quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

Um poder solitário


Há dias, ao ver o ministro russo Sergei Lavrov assumir uma atitude de arrogância para com o chefe da “diplomacia europeia”, Josep Borrell, travei, num segundo, a vontade de rir que a cena me deu. Era a União Europeia que ali estava a ser humilhada - e isso não deve regozijar quem se sente solidário com esse projeto. Naquele instante, contudo, tive uma melhor perceção do drama que, nos dias de hoje, atravessa o poder europeu, na sua expressão internacional.

Não vale a pena entrar muito pelo detalhe do óbvio, que já foi dito e redito: a União Europeia é um gigante económico e um anão político. Já foi mais gigante e já foi mais anão. Sob o impulso de alguns Estados membros e desajudado por outros, a União tentou, nas últimas décadas, afirmar-se no cenário internacional das potências. Quer o Brexit quer os anos Trump funcionaram, contudo, a contra-ciclo desse objetivo, a que o Tratado de Lisboa tinha procurado dar algum músculo internacional.

Onde está hoje a Europa, como poder, pelo mundo?

Com a Rússia, depois de, há anos, ter alinhado na aventura ucraniana da administração Obama, soprada pelo ódio anti-Moscovo que prevalece no Leste da sua geografia, a União tem a relação que ficou patente na cena Lavrov-Borrell. Há quem deseje um divórcio total com Moscovo, há quem veja a Rússia como parceiro incontornável mas, por ora, algo incontrolável.

Com os EUA, ignorada no primeiro discurso sobre política externa de Joe Biden, Bruxelas pode estar já a pagar o preço de um apressado “acordo de princípio” de investimento com a China, o qual, sendo uma afirmação legítima da sua “autonomia estratégica”, arrisca consequências nefastas no relacionamento transatlântico. Se o pendor multilateralista da nova administração americana abre um mundo de esperanças, há muito quem, na Europa, não esteja disponível a comprar a boa vontade americana a custo de uma subalternização e tutela política.

Com a China, a Europa não se decidiu ainda sobre o que fazer: como compatibilizar o aproveitamento das fantásticas oportunidades económicas sem perder o ensejo de se mostrar firme perante as posturas autocráticas, e estrategicamente desafiadoras, de Beijing.

E poderíamos continuar, por aí adiante. A verdade é que a União Europeia dos novos tempos é um compósito com contradições internas longe de superadas, espelha interesses frequentemente contraditórios e, o que é mais preocupante, não parece a caminho de afirmar uma unidade de propósitos estratégicos. Ora isso é que carateriza uma potência.

7 comentários:

Luís Lavoura disse...

se mostrar firme perante as posturas autocráticas, e estrategicamente desafiadoras, de Beijing

(1) A União Europeia não tem nada a ver com a forma autocrática como a China se governa. Isso é problema exclusivamente dos chineses. A União Europeia não se deve dar mal com a China por esta ser autocrática. Nem tem nada que lhe dar lições de política interna.

(2) A China não é estrategicamente desafiadora para a União Europeia, que está no lado oposto do continente eurosaiático. A eventual estratégia desafiadora da China não é problema que afete a União Europeia, nem deve ser motivo para esta ter más relações com a China.

septuagenário disse...

A Europa está em vias de instinção há mais de 100 anos, por culpa própria.

O europeu não se reproduz, o europeu não produz, o europeu vai ficar em minoria com a invasão da imigração, o Brexit, não passa de uma tentativa de os ingleses escapar a este drama.

Como os chineses, que há mais de 30 anos se dão muito bem com os alemães, venham um dia em socorro em qualquer hora de aflição maior.

Foram os alemães os principais aliados da china para se industrializarem e modernizarem.

Eles vão reconhecer! quando for necessário.

carlos cardoso disse...

A União Europeia não deveria ter um alto representante para a política externa porque a União Europeia não tem, nunca teve e não tem competência para ter uma política externa comum. Que eu me lembre, nunca o senhor Borrell ou qualquer dos seus antecessores fez ou disse qualquer coisa de útil: quando não são irrelevantes tendem a ser ridículos, como foi agora o caso.

J.Tavares de Moura disse...

A única forma da União Europeia se consolidar, fazer avançar o seu projecto integrador e os valores fundacionais é preservar a sua existência.

Quais são as principais ameaças externas à integridade e existência da União Europeia?
A resposta é clara: 1) Rússia; 2) o governo conservador do Reino Unido; 3) Estados Unidos da América (mais óbvio com Trump, menos óbvio com Biden);

Todos vêem na União Europeia uma ameaça aos seus interesses económicos e políticos. Ainda que por razões muito diferentes todos querem ver a União Europeia a desintegrar-se, ainda que possam afirmar o contrário em público.

