terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

Os estaleiros


Desde que, em criança, passei a ir de férias, todos os anos, para a terra do meu pai, Viana do Castelo, os “estaleiros” faziam parte do meu cenário da cidade. Rara era a pessoa conhecida que não tinha familiares que ali trabalhavam. Quando se atravessava o campo da Senhora da Agonia, para as tardes na Praia Norte, vinham dos estaleiros barulhos metálicos imponentes, com sirenes que soavam estranhas ao miúdo que eu então era. Os estaleiros eram parte integrante da personalidade da cidade, como a ponte Eiffel ou Santa Luzia. Para mim, que vinha de uma Vila Real quase sem indústria, aquilo e a vizinha doca comercial eram um luxo que dava a Viana um ar de grande urbe.

Veio o 25 de abril e surgiram muitas notícias dos estaleiros, falava-se de navios vendidos à Rússia. Depois, com o correr do tempo, os jornais trouxeram relatos sobre os altos e baixos daquela fábrica de barcos. Há uma década, viu-se Viana na rua, mobilizada pela polémica que envolveu a privatização dos estaleiros, um assunto que se transformou num caso nacional. Agora, de quando em vez, os estaleiros ainda voltam à baila.

Há pouco tempo, vi que a Câmara Municipal de Viana publicou um livro intitulado “O Estaleiro da saudade - gerações, cultura e desfecho”. Como expectável, é uma memória nostálgica assente no outro tempo dos estaleiros. É uma peça editorial bonita e bem documentada, que acolhe memórias e imagens, para mim inéditas, de outros tempos da empresa, com notas humanas das alegrias e tristezas de quem nela trabalhou. Curiosamente, o livro não se fecha apenas no passado, soube abrir a porta àquilo que aquela empresa hoje é, embora não escondendo nunca para que lado o seu coração pende.

Li, com gosto, “O Estaleiro da saudade”. Aprendi bastante sobre uma realidade que, embora sempre ali estivesse, por décadas, à frente dos nossos olhos, arrastava, por detrás das suas paredes, muitas vidas e muitas emoções.

7 comentários:

Luís Lavoura disse...

as tardes na Praia Norte

Iam à praia de tarde? Que estranho... Nas praias nortenhas há Nortada à tarde. Eu também passei os verões da minha infância numa praia nortenha (Mindelo), porém íamos à praia sempre somente de manhã, porque era certo e sabido que à tarde não se podia lá estar.

Luís Lavoura disse...

fábrica de barcos

"barcos"?! Eu diria navios.

aguerreiro disse...

Eu associo sempre "os finalmente" dos ENVC ao actual presidente da Câmara Municipal
-De luto vestido, qual cangalheiro, a depositar uma coroa de flores á porta dos ENVC a rezar eventuais padres nossos e avés marias.
-Dois ou três anos após o mesmo dito cujo, a pavonear-se, saracoteando entre o António Costa e a Carla Bruni, entre bandas e champagne!
O TEMPORA, O MORES!
No tempo da 1ª República seria um "adesivo". Agora não sei.

Ferreira da Silva disse...

aguerreiro:
Não sou de Viana do Castelo, não conheço o Sr Presidente da Câmara, nem tenho qualquer relação com os "Estaleiros".
Todavia, acompanhei pela comunicação social o processo de privatização da empresa. E, o que "aguerreiro" refere, é a verdade, sem tirar nem pôr.
Vi, pela televisão, o Sr Presidente da Câmara a "fazer o funeral".

Portugalredecouvertes disse...

Não se percebo porque se deixam perder as indústrias,
depois "choram" porque não se produz nada?!

amf disse...

Os Estaleiros de Viana são um óptimo exemplo da importância do mérito na gestão.

Enquanto teve gestores de qualidade foi –lhe possível tirar partido da dedicação dos seus profissionais e, com a ajuda robusta das politicas europeias para o sector, encontrar nichos de mercado compatíveis com a sua dimensão e equipamento .

Entre outros, será justo destacar o Eng. António Duarte Silva.

Quando deixou de ter uma liderança competente, o mercado não perdoou e a deterioração era crescente – e não havia apoio público que bastasse!

Impressiona que a machadada final tenha sido dada por um Cliente público que terá usado e abusado do seu maior poder contratual e de gravosos erros de negociação por parte do Estaleiro.

Claro que as flores do cangalheiro e o champagne, lembrados em comentário anterior, são um retrato dos protagonistas, mas não deixam de ser ilustração dos tempos recentes e do que parece ser uma feliz recuperação.

Tive pena de que o post não tivesse incluído um comentário do observador atento e politico experiente que o Senhor Embaixador é .

antónio m fernandes

Entrementes disse...

leiam a descrição dos Estaleiros de Viana em "A Velha Casa" de José Régio (vilacondense)-