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segunda-feira, fevereiro 23, 2026

Jaime Ramos


Há um rumor que circula pelos mentideros: com a saída de Luís Neves da direção da Polícia Judiciária - chamado agora a ministro da Administração Interna - o nome mais falado para o suceder é o do inspetor Jaime Ramos, figura de prestígio na PJ do Porto. Limito-me a relatar o rumor. Não estou a fazer lóbi, acreditem.

Mas quem é, afinal, este homem? Deixo um perfil que li algures e que me parece auto-explicativo: “Jaime Ramos é um investigador especial: preocupa-o a distinção entre lei e justiça; define-se a si mesmo como um biógrafo de vidas desesperadas; discute com as armadilhas da História e com as poderosas endogamias portuguesas; construiu uma relação especial com a cozinha; recorda o seu passado político; como pessimista, é um cómico que enfrenta o sofrimento dos outros. Tudo o interessa, como um erudito; nada o comove aparentemente, como um homem que vive à parte.

Há, porém, uma camada adicional nesta história - e não é uma coincidência menor. Como é sabido, o escritor Francisco José Viegas criou, há mais de três décadas, uma personagem com o mesmo nome: “Jaime Ramos”, também inspetor da Polícia Judiciária, que passeou por muitos dos seus romances. 

Uma situação curiosa, imagino que inédita. Nunca houve um Maigret real no Quai des Orfèvres, em que Simenon se pudesse ter inspirado.

Leitor atento da obra de Viegas, sempre me perseguiu uma dúvida: como viveria o verdadeiro inspetor com a sua figura ficcionada? E decidi conhecê-lo. Não foi simples.

Telefonei a um velho amigo, há muito afastado da Judiciária, sabendo que os dois se haviam cruzado noutros tempos. Quando lhe disse que precisava de ajuda para falar com Jaime Ramos, ele interrompeu-me, alarmado: “O homem da Madeira, amigo do Alberto João?” “Não - o inspetor da Judiciária”, esclareci. Não percebi porquê, ficou logo mais sossegado. Mas não deixou de torcer o nariz - senti-o, ainda que falássemos ao telefone. “É um tipo sério, mas bisonho. Duvido que queira falar contigo. Os diplomatas não devem fazer muito o estilo dele.”

Mas fez. Consegui agendar um encontro com o homem da Judiciária. Como costumo ficar num hotel muito próximo da casa onde vive, perto de Campanhã, sugeri que tomássemos aí o pequeno-almoço. “Mas lá não se fuma, não é?” - e riu-se. Depois, sempre sereno: “Por mim, tudo bem. Mas não sei se lhe vai interessar alguma coisa o que eu lhe possa dizer.”

A hora era matutina. Ele foi mais pontual do que eu, ainda estremunhado por uma noite mal dormida. Reconheci-o no instante - sem nunca o ter visto.

Sentámo-nos nos sofás, junto ao grande vidro que dá para a rua do Heroísmo. Para interromper a minha verborreia explicativa sobre o motivo da conversa - “temos três quartos de hora, não posso ficar mais tempo”, avisou logo -, apontou para um bar do outro lado da rua. “Estragaram aquela casa, o Nova Sintra. Vinha ali muito. Nunca me pediam para apagar o charuto.” E sorriu.

Disse-lhe ao que vinha: era para mim muito interessante que ele, o verdadeiro inspetor Jaime Ramos, fosse a sombra da figura que o escritor fazia passear pelos seus romances. Como convivia com esse facto? Era um caso inédito, curiosamente pouco conhecido no mundo literário português.

Jaime Ramos ouvia-me sem me fixar. Olhava à distância, parecendo atento à algaraviada de um grupo de turistas espanhóis, com crianças irrequietas esparramadas pelas alcatifas do hotel. 

Depois, subitamente, falou, com uma franqueza que me desarmou: “Nós não nos conhecemos e hesitei antes de termos esta conversa. Só o nosso comum amigo me convenceu. Mas já que teve a amabilidade de querer ter este encontro, vou ser tão franco consigo quanto posso.”

Fiquei estupefacto. Não estava à espera de uma qualquer confissão intimista. Dei comigo a pensar que isso estava nos antípodas do recorte psicológico da personagem que conhecia dos romances. Mas, caramba!, tinha de entender que ele era outra pessoa. E se este Jaime Ramos, o verdadeiro, tivesse afinal muito pouco a ver com aquele que o escritor nos vendia? Talvez o Francisco tivesse tido optado por não os "fundir".

“É amigo do Viegas?”, perguntou. Percebi que algum distanciamento me faria ganhar terreno. “Sou, mas não somos íntimos. Encontrámo-nos aqui ou ali, às vezes na praia…”

Voltou a olhar à distância - desta vez para a fila de carros parada até ao semáforo da esquina, logo depois da Cozinha do Manel, onde o Zé António me tinha reservado mesa para a uma. Não me fixava. Senti-o como que triste ou só nostálgico.

“Foram muitos anos. Conhecemo-nos no Bonaparte, na Foz, quando o Viegas andava a matutar no livro sobre o futebolista. Leu? "A Morte no Estádio". (Eu conhecia, claro). Perguntou-me então se podia usar o meu nome e a minha vida para desenhar a personagem que estava a criar. Achei graça e, quase sem pensar, disse que sim. Depois foi o que se viu. Ao longo do tempo, ele tentou falar-me várias vezes. Mas eu não quis. Ele ia sabendo coisas de mim por outros. E eu lia o meu nome nos romances.”

Fez uma pausa longa, na barulheira do hotel. “Ao contrário do que se possa julgar, isto não tem sido fácil. E gostava que soubesse que não me ajudou nada na profissão.”

Pareceu-me genuíno na melancolia que transpirava das palavras. Senti alguma pena. Levantou-se. Nem um quarto de hora tinha passado. Fomos andando em silêncio, até às escadas que dão para a rua. Confundido, um pouco baralhado, arrisquei uma última pergunta: “Mas, depois de todo este sucesso à volta do seu nome - está arrependido?”

“Pergunta bem. Não lhe sei responder.”

Logo saberemos. Se a ministra da Justiça vier a dar ao inspetor Jaime Ramos o lugar a que merecidamente tem direito, lá estarei na posse. Espero que Francisco José Viegas também não falte. Prometo que os reconcilio.

Só acontece em França, é claro!