sexta-feira, 17 de setembro de 2021

As lições de Cabul


O que se passou em Cabul, com a atabalhoada saída dos americanos e o colapso, praticamente sem resistência, de uma administração local apoiada por umas forças armadas que se presumia já capazes de suster uma guerrilha, maculou seriamente a imagem dos EUA no mundo.

Observar aquela que é, a grande distância, a maior potência mundial, a cair num erro de cálculo daquela dimensão, induz uma inevitável sensação de fragilidade, quase de “naïveté”, que contrasta muito com o retrato que os americanos sempre se dedicaram a projetar de si próprios.

O temor ao poderio das grandes potências foi sempre uma das mais relevantes componentes da dissuasão. Mostrar “pés-de-barro”, sob os holofotes, não é nada prestigiante.

Gostaria, no entanto, de deixar aqui uma nota de prudência. O saldo do Afeganistão para os americanos, sendo indiscutivelmente penoso, tem leituras algo diferentes dentro e fora da América.

Muito em especial depois da aventura iraquiana, a tendência dominante, na opinião pública americana, vai no sentido de favorecer um recuo da afirmação militar do país pelo mundo, em especial no modelo “boots-on-the-ground”.

A eleição de George W. Bush em 2000 já havia sido, aliás, uma resposta àquilo que muitos consideravam ser o excessivo envolvimento externo que, em parte dos seus oito anos, Clinton tinha protagonizado na Casa Branca.

O Iraque era uma espinha encravada na memória da família Bush, mas convem lembrar que o adversário favorito dos “falcões” que acompanhavam o débil presidente - Cheyney, Rumsfeld e os teóricos “neocon” - já era então a China. Foi o 11 de setembro que inverteu conjunturalmente as prioridades.

O recuo desta deriva começa a ser feito por Obama, um presidente que demonstrou uma patética incapacidade para ler os sinais do tempo internacional, deixando a América, pelo mundo, num estado bem pior do que aquele em que a encontrou. É verdade que a emergência de Trump como que veio “absolver” quase tudo, mas há que ser fiel a essa verdade.

Obama, depois Trump e, agora, Biden, ao prosseguirem uma linha de recuo no envolvimento militar, respondem a um sentimento profundo que prepondera na opinião pública americana: “bring our boys back”.

Volto ao que atrás escrevi. O mundo interpretou o que se passou no Afeganistão como uma imensa humilhação para os americanos - com tristeza para os amigos e aliados da América, para quem Washington é um chapéu de proteção e com quem há sempre algum grau de sintonia, mesmo nos piores dias, mas com um “esfregar-de-mãos” de satisfação por parte de quantos, ainda que deste lado do mundo, têm a americanofobia como a sua doença infantil de estimação.

Mas não nos enganemos: mesmo que Biden tenha descido nas sondagens depois do fiasco de Cabul, o sentimento interno americano sobre esse desaire teve um impacto substancialmente menor do que aquele que se projetou pelo mundo. Repito: os americanos, em geral, gostaram de ver os EUA fora do Afeganistão, naturalmente tendo preferido que isso tivesse ocorrido de outra maneira. Mas o essencial, para a opinião pública americana, era que as suas tropas saíssem.

Agora, no quadro das reflexões dos “think tanks” americanos, mais democráticos ou mais republicanos, vamos assistir a exercícios de “lessons learned”, que não deixarão de ter consequências na reformulação da própria doutrina operativa futura das forças armadas e da “intelligence” dos EUA.

As lições de Cabul, contudo, vão ser apreciadas, com grande atenção, em outras geografias, já não num registo analítico frio, mas num quadro de alguma angústia.

Se pensarmos que os EUA têm hoje previstos movimentos de “desengajamento” de tropas, embora parcial e faseada, de vários teatros geopolíticos (Alemanha, Japão, Coreia do Sul, Bahrein, Kuwait, Arábia Saudita), onde a sua presença funciona como um conforto de segurança para aliados, que se consideram sob riscos que não se atenuaram e, em alguns casos, até se agravaram pela leitura receosa que fazem da nova assertividade da China e das tensões com o Irão, teremos de concluir que a quase complacência americana com o regresso dos talibãs vai fazer soar algumas campainha de alarme. Desde logo, muito em especial, em Taiwan.

6 comentários:

Jaime Santos disse...

Quase que assino por baixo, mas discordo de si em dois pontos.

Primeiro, não me parece que Bush fosse de todo débil, a sua feição de simplório era postiça e representava uma piscadela de olho ao anti-intelectualismo do eleitorado republicano (com que pelos vistos gozava em privado).

Duvido também que Taiwan tenha algo a temer da retirada desastrosa do Afeganistão. Aliás, penso que a América retira do Afeganistão também porque se quer concentrar naquela que vê como a principal ameaça, a saber, a China.

A retórica belicosa americana em relação a este País, em resposta à expansão das capacidades militares da China no Indo-Pacífico e as provocações aos vizinhos, nomeadamente a Taiwan, e o recente anúncio da aliança Aukus, parecem querer mostrar à China que os EUA se preparam para a enfrentar...

Unknown disse...

