza o Sr Embaixador, um "homem do mundo", em quem o relativismo e a tolerância marcam presença.

Julia Macias-Valet disse...

Aiiiii.....coitada da Inês !
Creio que perdeu uma boa oportunidade de estar calada : (
Mas aqui so para nós a Inês não gosta de Paulo Coelho mas... muito provavelmente também não gosta de ler y PUNTO ! Sim, porque o escritor em questao é um "colunavél" : )) Nao ha revista "Hola", "Paris Match" ou "Lux" onde ele nao tenha aparecido.

PS O paizinho da menina deve ter ficado contente com a argolada...

Armenio Octavio disse...

Bem grande embaraço, mas não deixa de ter razão, também não entendo o sucesso de Paulo Coelho...

Helena Sacadura Cabral disse...

Penso exactamente como a Inês. Talvez tivesse sido capaz de lhe responder "que pena que não partilhe da minha opinião. Mas se em lugar de os escrever, passar a lê-los...é capaz de me compreender"!

patricio branco disse...

divertida (e exemplar) história!

Francisco disse...

Claro que foi uma "gaffe" embaraçosa, mas de facto o sucesso do Paulo Coelho é um fenómeno tipicamente brasileiro. Agora que tem um grande sentido de negócio, não tenho a mínima dúvida. Seria um bom candidato ao Prémio Nobel, não da Literatura, mas da Economia.

Manuel Augusto Araújo disse...

gaffe? mas qual gaffe? O Paulo Coelho não é um mais que medíocre escritor, se é que se pode chamar escritor àquilo? Curiosamente a inês não conhece e, pelos vistos, os comentadores e o Seixas da Costa também não, é que o Paulo Coelho na ressaca dos anos 68 andou a escrever textos o Raul Seixas cantar. Vão ouvi-las, tão longe danegociata da filosofia de cordel que vende como muitos soixante-huitards se venderam. É o marketing pós-2revolucionário!

Luís Bonifácio disse...

Quem me dera ter estado no lugar da Inês.

Francisco Seixas da Costa disse...

Caro Manuel Augusto Araújo: conheço bem a vida de Paulo Coelho e o que fez cantar a Raul Seixas. Aliás, se não leu, recomendo-lhe a leitura de "O Mago", um magnífico livro de Ruy Castro sobre Paulo Coelho. É, aliás, a melhor obra "de" Paulo Coelho...

Anónimo disse...

O texto aqui oferece várias perspectivas. 1. A gafe: elegância é elegância e educação é educação, em qualquer situação ou lugar do mundo. 2. Paulo Coelho não é um fenômeno brasileiro em literatura, mas um fenômeno internacional. A reprodução de suas obras em diversos idiomas é uma prova do gosto mundial pela escrita fácil, pouco erudita, comercial.

Mágda Cunha, jornalista, pesquisadora, PUCRS/Brasil