sábado, 11 de setembro de 2021

A História está sem pressa


No dia 11 de setembro de 2001, cerca de oito meses decorridos desde a sua entrada em funções como presidente, George W. Bush ainda não se dignara nomear um embaixador para a ONU - mas sabia-se que, quando o fizesse, essa pessoa não iria ter um estatuto de membro do Gabinete, o que é sempre um sinal claro da falta de interesse de uma administração dos EUA pela instituição central do mundo multilateral. Numa ciclotimia comum na América, a um presidente atento ao diálogo com os parceiros, sucedia-se um outro mais propenso ao autismo na afirmação do poder.

Nos corredores do palácio de vidro de Nova Iorque, por onde andava nesse tempo de 2001, como embaixador português, a vontade americana era ainda pouco visível e explícita. Os meus colaboradores, que frequentavam as várias comissões, diziam-me que os seus contrapartes americanos viviam de ordens pontuais vindas diretamente de Washington, sem a menor autonomia e sentido de coerência dado pela Missão ali presente.

Recordo-me que, no tocante às questões da paz em Angola e em Timor, que nos preocupavam, estávamos a ter grande dificuldade para perceber se haveria algum novo rumo em Washington e de que modo ele se objetivaria em decisões concretas. Esperava-se, claro, uma agenda muito mais conservadora, mas era imperativo saber quanto ela o seria e qual acabaria por ser o papel da ONU nesse contexto. No fundo, todos aguardávamos, com grande curiosidade, o discurso que George W. Bush iria fazer na Assembleia Geral da ONU, que teria o seu início no dia 12 de setembro.

Mas ainda estávamos a 11.

Eu tinha saído de casa a tempo da reunião semanal de coordenação que os embaixadores da UE tinham todas as terças-feiras, num prédio em frente da ONU.

À entrada, Jean-David Levitte, o meu colega francês, disse-me saber que havia um incêndio numa das torres do World Trade Center. Isso explicava uma nuvem escura comprida, que ia muito alta e que eu observara, do carro, no caminho para ali. Segurámos a porta do elevador para o colega britânico, Jeremy Greenstock, que se aproximava e que sabia um pouco mais: um avião fora contra uma da torres.

Não me ocorreu então, com toda a certeza, que quase trinta anos antes, em dezembro de 1972, tinha visitado, como turista, uma das Torres Gémeas, com a segunda ainda em construção. E, seguramente, também não me passou no momento pela cabeça que, três meses antes daquela manhã, com o meu pai, então com 91 anos, estivera no topo de uma dessas torres. O que me veio à memória, disso tenho lembrança, é que, não muito tempo antes, uma avioneta fora de encontro, por acidente, a um edifício, algures em Itália. Poderia tratar-se de um caso idêntico.

Não era. Minutos depois, connosco já dentro da sala de reuniões, fomos chamados para ver novas imagens televisivas, que revelavam que a segunda torre tinha sido atingida por outro avião. Eram atentados, claro. Já não sei quanto tempo depois, surgiu a notícia de um outro avião despenhado no Pentágono. Que mais estaria para acontecer?

Entretanto, Nova Iorque foi mudando. As Nações Unidas foram evacuadas, a cidade foi encerrando, os sons das ambulâncias e os carros de bombeiros, que sempre fizeram parte do cenário sonoro da cidade, foram-se tornando mais angustiantes. As torres, uma após a outra, colapsaram. Nesses momentos, em que se formou a nuvem de pó que iria pairar por muito tempo pelo sul de Manhattan, espalhando mais tarde um cheiro ácido pela cidade, a dimensão real da tragédia abriu-se definitivamente para nós.

Por uma cidade em estado de sítio, fui, a pé, para a nossa Missão, ali perto. As pessoas, apressadas, olhavam-se, caras aturdidas. Mandei o pessoal para casa. As escolas estavam a fechar, as pontes de acesso à ilha de Manhattan iam ser encerradas.

De Lisboa, telefonou-me Jorge Sampaio, presidente da República. Para saber como estávamos. E o secretário-geral do MNE, João Salgueiro. A queda das torres afetara um centro vital de comunicações. Recebíamos chamadas, mas não conseguíamos ligar para o estrangeiro. Aproveitei um telefonema de uma jornalista do “Expresso”, cujo nome não anotei, para lhe pedir que ligasse ao meu pai, em Vila Real, para o sossegar. Fê-lo, ainda hoje não sei quem foi, mas agradeço-lhe muito, vinte anos depois.

