sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Jorge Sampaio

(Foto de João de Vallera)

Há uma imagem que me ficou para sempre. Foi numa enfermaria do hospital dos Capuchos, há pouco mais de quatro anos. Nuno Brederode Santos aproximava-se, já inconsciente, do fim da vida. Jorge Sampaio entrou e, ao final de uns minutos, emocionado como ele ficava com as coisas que o tocavam, pediu para ficar a sós com aquele que foi talvez o seu maior amigo. Por longos minutos, deixámo-los ali, numa conversa silenciosa.

Pensei então que aquele encontro significava, verdadeiramente, o fechar de ciclo de uma geração que, não sendo exatamente a minha, mas a que eu me tinha ligado fortemente e que me tinha marcado para sempre. Um corpo de ideias e um grupo de pessoas em cuja atitude e forma de estar na política e na vida eu me revia muito. E que tinha em Jorge Sampaio o seu óbvio expoente.

Há não muito tempo, escrevi isto num jornal: “Sampaio é uma figura muito rara no cenário político português. Nunca o vi vacilar em matéria ética, nunca lhe notei nenhuma transigência em termos de observância dos princípios que a si próprio se impunha para estar na vida pública. Às vezes, surpreendi-me com a constatação de que convivia, com demasiada naturalidade, com o facto de outros não serem assim. Alguns viam nessa sua atitude uma certa condescendência, a implícita afirmação de uma superioridade moral. Não creio tratar-se disso. Sempre interpretei essa postura de Jorge Sampaio como a manifestação de uma saudável distância face àquilo a que os franceses chamam a “politique politicienne”, que entre nós se traduz lindamente por “política politiqueira”.

Acompanhei com atenção, primeiro a alguma distância, depois mais de perto, a vida cívica de Jorge Sampaio. Não o fiz por mera curiosidade, mas muito mais por, desde há muito, ter sido seduzido pela sua forma única de estar na praça política. Nem sempre estive de acordo com opções que tomou, critiquei escolhas que fez, mas, sem a menor hesitação, posso hoje dizer que me revejo largamente naquilo que soube construir, enquanto figura política. A decência (gosto muito da palavra e acho que se lhe aplica como a poucos) que imprimiu à sua forma de atuar soube granjear-lhe uma genuína admiração por parte de gente de quadrantes muito diversos, às vezes contrastantes. Estou certo que História ser-lhe-á justa, tanto mais que se há uma marca que se lhe cola à imagem, desde sempre e para sempre, essa é a de um apurado sentido de serviço público, feito de uma dedicação permanente à causa da democracia e da solidariedade coletiva. A geração a que pertenço fica a dever-lhe um raro legado de ética e integridade política.”

Não tenho muito mais a acrescentar, na hora da sua morte, a este bosquejo cívico. Mas posso e devo somar a isso o sentimento de sincera amizade que, ao longo de todo o tempo que privei com Jorge Sampaio, com ele criei, extensivo à sua família, à sua mulher Maria José, à Vera e ao André, no que sou plenamente acompanhado pela minha mulher, que de todos se sentiu sempre próxima. Ambos devemos a Jorge Sampaio, ao longo dos anos, gestos de imensa simpatia, de grande confiança, de forte cumplicidade. A sua morte, se bem que anunciada, deixa-nos uma imensa tristeza. 

(Ilustro este texto com uma fotografia de Jorge Sampaio da autoria de um seu grande amigo, o embaixador João de Vallera)

10 comentários:

Jaime Santos disse...

Uma bela homenagem a um homem bom e que nos vai fazer muita falta. Viva Jorge Sampaio!

Flor disse...

Que em paz descanse!
"Um homem decente" que infelizmente nos dias de hoje encontra-se pouco.
Gostei muito do seu testemunho que aliás assim o esperava vindo do Sr. Embaixador. Os meus pêsames.

Joaquim de Freitas disse...

Noticia muito triste. Recordo uma imagem, em França, diante da minha televisão, de Jorge Sampaio, com os olhos que traduziam uma grande tristeza, naquela noite sombria em que a bandeira Portuguesa descia lentamente no mastro, assinalando o fim de cinco séculos de presença portuguesa em Macau.

A grande dignidade do Presidente da República, não podia esconder o que lhe ia na alma.

