quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

À flor da pele


Vivemos um tempo de tensões à flor da pele. O país responsável está visivelmente assustado com a pandemia, as pessoas vêem a sua vida subvertida, num horizonte que não conseguem limitar, e, não vale a pena esconder, paira uma erosão na confiança num poder público que, fazendo seguramente o melhor que sabe e pode, oferece um saldo efetivo de realidade pouco palpável. Morreu já muita gente, muita mais do que, há poucos meses, muito pensavam ser possível.

Politicamente, sente-se que as pessoas estão hoje acantonadas em trincheiras. As redes sociais, esses novos megafones da democracia, são disso um exemplo claro.

Os adeptos do governo, confortados pelas sondagens, entendem que seria impossível fazer-se melhor, que há razões externas e comportamentos sociais internos que ajudam a explicar o que se está a passar. Louvam as autoridades, a dedicação dos governantes, denunciam a falta de solidariedade subjacente às atitudes críticas, num momento coletivo desta gravidade, olham a comunicação social como abutres que exploram insegurança das pessoas, contribuindo para o desânimo coletivo.

Os críticos da governação apontam o lugar objetivo de Portugal no “ranking” triste da tragédia, sublinham as contradições e os vai-e-vem, denunciam a falta de rigor na questão das vacinas e dos seus fura-filas. E notam o caos em muitos hospitais, o que não foi feito e teria sido prometido. E porque o unanimismo, na sua perspetiva, nada resolve, acham que é democraticamente legítimo, e releva da transparência exigível, expor o que está mal e chamar à responsabilidade quem tem obrigação de responder pelo estado das coisas.

Até ver, a bissetriz possível, na terra de ninguém entre estas duas frentes, parece chamar-se Marcelo Rebelo de Sousa. Podemos imaginar que hoje, mais do que nunca, se sinta tentado a ser um verdadeiro provedor dos portugueses. Provavelmente, também ele se exaspera com as insuficiências evitáveis em alguns setores, mas igualmente se irrita com quem cavalga os percalços oficiais para alimentar a chicana política. Conhecendo, como bem deve conhecer, os erros cometidos, mas também as deficiências que pouco dependem das vontades, tendo ele próprio pisado o pé em ramo verde por palavras a mais, é dele que o país parece esperar alguma neutralidade, na abordagem, com a serenidade e equanimidade possíveis, do modo como a pandemia está a ser gerida. E o país parece entender que o seu papel tem sido positivo. Pelos vistos, seis em cada dez portugueses também terão achado isso.

1 comentário:

Joaquim de Freitas disse...

Como se diz em francês : »c’est la pagaille », no seio dos governos, como ao nível mundial. Há muito dinheiro envolvido no assunto, o que torna o problema mais bicudo. E não creio que seja a culpa das redes sociais.

Todos sabem que, perante esta pandemia, ninguém será protegido até que todos estejam protegidos. Infelizmente, por enquanto, é o oportunismo e o nacionalismo dos mais ricos que triunfam. Ver Boris e a vacina Astra, ou a vingança do Brexit…

E os benefícios da indústria farmacêutica: embora estivesse constantemente a pedir pré-encomendas e subsídios para antibióticos, que consideram demasiado pouco rentáveis, aproveita o Covid para tentar reforçar ainda mais este modelo como referência para o futuro: dinheiro público para cobrir todos os riscos e lucros nos bolsos dos accionistas...

O poder de decisão foi abandonado pelos Estados, que delegaram tudo às grandes empresas num sector hiperfinanciado. Investimento público na investigação, organização de ensaios clínicos, subsídios directos para o desenvolvimento de vacinas, infra-estruturas de produção e logística, mecanismo de compra antecipada de vacinas a preços muito elevados...

E se ao menos o problema fosse resolvido! Mas não.Ninguém sabe se os produtos que fazem a primeira página hoje cortam a cadeia de transmissão do vírus, e qual, enquanto esta é a dimensão essencial para determinar a eficácia de uma vacina.
O que nos dizem é que, duas ou três semanas após uma injecção, há alguma protecção contra a doença... No entanto, para a saúde pública, é essencial saber mais sobre a eficácia e a segurança a longo prazo. E chegados a este ponto, os governantes não sabem…o que dizer. E entretanto, a pandemia avança, os variantes mudam, e imunizar contra a proteína Spike, que permite que o coronavírus penetre nas células, não é adquirido, segundo dizem os especialistas.

Outra questão: Quais são as populações que mais podem beneficiar de uma vacina imediatamente? Tenho a impressão que os países do Sul começam a ser esquecidos.

Mais de 7 mil milhões de pessoas, duas doses de vacina: os cálculos são feitos. As ferramentas do mercado estão a chegar, são bens de consumo, de certa forma, que são empurrados para a frente para as lógicas do lucro...

E os governos, encurralados entre a prioridade da saúde publica e o desastre económico do confinamento, hesitam… A optimização é difícil…

Entretanto, os oportunistas “politiqueiros” do costume, procuram tirar benefícios da tragédia… sem nos dizer como fariam se estivessem no comando...