Quem fizera tudo aquilo? Ainda antes dos atentados serem reivindicados, quase ninguém tinha dúvidas de que mão radical islâmica estava por detrás da barbárie. O ódio à América era imenso e só um fanatismo sem limites podia ter causado aquela aventura. De uma coisa havia a certeza: nada seria igual, a partir daí. A raiva, o desespero, o desejo de vingança, perante aquela infâmia, viriam ao de cima, com toda a força.

Quando, dias depois, Bush foi falar às Nações Unidas, ao olhar para ele, sentado no meu lugar, por detrás da placa de Portugal, não fiquei com a menor dúvida. Era uma outra América que aí vinha. O mundo do “não vale tudo” tinha sido posto definitivamente de lado. Valeu tudo: liberdades públicas, discriminação étnica, Abu Ghraib, torturas, Guantanamo, Iraque, centenas de milhares de mortos. Foi tudo em vão? Não foi, mas não me consta que os ódios se tenham atenuado, a “rua árabe” não sossegou, as suas “primaveras” invernaram de vez, no Afeganistão as coisas são hoje o que são.

Se o 11 de setembro foi o “dia zero” para um outro mundo, estaremos assim tão longe dele, vinte anos e milhões de gastos e de sofrimentos depois? A História anda devagar, olhando para Cabul, parece mesmo estar sem grande pressa.

3 comentários:

Joaquim de Freitas disse...

Se eu soubesse escrever assim, era assim que teria escrito....Vejo a História da mesma maneira, Senhor Embaixador.

Se as vitimas do 11 Setembro soubessem o que vinte anos mais tarde se diz do Afeganistão…

A guerra no Afeganistão começou em resposta dos Estados Unidos e seus aliados da NATO aos ataques de 11 de Setembro de 2001, como uma operação para negar o santuário da Al Qaeda num país administrado pelo Talibã. Só que havia outro santuário ao lado, do qual, por razoes estratégicas não convinha falar: O Paquistão.

Os artigos do Afeganistão publicados no The Washington Post — incluindo um projeto confidencial para identificar "Lições Aprendidas" conduzidas pelo Gabinete do Inspector-Geral Especial para a Reconstrução do Afeganistão, uma agência criada pelo Congresso — pintaram um quadro devastador de corrupção, incompetência, falta de motivação e outras falhas entre as forças afegãs que os Estados Unidos e os seus aliados estavam tentando moldar em um exército sério.

Um oficial da Marinha disse que os afegãos viam sua polícia como "a instituição mais odiada" no Afeganistão. Outros oficiais descreveram saques sistemáticos de soldados e oficiais, bem como as baixas afegãs tão grandes - 60.000 mortos desde 2001, por uma estimativa - que o governo os manteve em segredo.

A corrupção era tão desenfreada que muitos afegãos começaram a questionar se seu governo ou o Talibã eram o maior mal.

Foi por esta gente que tantos morreram…a partir do 11 Setembro2001.

Flor disse...

Arrepiante! Só! Muito obrigada pelo seu testemunho.

Jaime Santos disse...

Por uma vez, Joaquim de Freitas, concordo consigo. Aliás, recentemente no Guardian um antigo soldado britânico que providenciava proteção aos ocidentais que trabalhavam para a NATO relatava uma conversa entre uma americano que ele escoltava e uma advogado afegão.

O americano insurgia-se com a corrupção na força aérea afegã, que providenciava transporte aos Taliban em todo o País, e dizia ao afegão que ele tinha que se livrar dos corruptos, ao que este retorquiu que o americano não quereria desmobilizar toda a força aérea afegã, pois não?

E relativamente ao Paquistão, também estou de acordo, só que Bush e companhia não queriam consumir as Forças dos EUA a atacar um País que seria capaz de se defender... Um País que aliás, sempre protegeu a Al-Qaeda... Poderíamos também falar, claro, da Arábia Saudita...

Os americanos podiam ter declarado vitória em 2002 e aceitado a rendição com condições dos talibã e promovido um acordo político. Desgraçadamente, a arrogância da administração Bush (que, insisto, teve, ao contrário do Iraque, um casus belli para atacar o Afeganistão, tanto que o Conselho de Segurança aprovou a invasão) impediu que isso acontecesse.

De qualquer forma, estavam provavelmente demasiado ocupados com a preparação da Guerra no Iraque.

Mas não sejamos ingénuos. Quando se faz a guerra, morrem inocentes. Não consta que russos, quando intervêm na Síria, sejam exatamente meigos, por exemplo.