Temos os dois recordações de Guimarães, eu porque ali nasci, assim como o seu Pai.

Cumprimentei-o e falei-lhe dessa imagem de Macau, um dia que me encontrava no Hotel de Guimarães, vizinhos de mesa, à hora do pequeno-almoço.

Que repouse em paz para a eternidade.

CCF disse...

E na partida ainda nos deixou essa mensagem sobre as meninas afegãs...espero que se faça algo para cumprir esse seu último desígnio.
Foi o meu único presidente.
~CC~

Jaime Santos disse...

Duvido, Joaquim de Freitas, que Sampaio considerasse que a noite era de algum modo sombria. O momento era esse sim solene, Portugal devolvia aquela que fora a sua última colónia ao povo que a deveria governar e era ele, enquanto representante máximo do povo português, a quem competia cumprir essa tarefa, ele que sempre lutara contra o regime colonialista de Salazar.

Sentiria tristeza? Talvez, mas presumo que sentisse sobretudo ansiedade, pois sabia bem que por mais garantias que o Governo da RPC desse, não seria tão cedo que os habitantes de Macau gozariam da liberdade que gozaram durante o período em que o Portugal democrático administrou o território.

Como agora se confirma, aliás, depois da repressão dos protestos em Hong Kong, também em Macau a China parece querer coartar a liberdade de imprensa...

Tony disse...

Dia triste. Paz à sua alma. Homem de grande honestidade, humanista e de causas. Pessoa com grande cariz sentimental, e grande sensibilidade humana, que, quando algum sentimento humano o tocava, não o escondia e, não raro, lhe apareciam as lágrimas. Também acho que tinha grande sentido de humor. Ainda à pouco, na televisão passaram algumas retrospetivas imagens, disso mesmo. contou uma que apeado a guarda no o deixava entrar no Palácio de Belém. Eu, também conto uma que me fora reportada, por um amigo e frequentador do mesa 2. Como o Senhor Embaixador disse e bem, que o Nuno Bredorode era um seu e grande amigo. Quando JS, foi eleito Presidente da Câmara Municipal de Lisboa. alguém fora a sua casa, entregar uma galinha viva, com uma dedicatória, como sendo de uma vendedeira de mercado, ou mulher do povo?. Passado, algum tempo, o Nuno, bate à porta e JS, estava ainda emocionado, com a simples, mas muito simbólica oferta. O Nuno, começou a rir e JS, num instante, percebeu e disse. Foste tu, meu C....

maitemachado59 disse...

e como ele gostava bastante de falar Ingles: RIP

maitemachado59

AV disse...

Fica o exemplo da forma como entendeu e viveu a integridade e a tolerância.

Luís Lavoura disse...

Ch´ma Israel, Adonai elohenu, Adonai ehad!

José disse...

É sintomático da indigência intelectual deste país o destaque que tantos estão a dar ao "excelente inglês" de JS, como se falar bem uma língua estrangeira fosse uma coisa que, por si só, fizesse alguém melhor do que os seus pares (já agora, JS tinha uma pronúncia a puxar para o britânico mas incapaz de enganar, sequer, alguém duro de ouvido).

Depois, há os parolos que destacam o caráter "britânico" de JS, o que está na mesma linha de sentimentos de inferioridade cultural.

Há, ainda, os tontos que "descobrem" que o homem era "judeu" por via da avó materna e acham que isso lhe conferiu - eventualmente -, super poderes herdados do Povo Eleito. Aqui, já estamos no racismo puro e duro e é notável que ninguém pergunte "mas o que é que isso interessa para ser destacado nas notas biográficas?!".

Curiosamente, ninguém diz que o senhor também era marroquino por via da mesma avó materna...

Ou seja, no meio do justo enaltecer das qualidades humanas e políticas de Jorge Sampaio, temos de levar com estas demonstraçõezinhas de complexos de inferioridade e de racismozinhos broncos que, ao contrário do que geralmente se gosta de dizer, não são do "poveco" mas sim de gente educada e, muitas vezes, paga por todos nós para andar por aí a botar faladura sobre tudo.

Devo dizer que tive de parar de ouvir o "Bloco Central" da TSF antes que o pequeno almoço voltasse para trás.

E, por falar em pequeno almoço, sinto profundo pesar pelo que aconteceu a Jorge Sampaio naquele dia em Guimarães...