segunda-feira, 27 de setembro de 2021

Democracia


A beleza inultrapassável da democracia é colocar na mão dos eleitores, por um dia pessoas iguais umas às outras, no exato momento em que colocam o seu voto na urna, o poder de decidirem quem vai gerir o seu destino coletivo por algum tempo. É essa imprevisibilidade do “humor” dos cidadãos que torna genuíno e legítimo o desfecho do seu exercício de vontade. Para alegria de uns e para tristeza de outros.

Ontem, as cores políticas que são as minhas tiveram algumas vitórias e derrotas. Bastantes mais vitórias do que derrotas. Senti algumas dessas vitórias como muito reconfortantes, mas devo confessar que tive uma derrota que muito me custou. A perda da Câmara de Lisboa para uma coligação que, ideologicamente, está nos meus antípodas, é um momento de tristeza que não posso nem quero esconder. 

Fiz parte da Comissão de Honra do meu amigo Fernando Medina nas duas eleições que disputou. Fi-lo convictamente, porque considero - pelos vistos, ao contrário de uma maioria dos votantes de ontem, nesta minha cidade - que ele foi um excelente presidente da Câmara de Lisboa. É um homem e um político de uma grande seriedade e com um elevado sentido de serviço público. Deu tudo a Lisboa e dedicou-se ao seu trabalho com todo o empenhamento. Os lisboetas tiveram outra leitura das coisas, o que temos de respeitar. Como referi no início deste texto, a liberdade de escolha, a cada instante, é a grande virtualidade da democracia.

Os votantes lisboetas optaram por Carlos Moedas, figura que eu, equivocadamente, julguei ser um erro de “casting”, para o exercício deste cargo em particular. Como sempre afirmei, foi um excelente Comissário Europeu, é uma pessoa de bem e um amigo que prezo. Ele sabe que a sua vitória não me deixou feliz, como também sabe que é com grande sinceridade que, a bem de Lisboa, ao felicitá-lo, lhe desejo as maiores felicidades no seu trabalho nos tempos que terá pela frente.

A vida continua.

9 comentários:

José Lopes disse...

No silêncio da cabine de voto, uns socialistas (muitos, poucos?), indefetíveis de José Sócrates, resolveram punir o Medina...

José Figueiredo disse...

Caro Embaixador,
Eu também sou amigo e eleitor do PS e se votasse em Lisboa seria em Fernando Medina, sem qualquer "variação de humor". Mas não considero Moedas um político nos antípodas do que nós pensamos. Se for assim a democracia é difícil. E o PSD é o partido do espectro político com quem o PS tem de fazer muitas coisas se as quiser fazer. Dizia um político alemão (Público de sábado) que os problemas não têm cor e muitas das soluções também não. Eu sei que a escolha dos problemas não é neutra, a escolha é política, mas os problemas existem antes da escolha. Quanto às soluções, em democracia, devemos escolher as que melhor satisfazem os cidadãos o que, muitas vezes, exige consenso entre partidos governantes. Nunca serei defensor do acirramento das diferenças, sobretudo de modo artificial: "sou muito de esquerda".

Cumprimentos cordiais,
José Figueiredo

Jaime Santos disse...

A decisão colectiva faz-se à custa de milhares de decisões individuais cujo resultado, mau grado as sondagens, é imprevisível e esta é sem dúvida uma das qualidades desta democracia imperfeita em que vivemos.

Bem melhor que a unanimidade norte-coreana que às vezes se espelha dentro dos Partidos democráticos, PS incluído, quando estão no poder.

E seguramente infinitamente melhor que as Cubas, Venezuelas, Rússias ou Chinas por esse mundo fora, umas que não se dão ao trabalho sequer de realizar eleições, outras em que o vencedor é conhecido à partida e outras ainda que mudam as regras depois do jogo quando o resultado desagrada ao títere de serviço...

Isto dito, é com alguma tristeza que se reconhece que foi a divisão das Esquerdas que deu a vitória a Moedas, fruto do sistema 'first past the post' que por razões que não descrutino, continua a vigorar na eleição para a Câmara Municipal e que deve ser um dos maiores contributos para o caciquismo eleitoral que ainda vigora entre nós a nível municipal...

Parece que foi o Livre o único partido a reconhecer que perante uma aliança da Direita, era necessário uma à Esquerda que a defrontasse.

Particularmente penosa foi a vitória pírrica de João Ferreira, cujo resultado não lhe servirá para nada, a não ser que queira servir de muleta a Carlos Moedas. Tivesse Ferreira ido a votos em Loures e provavelmente essa câmara não teria ido parar às mãos do PS...