A China tem sido, e continuará a ser, um parceiro económico estratégico da União Europeia. Não representa nenhuma ameaça à sua existência nem à sua integridade. Não tem, ao contrário de outras potências, um projecto de hegemonia para a Ásia nem para o mundo. Nunca foi, na sua longa história de séculos, uma potência hegemónica, ao contrário do Japão. O caso do conflicto no mar da China é complexo e alguma propaganda tende a apresentá-lo como prova da ambição hegemónica da China no Oriente. Mas quando analisado em conjunto com a legitima reivindicação da soberania sobre Taiwan percebe-se que isso é um grande exagero e não passa de propaganda.

Na China vigora um regime autoritário, cerceador das liberdades e não conforme com o respeito pelos direitos humanos. Mas isso deve impedir que a União Europeia desenvolva a sua parceria estratégica com a China? Não, de modo nenhum.
No contexto actual a China é o principal aliado estratégico da União Europeia e a única das grandes potências que quer tal como a EU o reforço das instituições multilaterais, como as Nações Unidas.

A China, mudou imenso nas últimas décadas, sobretudo com Deng Xiaoping e a partir daí. Continua a mudar a uma velocidade vertiginosa. Essa mudança está a gerar a maior classe média do mundo, composta por pessoas com níveis de educação e qualificação idênticos ao do primeiro mundo, que viajam muito mais que os seus pais ou avós. Pode-se alegar que as suas aspirações à liberdade e democracia não são, por agora, visíveis. Mas, tal como todos os outros humanos, eles lêem, ouvem e vêem.

Jaime Santos disse...

Sr. Septuagenário, lamento informá-lo, mas a Europa anda a ser 'invadida' há muito mais tempo do que isso. Eles foram os indo-europeus, os fenícios, os árabes, os magiares, os mongóis (sim, a Hungria e a Rússia, por exemplo, foram ocupadas por estes povos asiáticos), os turcos e provavelmente esqueci-me de muitos outros.

Todos esses povos influenciaram a cultura da Europa (e deixaram por cá o seu sangue, leia-se os seus genes) e não consta que nós nos tenhamos extinto por causa disso.

E a todos estes vale a pena acrescentar naturalmente os judeus que vieram obrigados e nunca tiveram por cá paz, mas os Portugueses em particular são também descendentes do seu ramo sefardita.

E depois, claro, basta pensar nas migrações intra-europeias, incluindo a Portuguesa a partir dos anos 50-60 para a Alemanha, Luxemburgo, França, Suíça... Se o que o preocupa é a pureza dos europeus, lamento informar-lhe que deve haver poucos povos mais bastardos do que os nós...

E não foi essa mistura que impediu as conquistas culturais que os europeus legaram ao mundo assim como, claro, os muitos disparates e crimes que cometeram.

Para terminar, devo dizer que não percebo bem o pseudónimo que adoptou. Deveria ter-se chamado ao invés nonagenário. As suas ideias eram populares era nos anos 30...

Luís Lavoura disse...

Excelente comentário de J. Tavares de Moura.

A China [n]ão tem, ao contrário de outras potências, um projecto de hegemonia para a Ásia nem para o mundo

Exatamente. É claro que os EUA não conseguem perceber isso, porque julgam que todos os países poderosos são como eles, que todos eles querem conformar todos os outros segundo o seu modelo. Mas a China não é assim: a China sempre se considerou como uma civilização e um povo à parte, que não quer nem acredita ser possível que outras civilizações e outros povos a imitem. A China sempre quis que os outros países a respeitassem e aceitassem a sua superioridade, mas nunca quis conquistar esses países nem que eles a imitassem. A China nunca procurou conquistar os países estrangeiros nem teve projetos hegemónicos em relação a eles; apenas pretende que eles reconheçam e respeitem o grande poder da China.

Vale a pena ler o último livro de Kishore Mahbubani "A China já ganhou?" para perceber bem o que a China é - e sempre foi.

septuagenário disse...

Obrigado senhor Jaime Santos pela sua aula que vem corroborar o que eu disse, eu apenas assinalo os ultimos cem anos porque tem acelerado o fim do europeu.

Isto é, desde as grandes guerras e da invasão acelerada por terra mar e ar.

O que não acontece, com africanos, asiáticos, japoneses, que se vão manter, reproduzir e produzir.

O Europeu, como raça (etnia), e como cultura, vão ficar apenas uns resquícios tal como, com certos indios que o europeu fez desaparecer.

Obrigado , de facto tem razão, lentamente a exterminação já se adivinhava, só que ia havendo alguma resistência, agora o europeu deixou cair os braços.

Nós portugueses, como mestiços, já nem somos tidos em conta.