quinta-feira, 4 de fevereiro de 2021

As palavras, o seu sentido e as vacinas

Perguntaram-me, de um jornal, se achava que António Costa devia suscitar na Europa, dada a sua qualidade de primeiro-ministro do país que tem a presidência, a possibilidade de virem a ser adquiridas as vacinas russa e chinesa. Achei a ideia muito bizarra. Tentei explicar que, depois da decisão política do Conselho Europeu de colocar em comum as aquisições, foi à Comissão Europeia, instituição executiva da União, que competiu negociar as vacinas e até financiar a investigação pelos laboratórios. Qualquer nova iniciativa no domínio do alargamento das compras seria assim da sua responsabilidade. Mas um Estado membro poderia suscitar isso? Por decisão “política”? António Costa, por exemplo, como “presidente” europeu? Sublinhei que António Costa chefiava o país que detinha a presidência europeia, mas que ele não era o presidente do Conselho Europeu. Achei estranha a insistência neste possível “papel” de Costa. Falei das dúvidas que, por muito tempo, tinham rodeado a fiabilidade da vacinas russa e chinesa, que parecia que se estavam a esbater. E que, de facto, parecia haver agora mais gente a pensar comprá-las. Mas a Comissão Europeia saberia, melhor do que ninguém, se isso era compatível com os compromissos que tinha com os outros laboratórios. Mas Costa poderia ter essa iniciativa? insistiu o meu interlocutor. Claro que, se assim entendesse, Costa teria ”autoridade” para isso. Para não ter contrariar, em absoluto, um raciocínio que ia por um caminho um pouco absurdo, lá disse que, naturalmente, se a questão eventualmente se colocasse à mesa do Conselho, se uma qualquer outra vacina (eu disse “da Rússia, da China ou até de Marte...”) pudesse resolver os problema da Europa, seria “criminoso” não aproveitar essa oportunidade, por mera questão “política”. Pronto e a coisa saiu assim! Nunca mais aprendo!



5 comentários:

Lenah disse...

Citar fora do contexto para manipular e/ou enfeitar as noticias faz parte do reportorio habitual de certos jornalistas.
Aprendi isso bem cedo quando aos 8 anos participei num concurso da areia e um dos jornais me descrevia como tendo os cabelos compridos soltos; lembro-me de ter ficado espantada e indignada com a noticia pois tinha um rabo de cavalo,se bem que um pouco torto, com madeixas fora do lugar.

Luís Lavoura disse...

É sempre melindroso quando um indivíduo é surpreendido por um telefonema de um meio de comunicação social que nos pede para ali mesmo, no momento, de imediato e de viva voz tomar posição sobre uma coisa qualquer.

depois da decisão política do Conselho Europeu de colocar em comum as aquisições, foi à Comissão Europeia, instituição executiva da União, que competiu negociar as vacinas e até financiar a investigação pelos laboratórios. Qualquer nova iniciativa no domínio do alargamento das compras seria assim da sua responsabilidade.

Da responsabilidade de quem? A Comissão Europeia é apenas um órgão executivo, que recebe e executa as instruções do Conselho. Este último tem, pois, toda a legitimidade para tomar qualquer iniciativa. Inclusivamente, pode agora decidir contrariar a sua decisão anterior, e passar a permitir aos Estados que comprem vacinas separadamente.

Jaime Santos disse...

A Comissão e/ou o Conselho podem e devem considerar a hipótese de adquirir toda e qualquer vacina segura e eficaz. Desde que devidamente certificada pelas autoridades competentes.

Que eu saiba, no caso da vacina russa, o fabricante ainda não pediu autorização para a sua comercialização na UE pelas ditas autoridades (não sei o que se passa com a vacina chinesa). O resto não passa de especulação e nervos à flor da pele.

E cabe notar que, como salientou a OMS, este nacionalismo das vacinas não augura nada de bom. O RU em particular, deveria permitir a sua venda a países mais pobres, uma vez vacinadas as pessoas vulneráveis. A pandemia só poderá ser controlada se o for a nível global, até pelo surgimento de novas variantes que podem tornar as vacinas atuais ineficazes...

J.Tavares de Moura disse...

Li o post, fiquei intrigado mas não surpreendido. Fui ler a notícia e fiquei com a convicção que o jornalista, Tiago Soares do Expresso, já tinha o artigo escrito e andou a recolher depoimentos que sustentassem a sua narrativa.

Esta prática, muito em voga no jornalismo que se faz em Portugal nos dias de hoje, é ainda pior que as notícias mentirosas (Fake News). As transcrições de partes de declarações retiradas do seu contexto acabam, muitas das vezes, por induzir os leitores em conclusões que são o oposto do sentido daquilo que o entrevistado disse, quando lido o conjunto das declarações. É uma prática desonesta que não só viola o código deontológico da profissão como os valores éticos que deveriam nortear os jornalistas no exercício da profissão.

O jornalismo está num estado lastimável. Faz muito tempo que isto se escreve. Só tem mudado para pior. A falta de rigor, de isenção, a propositada manipulação através de artigos de opinião travestidos de notícias, são a norma do que lemos, vemos e ouvimos na comunicação social. Exemplo claro disto está retratado na inqualificável entrevista realizada no Telejornal da RTP1, pelo José Rodrigues dos Santos ao director clínico do Hospital da Luz, de que este trecho é elucidativo:

José Rodrigues dos Santos:
- "Os senhores estão a trabalhar com pacientes Covid numa altura em que os médicos do Serviço Nacional de Saúde estão a ser vacinados, e os políticos vão começar a ser vacinados na próxima semana, o Governo diz que os outros, os outros médicos, os do privado só serão mais tarde. O que é que o senhor pensa disso?".

Rui Maio, director clínico do Hospital da Luz:
- "Nós já somos vacinados, nós já recebemos vacinas, recebemos inicialmente vacinas para todas as pessoas que estão directamente envolvidas no tratamento dos doentes Covid e portanto podemos dizer que neste momento todos os profissionais de saúde que estão envolvidos directamente no tratamento dos doentes, quer sejam médicos, enfermeiros, técnicos, auxiliares, já estão vacinados, e conseguimos também alargar para outras especialidades de maior risco e que estão em contacto com estes doentes, nomeadamente pneumologia, gastroenterologia, medicina dentária, otorrino, enfim, especialidades de maior risco já estão vacinados neste hospital"

septuagenário disse...

Quando isto começou eramos os melhores, agora estamos no fim da tabela.

Tudo pelos brandos costumes de um Governo e de um presidente sem qualquer perfil para crises.

Azar que vamos pagar caríssimo!