terça-feira, 21 de setembro de 2021

Uma pega de uma gralha

Os franceses, para quem não saiba, usam a expressão “nom d’oiseaux” para significarem um insulto. Esta deriva ornitológica surgiu-me agora à ideia. Num texto que alinhavei por aqui, cometi, há dias, uma gralha. Sim, uma gralha! Imaginem que escrevi “precalço” em lugar de grafar “percalço”. E logo um periódico, ladino, feroz, de lápis azul afiado, fez notar o erro crasso, embora de forma sibilina. Já estou a ver o leitor a exclamar, indignado: “O quê! Um embaixador, que representou o país pelo mundo, que deve trazer a língua portuguesa ao peito, comete um erro desse calibre?!” Imagino mesmo o meu amigo Albano Bessa Monteiro, daqui a dias, por via postal, a zurzir-me, em papel timbrado do seu escritório de advogado: “Então tu, aluno do meu pai em Português (bem sei que nunca passaste de 14, mas mesmo assim!), caíste nessa coisa miserável de trocar a posição do “e” com a do “r”, pensando talvez que ias safar-te com o alibi de alguma dislexia de velhice? Valha-nos a imprensa, atenta, alerta, à cata desses imperdoáveis deslizes. No final de contas, tu és é um imenso ignorante! O meu velho pai e teu professor, se soubesse desta tua calinada, do tamanho de um andor da Senhora da Pena, teria um imenso e justificado desgosto. Digo-te mais, Francisco, eu já tinha notado a fragilidade que te abala a escrita, logo a ti, que há dias cometeste um livreco: aqui há uns anos, insensatamente, escreveste “insenso” em lugar de “incenso”. O que diria o padre Henrique! E, noutra ocasião (nunca to disse, por pudor), escreveste “idiossincrasia” só com um “s”! Calei então a minha indignação, mas digo-to agora, revelando o quão chocado fiquei. Como compreenderás, a partir deste momento, as nossas relações nunca mais poderão ser as mesmas.” É assim a vida! Ornitológica e graficamente, em “nom d’oiseaux”, quase que se podia dizer que foi uma pega de uma gralha.

6 comentários:

peciscas disse...

Morei durante meia dúzia de anos numa casa que ficava mesmo em frente à dos Bessa Monteiro, na rua D.Pedro de Meneses, Vila Real. O professor era muito severo e rígido e constava que sabia de cor todos os Lusíadas. Com o Albano Manuel joguei à bola algumas vezes, quando o pai lhe permitia ultrapassar as fronteiras do portão da casa. E quando se esgotava o tempo definido pelo patriarca para a alforria, soava um estridente assobio que fazia disparar a imediata reação do rapaz em direção a casa.Soube depois que a família rumou a Lisboa onde o Albano foi cursar Direito. Uns anos depois, passando pela Bila dei conta do estado de ruina da bela moradia onde habitava esta família. Sei que foi depois recuperada para uma agência bancária. Se o Albano ler este comentário, aqui vai um abraço, evocando velhos tempos.
António Moreira

José Figueiredo disse...

Uma vez o Dr. Bessa Monteiro, que, creio, era reitor ou vice-reitor, recusou-se a fazer-me uma oral do 2º ano do liceu por eu não ter gravata e lá tive de ir a correr ao Colégio da Boavista buscar o dito apetrecho.
José Figueiredo

Jaime Santos disse...

São os espíritos pequenos (e mesquinhos), Sr. Embaixador, que se entretêm com as coisas pequenas. As pegas e as gralhas, a bem dizer...

Flor disse...

Não conhecia essa expressão. Já há tempos recebi um valente puxão de orelhas de um amigo estudioso da língua porque tinha escrito uma legenda de uma imagem que estava metade castelhano metade português. Ainda hoje,40 anos depois de ter estado na Venezuela ainda penso duas vezes antes de escrever (pre)gunto ou (pre)gunto. :)

Plúvio disse...

Senhor Embaixador,
Visito-o aqui com assiduidade; rarissimamente comento.

Não deixando de apreciar a elegância e o cuidado gramatical com que habitualmente redige, não resisto hoje a desaproveitar a boleia desse alado «precalço» para lhe trazer dois ou três reparos — nem menos nem mais, glosando o nome deste sítio — a imperfeições de língua recorrentes nas suas publicações que observo de há muito:
- «juíz» por «juiz»;
- «disfrutar» (e variações verbais) por «desfrutar»;
- «o entorse» (masc.) por «a entorse» (fem.).

Por fim, acho algum talvez dispensável exotismo no uso frequente que faz de uma palavra que o "Vocabulário ortográfico português", do ILTEC, não acolhe apesar de reconhecida num ou noutro raro dicionário: «infringimento». «infracção»*, «infringência», etc., sinónimos ou equivalentes canónicos não faltam.

* Não pratico o AO.

Saudações.
Deniz Costa

Plúvio disse...

É evidente que deveria ter escrito «(...) não resisto hoje a aproveitar a boleia (...)».
Peço desculpa.