Há um rumor que circula pelos mentideros: com a saída de Luís Neves da direção da Polícia Judiciária - chamado agora a ministro da Administração Interna - o nome mais falado para o suceder é o do inspetor Jaime Ramos, figura de prestígio na PJ do Porto. Limito-me a relatar o rumor. Não estou a fazer lóbi, acreditem.
Mas quem é, afinal, este homem? Deixo um perfil que li algures e que me parece auto-explicativo: “Jaime Ramos é um investigador especial: preocupa-o a distinção entre lei e justiça; define-se a si mesmo como um biógrafo de vidas desesperadas; discute com as armadilhas da História e com as poderosas endogamias portuguesas; construiu uma relação especial com a cozinha; recorda o seu passado político; como pessimista, é um cómico que enfrenta o sofrimento dos outros. Tudo o interessa, como um erudito; nada o comove aparentemente, como um homem que vive à parte.”
Há, porém, uma camada adicional nesta história - e não é uma coincidência menor. Como é sabido, o escritor Francisco José Viegas criou, há mais de três décadas, uma personagem com o mesmo nome: “Jaime Ramos”, inspetor da Polícia Judiciária, que passeou por muitos dos seus romances.
Uma situação curiosa, imagino que inédita. Nunca houve um Maigret real no Quai des Orfèvres, em que Simenon se pudesse ter inspirado.
Sempre me perseguiu uma dúvida: como viveria o verdadeiro inspetor com a sua figura ficcionada? Decidi conhecê-lo. Não foi simples.
Telefonei a um velho amigo, há muito afastado da Judiciária, sabendo que os dois se haviam cruzado noutros tempos. Quando lhe disse que precisava de ajuda para falar com Jaime Ramos, ele interrompeu-me, alarmado: “O homem da Madeira?” “Não - o inspetor da Judiciária”, esclareci. Sei lá porquê, ficou mais sossegado. Mas torceu o nariz - senti-o, ainda que falássemos ao telefone. “É um tipo sério, mas bisonho. Duvido que queira falar contigo. Os diplomatas não devem fazer muito o estilo dele.”
Mas fez. Conseguimos agendar um encontro. Como costumo ficar num hotel muito próximo da casa do inspetor, perto de Campanhã, sugeri que tomássemos aí o pequeno-almoço. “Mas lá não se fuma, não é?” - e riu-se. Depois, mais sereno: “Por mim, tudo bem. Mas não sei se lhe interessa o que lhe posso dizer.”
A hora era matutina. Ele foi mais pontual do que eu, ainda estremunhado por uma noite mal dormida. Reconheci-o no instante - sem nunca o ter visto.
Sentámo-nos nos sofás, junto ao grande vidro que dá para a rua do Heroísmo. Para interromper a minha verborreia explicativa sobre o motivo da conversa - “temos três quartos de hora, não posso ficar mais tempo”, avisou logo -, apontou para um bar do outro lado da rua. “Estragaram aquela casa, o Nova Sintra. Vinha ali muito. Nunca me pediam para apagar o charuto.” E sorriu.
Expliquei-lhe ao que vinha: era muito interessante que ele, o verdadeiro inspetor Jaime Ramos, fosse a sombra da figura que o escritor fazia passear pelos seus romances. Um caso inédito, e curiosamente pouco conhecido no mundo literário português.
Jaime Ramos olhava à distância, parecendo observar a algaraviada de um grupo de turistas espanhóis com crianças irrequietas pelas alcatifas do hotel.
Depois falou, com uma franqueza que não esperava: “Nós não nos conhecemos e eu hesitei antes de termos esta conversa. Só o nosso comum amigo me convenceu. Mas já que teve a amabilidade de querer ter este encontro, vou ser tão franco consigo quanto posso.”
Fiquei estupefacto. Não estava à espera de qualquer confissão intimista. Dei comigo a pensar que isso estava nos antípodas do recorte psicológico da personagem que conhecia dos romances. Mas ele era outra pessoa, caramba! E se este Jaime Ramos, o verdadeiro, tivesse afinal muito pouco a ver com aquele que o escritor nos vendia? Talvez o escritor não tivesse tido o ensejo de os "fundir".
“É amigo do Viegas?”, perguntou. Percebi que algum distanciamento me faria ganhar terreno. “Sou, mas não somos íntimos. Encontrámo-nos aqui ou ali, às vezes na praia…”
Voltou a olhar à distância - desta vez para a fila de carros parada até ao semáforo da esquina, logo depois da Cozinha do Manel, onde o Zé António me tinha reservado mesa para a uma. Não me fixava. Senti-o triste.
“Foram muitos anos. Conhecemo-nos no Bonaparte, na Foz, quando o Viegas andava a matutar no livro sobre o futebolista. Conhece? "A Morte no Estádio". (Eu conhecia, claro). Perguntou-me se podia usar o meu nome e a minha vida para desenhar a personagem que estava a criar. Achei graça e, quase sem pensar, disse que sim. Depois foi o que se viu. Ao longo do tempo, ele tentou falar-me várias vezes. Mas eu não quis. Foi sabendo coisas de mim por outros.”
Fez uma pausa longa, na barulheira do hotel. “Isto não tem sido fácil e, ao contrário do que se possa julgar, não me ajudou nada na profissão.”
Senti pena. Levantou-se. Nem um quarto de hora tinha passado. Fomos andando em silêncio até às escadas que dão para a rua. Confundido, arrisquei uma última pergunta: “Mas, depois de todo este sucesso à volta do seu nome - está arrependido?”
“Pergunta bem. Não lhe sei responder.”
Logo saberemos. Se a ministra da Justiça vier a dar ao inspetor Jaime Ramos o lugar a que merecidamente tem direito, lá estarei na posse. Espero que Francisco José Viegas também não falte. Prometo que os reconcilio.