Pois.
Os EUA saem do Afeganistão, como entraram, sem dar cavaco a ninguém (nem ao governo que eles lá investiram), deixando atrás, depois de 20 anos de ocupação, o caos, mas sabendo que os aliados, mansos, terão que ir atrás de qualquer nova invasão, "legitimando" aquilo que a eles lhes apetece fazer, seja bom, seja mau. E outros, como nós, irão...
E despudoradamente, dias depois - depois de negociatas de meses ou anos, sem que os seus "aliados naturais" fossem consultados - apresentaram uma nova "coligação" com a Grã Bretanha e a Austrália que se prepara para infernizar as relações internacionais no mar da China. E tudo, triturando princípios de decência diplomática. E os comentadores de serviço suavizarão tudo isso, como se lhes pede...
MB

Luís Lavoura disse...

Este artigo teria ficado a ganhar se o Francisco se tivesse abstido de usar nele tantas expressões em inglês ("bring our boys back", etc) e tivesse em vez delas usado traduções adequadas e conpreensíveis para um leitor que não seja perito em expressões americanas.

Luís Lavoura disse...

Duvido também que Taiwan tenha algo a temer

Claro que não tem, do ponto de vista militar (que é o que se está a discutir aqui). A China não tem quaisquer intenções agressivas (militarmente falando) relativamente a Taiwan. A quem interessa agitar o espantalho de tais supostas intenções? Ao complexo militar-industrial dos EUA, evidentemente.

Luís Lavoura disse...

quantos têm a americanofobia como a sua doença infantil de estimação

A americanofobia não é uma doença infantil. É um síndrome de muitíssimos adultos. Inclusive de todos (incluindo, creio, o Francisco) quantos rejeitaram a invasão do Iraque em 2003. É o síndrome da rejeição da atuação militar americana a torto e a direito, sem dar satisfações a ninguém, múltiplas vezes em múltiplas partes do mundo.

Joaquim de Freitas disse...

O Sr.Luis Lavoura escreveu muito bem: "A americanofobia não é uma doença infantil..." Segue uma lista de sindromes que subscrevo. Em particular a "actuaçao militar americana a torto e a direito, sem dar satisfações a ninguém." Exacto. Mas hà mais !

Ao contrário de tudo o que o exterior acreditava, este país, os EUA, desintegrou-se em 26 de Dezembro de 1991 com a União Soviética.

"A guerra não se ganha, quem ganha a guerra é aquele que morre em último e todos morrem juntos."

A eleiçao de Clinton à presidência foi o ponto de bifurcação que levou o outro beligerante aonde está hoje:

a)Clinton desregulamentou todas as atividades económicas do país – corrompidas por pessoas sombrias que lucraram com isso. Assim, concentrou centenas de empresas de informação em 6 grandes grupos (que valem 400 bilioes de dólares) que controlam toda a informação que o governo quer deixar filtrar - a CIA paga a estes grupos pelo seu programa de "Perception Management".

Esta "gestão das perceções" não se limita aos EUA - é praticada em França, na Alemanha e em todos os outros Estados vassalos. "Die Gekaufte Journalisten". São então estes prostitutos da CIA que cobrem as guerras de "democratização" e "humanitárias" no mundo, utilizando os guiões "scripts") que lhes são impostos.

Bem-vindo ao mundo livre !!!

b) Clinton encontrou-se num mundo onde era o único mestre do universo e onde tudo lhe era permitido.
Encontrou um Mandela na África do Sul no final da sua força e impôs-lhe o liberalismo económico em troca da sua coroação como novo presidente pós-apartheid.

Encontrou em Yelsin um bêbado que poderia ser utilizado para garantir que "a Rússia nunca mais voltaria a representar uma ameaça para a América."

"O governo secreto" tornou-se então todo-poderoso e pronto para matar tudo o que se move no mundo e não se submete à vontade dos "mestres do universo".

Alguns acreditam que na América a mudança de governo significa mudança de política externa - FALSO! O novo rosto que está na Casa Branca está sob o controlo absoluto do "governo invisível" .
e
se ele se atrever a fazer o que J.F. Kennedy fez (recusar-se a atacar Cuba, negociar com Krutchev) está acabado. Todos os governos se seguem uns aos outros e parecem iguais, mesmo que a Suécia decida atribuir um Prémio Nobel da Paz a um criminoso de guerra!

Aventuras:

Chuva de mísseis no Sudão
Chuva de mísseis e drones no Paquistão
Destruição da Sérvia
Destruição da Somália,
Ataques à América por "o governo invisível" para justificar outras aventuras
Destruição do Iraque
Destruição do Afeganistão
Destruição da Líbia
Destruição da Síria
Rejeição unilaterial dos acordos estratégicos de defesa de Reagan com a URSS
Vassalização total dos países europeus - aposto que o General de Gaulle se move na sua sepultura e nunca perdoará Sarkozy pela venda da França à NATO.
Desestabilização da Venezuela
Desestabilização do Irão
Tentativa de bloquear a China
Tentativa de bloquear a Rússia
Criação de mais de 700 bases militares em 130 países - A nova de Roma !

Consequências destas aventuras: a dívida pública do governo federal subiu de quase $0 em 1992 para $20 trilioes hoje.
A dívida dos EUA (incluindo todos os Estados) é de 67 biliões de dólares.

Acredita sinceramente que esta soma colossal será reembolsada um dia?
Quem se desintegrou em 1991? A URSS? ou os EUA?

Só vejo como solução que uma guerra sem fim para esconder todos os problemas. Mas um dia
virá , como aconteceu a Roma outrora, em que já não será possível...

Vai ser preciso um enorme guarda-chuva, porque o dilúvio aproxima-se...


PS) A partir de hoje, em França, depois da "facada nas costas" de Biden, e do "clown" do 10 Downing Street, a americanofobia cresceu muito...