Parece que já muito pouca gente se lembra da “pouca vergonha” que era a entrada traseira do Palácio da Ajuda, aquela chaga sinistra num edifício com alguma dignidade, mas que, à moda de Santa Engrácia, ficou incompleto mais de dois séculos. Mas, para que isso se atenue, vou deixar aqui uma retrato desses tempos.
Recordo-me de discussões, nos anos 80 e 90, sobre a necessidade de pôr cobro àquela indignidade, como tenho ideia de outros projetos surgidos, e nunca levados à prática, que foram engrossar a imensa torre do tombo onde foram têm sido arquivadas ideias arquitetónicas que nunca disso passaram.
Nos anos em que Luís Castro Mendes foi ministro da Cultura de António Costa, a ideia de “fechar” aquele espaço, com uma obra de novo estilo, foi retomada.
Saudei-a, com sincero entusiasmo, por aqui. Brinquei então com o facto de que o ministro poderia ficar “na História” se conseguisse lançar as bases da conclusão do palácio. E ele conseguiu.
Um dia, com a pompa republicana e os capacetes de segurança da praxe, lá vi Castro Mendes e Fernando Medina arrancarem com a obra - a qual, para surpresa de muitos, avançou mesmo e, ao que parece, vai agora concluir-se.
Castro Mendes, entretanto, deixou o governo, mas a obra que lançou, e cuja iniciativa promoveu, ali está e vai ficar, à vista de todos.
O “Expresso” publicou, entretanto, um longo texto sobre a obra. Mas aí consegue, voluntária ou involuntariamente, com a capacidade de ilusão de um Luís de Matos, retirar Castro Mendes da "fotografia". Terá sido deliberado? Nem quero crer!
Quem há muito conhece Luís Castro Mendes, como é o meu caso, sabe que ele andou, em tempos, nas bordas do “trotskismo”, essa doutrina persistente que sempre me surge, bem vincada na cabeça, quando dou por mim a partir gelo com um martelo.
Ora sabe-se que Trotsky foi, militantemente, "apagado" das fotografias históricas por Stalin, seguramente por tricas bolchevistas de alcova, que não vêm aqui para o caso. Houve mesmo um tal Mercader que se meteu ao barulho.
Não se suspeitava, no entanto, é que o “Expresso” pudesse sofrer, nos dias de hoje, de uma qualquer deriva estalinista, anti-trotskista, disso resultando o "apagamento" de Castro Mendes da fotografia das obras do Palácio da Ajuda.
Não excluo, repito, que possa ter-se tratado apenas de um erro pontual. Mas, a sê-lo, e sendo os factos o que são, não ficaria mal ao “Expresso” reconhecê-lo.

