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segunda-feira, novembro 08, 2010

O vizinho

O jantar era numa capital europeia. Aquela portuguesa, filha de um diplomata, caíra nele um pouco por acaso, à última hora, levada por amigos. As dezenas de convidados acomodavam-se nas várias mesas redondas, num ambiente solto e bastante informal. Ao dar-se conta que um dos seus vizinhos do lado era brasileiro, a portuguesa, seguindo o óbvio tropismo nacional, passou a concentrar nele a sua atenção. O vizinho era, além do mais, uma pessoa com graça, interessante e com "mundo".

A certa altura, trocaram-se nomes e o vizinho disse chamar-se Paulo. O apelido, como ele também referiu, não podia ser mais português: Coelho. A nossa jovem perguntou então ao seu vizinho se, sendo brasileiro, a coincidência de ter um nome igual ao prolífico escritor não causara já equívocos. E acrescentou: "Eu detesto os livros de Paulo Coelho. É uma escrita banal, medíocre. Não consigo entender a razão do seu êxito. Tenho muitos amigos brasileiros que pensam o mesmo. O que é que você acha?".

O vizinho, homónimo do escritor, sorriu e disse: "Eu não desgosto desses livros. Caso contrário, não os teria escrito..."

Nunca cheguei a perguntar à Inês como saiu desta. Como sei que ela, às vezes, lê este blogue, talvez me possa esclarecer.

António Lobo Antunes

Morreu António Lobo Antunes, um dos escritores maiores da língua portuguesa. Seu leitor desde o primeiro livro, só o vim a conhecer pessoalm...