Depois da derrota política sofrida no dia 28 de setembro de 1974, o general António de Spínola, presidente da República, na ressaca dos acontecimentos e das manifestações desse dia que ficou histórico, tinha convocado o Conselho de Estado para 30 de setembro. Foi anunciado que, nessa ocasião, faria uma comunicação ao país pela televisão e rádios, diretamente de Belém.
Eu andava pelo palácio da Cova da Moura, onde era adjunto da Junta de Salvação Nacional, instituição a que Spínola ainda presidia, mas que, tudo o indicava, tinha a sua existência a prazo. Juntámo-nos uns tantos, de tendências político-militares bastante diversas e até antagónicas, em torno de um televisor, para ouvir a intervenção do chefe de Estado.
Os tempos eram muito tensos, o ambiente político era de cortar à faca. Naquela sala estava gente cujo futuro iria ser, a partir desse dia, muito díspar. Lembro-me de que havia por lá um general do Exército, cujo nome não consigo recordar, recém-regressado de uma Angola em convulsão, que sabíamos ser um "spinolista" ferrenho. Estava acolitado por figuras que não conhecia, com cara patibular, de quem tinha ficado do lado dos derrotados nas “batalhas” das vésperas.
Todos antecipávamos as palavras do "velho" (como os "spinolistas" gostavam de chamar à sua figura tutelar). A ideia mais comum era a de que se demitiria em direto das funções, mas outros cenários, nomeadamente de alguma resistência à recente derrota nas ruas dos seus apaniguados, ainda eram plausíveis.
O discurso começou, com a voz rouca de Spínola, naquele registo épico e um pouco teatral que era o seu, a dramatizar, como era de esperar, a situação política, na exata linha das suas anteriores frustradas tentativas de fazer levantar a suposta "maioria silenciosa" do país.
O diagonóstico que saía da sua boca era ácido e impiedoso para os vencedores dessas horas. Todos olhávamos o aparelho de televisão mas, verdadeiramente, policiávamo-nos pelo canto do olho, sabendo que cada um lia as palavras de Spínola de forma diferente. Para mim, como jovem militar "a prazo", que me via do lado vencedor da contenda, o momento era excitante.
A certo passo da intervenção, mas ainda antes do anúncio da demissão do "caco" (como Spínola também era conhecido, por virtude do seu monóculo), um homem da Marinha, Duarte Lima (não, não é esse!), não se conteve e fez ecoar pela sala alguns adjetivos qualificativos, muito pouco abonatórios para o presidente da República e presidente da Junta de Salvação Nacional, a cujos quadros pertencíamos e em cuja sede estávamos.
Praticamente, ninguém o acompanhou na expressão vocal dos sentimentos que o motivavam, os quais, no fundo mas apenas no íntimo, creio que eram partilhados pela maior parte dos presentes. Mas, com os diabos!, Spínola era um derrotado daqueles dias e havia outras maneiras de, como dizem os militares, "explorar o sucesso", tanto mais que "não se dispara sobre ambulâncias".
Duarte Lima, porém, estava imparável, indignado com os ataques de Spínola ao MFA, e não se calava, nos insultos que ia proferindo, em crescendo. O general chegado de Angola, a alguns metros dele, fervia de raiva, marcada pela impotência que Spínola confessava no seu discurso. Os seus escassos acompanhantes remoíam em silêncio.
Quando tudo terminou, depois de Spínola ter anunciado a sua demissão, todos nos levantámos, ainda um pouco aturdidos com o início de uma nova fase da Revolução que o seu gesto prenunciava. O tal general, lívido, passou pelo Duarte Lima e, num assomo de autoridade, lançou-lhe: "Você devia ter vergonha pelo que disse". A compostura militar impôs-se e Duarte Lima não reagiu. Ou melhor: deixou sair o superior da sala e comentou, para nós: "Estive para o mandar à ....". Mas não mandou. E ainda bem. O general já tinha tido a lição dos factos.
