(Foto de João de Vallera)
Pensei então que aquele encontro significava, verdadeiramente, o fechar de ciclo de uma geração que, não sendo exatamente a minha, mas a que eu me tinha ligado fortemente e que me tinha marcado para sempre. Um corpo de ideias e um grupo de pessoas em cuja atitude e forma de estar na política e na vida eu me revia muito. E que tinha em Jorge Sampaio o seu óbvio expoente.
Há não muito tempo, escrevi isto num jornal: “Sampaio é uma figura muito rara no cenário político português. Nunca o vi vacilar em matéria ética, nunca lhe notei nenhuma transigência em termos de observância dos princípios que a si próprio se impunha para estar na vida pública. Às vezes, surpreendi-me com a constatação de que convivia, com demasiada naturalidade, com o facto de outros não serem assim. Alguns viam nessa sua atitude uma certa condescendência, a implícita afirmação de uma superioridade moral. Não creio tratar-se disso. Sempre interpretei essa postura de Jorge Sampaio como a manifestação de uma saudável distância face àquilo a que os franceses chamam a “politique politicienne”, que entre nós se traduz lindamente por “política politiqueira”.
Acompanhei com atenção, primeiro a alguma distância, depois mais de perto, a vida cívica de Jorge Sampaio. Não o fiz por mera curiosidade, mas muito mais por, desde há muito, ter sido seduzido pela sua forma única de estar na praça política. Nem sempre estive de acordo com opções que tomou, critiquei escolhas que fez, mas, sem a menor hesitação, posso hoje dizer que me revejo largamente naquilo que soube construir, enquanto figura política. A decência (gosto muito da palavra e acho que se lhe aplica como a poucos) que imprimiu à sua forma de atuar soube granjear-lhe uma genuína admiração por parte de gente de quadrantes muito diversos, às vezes contrastantes. Estou certo que História ser-lhe-á justa, tanto mais que se há uma marca que se lhe cola à imagem, desde sempre e para sempre, essa é a de um apurado sentido de serviço público, feito de uma dedicação permanente à causa da democracia e da solidariedade coletiva. A geração a que pertenço fica a dever-lhe um raro legado de ética e integridade política.”
Não tenho muito mais a acrescentar, na hora da sua morte, a este bosquejo cívico. Mas posso e devo somar a isso o sentimento de sincera amizade que, ao longo de todo o tempo que privei com Jorge Sampaio, com ele criei, extensivo à sua família, à sua mulher Maria José, à Vera e ao André, no que sou plenamente acompanhado pela minha mulher, que de todos se sentiu sempre próxima. Ambos devemos a Jorge Sampaio, ao longo dos anos, gestos de imensa simpatia, de grande confiança, de forte cumplicidade. A sua morte, se bem que anunciada, deixa-nos uma imensa tristeza.
(Ilustro este texto com uma fotografia de Jorge Sampaio da autoria de um seu grande amigo, o embaixador João de Vallera)