Tenho um pequeno consolo, a perda da maioria absoluta por Rui Moreira e o resultado de Tiago Barbosa Ribeiro, que apesar de ser a pior derrota do PS no Porto, foi bastante melhor do que as sondagens iniciais faziam prever, depois de uma campanha em que o deputado me surpreendeu pela positiva.

António Costa faria bem em perceber que, depois de todo o envolvimento seu na campanha, eclipsando inclusive os principais candidatos do PS, o resultado tem claramente uma leitura nacional que reflete o desgaste do seu Governo. Desgaste inevitável face à usura do Poder e em particular à situação de pandemia, mas também devido à sua proverbial teimosia de manter quem já não tem condições de continuar como Ministro. A começar por Eduardo Cabrita...

Espero ainda que numa eventual remodelação Costa não se esqueça de que o quadro Fernando Medina é uma mais valia para o PS e de que o seu curriculum vale mais do que a mera perda reputacional causada pela derrota autárquica...

Seja como for, não serão muitos os que aceitarão ir para o Governo no contexto da atual crise, mas Medina será certamente alguém com quem o PS poderá sempre contar...

Portugalredecouvertes disse...

Com os nossos votos de que todos os eleitos serâo grandes defensores do bem publico!

Flor disse...

"a liberdade de escolha, a cada instante, é a grande virtualidade da democracia."

José disse...

Calculo que o RAP dissesse que, entre dois choninhas, ganhou o melhor.

Nunca na vida me passaria pela cabeça que o Moedas ganhasse mas - que raio! -, que alegria que me trouxe. Não por ele, não por Lisboa, mas pelo Rui Rio.

Apetece-me dizer que por umas moedas o Rio comprou um enorme melão para muitos.

Dito isto, se eu tivesse o azar de ser lisboeta, votaria no Medina porque é um facto que foram feitos imensos e evidentes melhoramentos na cidade.

Jaime Santos disse...

José, olhe que o Costa deve ter ido para a cama a pensar que mal por mal, antes o Rio que qualquer um dos outros...

Every black cloud has a silver lining...

José Lopes, muito bem observado. O que eu duvido é que os indefetíveis de Sócrates sejam em número suficiente para contar para alguma coisa...

Tony disse...

Sr. Embaixador. Votei no PS, para: Câmara, Assembleia Municipal e Junta de Freguesia. Perdi, em duas: (Câmara e Junta de Freguesia). O Medina, quanto a mim, perdeu, por ausência de muitos seus convictos votantes, não terem aparecido, por considerarem que, face a Moedas, eram favas contadas. Conheço, alguns casos. As sondagens, davam larga percentagem de avanço. Porque o Moedas estava numa alargada coligação, o Fernando Medina, chegou a propor ao PCP e BE, uma coligação (à Sampaio) e levou tampa. Se tivessem aceitado, outro galo cantaria.

Resta-me a consolação e dada a minha provecta idade, (mais de 65), esperar pela concretização das promessas de Campanha, do Presidente Carlos Moedas, entre outras boas coisas: o passe grátis da Carris e um seguro, de saúde, igualmente grátis, 50% de desconto na EMEL, para além das isenções de IRS, etc. Vai ser, em grande!.

Carlos disse...

Fernando Medina foi bastante combativo nos debates e ficaram evidente as incoerências e falta de profundidade do programa de Carlos Moedas. Todavia não se pode ignorar o desgaste causado por uma gestão que para muitos lisboetas esteve longe de ser consensual (a novela das ciclovias e muitas obras que pareceram mais orientadas para os visitantes / turistas do que para os habitantes de Lisboa, o capital de antipatia. da EMEL), foi incapaz de mostrar resultados significativos na magna questão de acesso à habitação, deixou muitas vezes os munícipes à mercê da burocracia camarária (a novela da partilha de dados com as Embaixadas é só um exemplo), foi condescendente com comportamentos política e eticamente inaceitáveis (caso da Presidente da Junta de Freguesia de Arroios). Para completar o cenário a percepção alimentada pelas sondagens de que “estava ganho” levou a uma abstenção massiva de pessoas que num cenário de disputa mais dramatica teriam provavelmente votado em Fernando Medina.

António Costa que persiste em não renovar o governo e olha para o lado perante as gafes e incoerências de ministros esgotados foi a cereja no bolo.

Uma pena para Fernando Medina, para Lisboa e também para o PS que fica à mercê de Pedro Nuno Santos