quarta-feira, 10 de novembro de 2010

A América, a Indonésia e Timor

Ter memória torna-nos algo cruéis. Ontem, ao ver o presidente Barack Obama na Indonésia, confraternizando com o seu homólogo local, não pude deixar de lembrar-me de uma triste visita de um seu antecessor ao mesmo país. 

Estávamos em 6 de Dezembro de 1975. Gerald Ford, acompanhado pelo seu chefe da diplomacia, Henry Kissinger, visitava Jacarta, onde se encontrou com o então presidente Suharto. Durante este encontro, como hoje o revelam detalhadamente documentos depositados no "National Security Archive", da "George Washington University", o presidente indonésio recebeu "luz verde" de Gerald Ford para avançar na invasão de Timor, naquela que iria ser uma mortífera operação, cujas consequências se prolongaram por quase um quarto de século. O presidente americano apenas disse que "it would be better if it were done after we returned". Suharto cumpriu. O ataque iniciou-se no dia 7 de Dezembro. 

A América de hoje é diferente. A Indonésia também. Mas, "for the record", não fica mal um exercício de memória.

7 comentários:

Helena Sacadura Cabral disse...

Ai que bela memória as "nossas", perdõe-me a ousadia do possessivo plural. Ontem ao ver essas imafens lembrei-me de algo muito semelhante.
Embora qualquer dos países hoje seja, de facto, diferente, eu não deixei de sentir um certo mal estar...

Luís Bonifácio disse...

Em Timor "todos" temos que fazer um exercício de memória, pois dela, da triste, também faz parte Portugal, como você bem sabe.

Anónimo disse...

Não fica nada mal, mesmo!
Fez bem em recordar.
P.Rufino

Cunha Ribeiro disse...

A memória! Essa gaveta do tempo e do modo... de ser.
Só pela memória podemos avaliar as atitudes de quem nos governa; só pela memória podemos portanto ser justos nas nossas escolhas...
A memória ou está de sentinela e é útil; ou está distraída, e não existe...

Anónimo disse...

Ter memória...É também:

Não ter amnésia;
Lembrar , recordar;
Poder;
Ruminar;
Sofrer;
Ser;
Dor
Alívio
Amar
Odiar
Incluir
Excluir
Rejuvenescer;
Crescer
Envelhecer
Morrer

Renascer...

Isabel Seixas

Anónimo disse...

A interpretacao da historia e uma arte dificil.Em Portugal, a historia tornou-se uma arte hagiografica.Dai os constantes revisionismos e ate o branqueamento da propria historia.
Quando G.Ford e H.Kissinger deram a luz verde a Suharto para a invasao de Timor,Kissinger ,que meses antes ja tinha estado em Portugal,sabia que Portugal era um caso perdido para os EUA.Havia,por isso,que evitar a entrega de Timor a uma certa esquerda nao democratica.Em politica e tambem em economia, Portugal sempre desper-tou tarde para o Mundo,e quando des-pertou tentou responsabilizar tercei-ros.O negacionismo e uma arte que a diplomacia portuguesa pratica com mestria.Talvez a diplomacia austra-liana esteja mais bem posicionada para ajuizar sobre o tema acima referido pela sua sua proximidade geo-politica.

José Martins disse...

Senhor Embaixador,

Tive pela força das circunstância estar envolvido no caso “Timor”. Uma das experiências mais cruéis que haja tido em minha vida.
Reuni 3 grossos volumes (históricos) daquilo que haja acontecido desde a invasão da Indonésia.
Recortes de jornais e cópias de documentos que hoje podem ser revelados, dado que já lá vão 34 anos.
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Mas ter-se-ia importado, demasiadamente, o Governo Português pela invasão?
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Sem divulgar documentos, secretos, que chegaram à Embaixada de Portugal em Banguecoque, onde está o nome do embaixador Pinto da França (que muito admiro e o mais conhecedor da Indonésia), apenas transcrevo uma peça do jornal “Bangkok Post” de 13.07.1976 que diz o seguinte:
Áccordo on Timor in secrets talks”

Portuguese and East Timor delegations reached agreement on specified sugjects in five days of talks here last week, the Indonesian Embassy here said yesterday, Reuters reported.
In a statement release through the embassy, Lopes da Cruz, deputy chief executive of the provisional Government of East Timor, said the talks had taken place in a friendly atmosphere.
The talks, whose existence had not been publicity announced before, took place from last Tuesday to Saturday between an East Timor delegation led by Da Cruz and Portuguese team headed by Vilas Boa, director-general of the Foreign Affairs Ministry.
“A wide range of subjects has been negotiated during the talks and mutual agreement has been reached on various matters, whereas other existing problems will be further discussed for finalization,” the statement added.
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Para terminar as reuniões tiveram lugar na Embaixada da Indonésia em Banguecoque.
Saudações
José Martins